Antigo Matadouro apresenta risco estrutural e mobiliza MP e Conselho de Patrimônio

Com paredes escoradas, rachaduras e parte da cobertura desabada, prédio tombado preocupa especialistas e órgãos responsáveis pela preservação

Por Caroline Mendes

Imóvel tombado desde 1996 teve paredes escoradas de forma emergencial após avanço dos danos estruturais

O antigo Matadouro Municipal de Sorocaba, um dos principais patrimônios históricos da cidade, enfrenta um avançado processo de deterioração estrutural e voltou a acender o alerta de especialistas, integrantes do Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico (CMDP) e do Ministério Público. O imóvel, tombado desde 1996, apresenta rachaduras nas paredes, infiltrações, marcas de desgaste provocadas pelo tempo e parte da cobertura já desabou.

Atualmente, algumas paredes estão sustentadas por escoras instaladas de forma emergencial para evitar agravamento dos danos. Segundo a arquiteta, especialista em restauro e vice-presidente do CMDP, Mônica Pìnesso Cianfarani, a medida foi solicitada pelo próprio conselho após o avanço dos problemas estruturais. “Essas construções antigas não têm vigas como os prédios atuais. Parte da sustentação dependia do telhado. Quando houve a queda da cobertura, a preocupação aumentou muito”, afirmou.

Ela acompanha há anos a situação do imóvel e explica que o processo envolvendo o Matadouro voltou a ser discutido pelo Ministério Público após o desabamento registrado em março do ano passado. “Já existia um procedimento anterior, mas ele acabou sendo retomado depois da queda da cobertura. Agora está sendo discutida a elaboração de um novo laudo técnico por um perito especializado”, disse.

Segundo a arquiteta, a prefeitura e o Ministério Público já encaminharam questionamentos técnicos para a elaboração do documento pericial, que deverá apontar as condições estruturais do prédio e eventuais medidas necessárias para preservação da edificação.

Apesar do cenário considerado delicado, ela afirma que o prédio ainda pode ser recuperado. “O maior erro quando se fala em patrimônio histórico é imaginar que restauração significa voltar exatamente ao estado original. O prédio ainda mantém fachadas, paredes e elementos importantes da estrutura. É possível fazer um projeto contemporâneo, preservando a história da edificação”, explicou.

O Matadouro Municipal foi inaugurado em 8 de janeiro de 1928 e funcionou até 1975, quando as atividades de abate foram encerradas por determinação do Ministério da Agricultura. Depois disso, o prédio passou a ser utilizado por setores administrativos da prefeitura até o tombamento, em 1996.

Segundo a pesquisadora, o processo de preservação acabou coincidindo com o abandono gradual do espaço. “O tombamento deveria garantir proteção, mas o prédio acabou sendo esvaziado. Houve uma tentativa de restauro nos anos 2000, porém ela não foi concluída. Depois disso, o imóvel ficou décadas sem uma utilização efetiva”, afirmou.

Ela relata que, ao longo dos anos, o prédio sofreu sucessivas perdas. Esquadrias instaladas durante intervenções anteriores foram furtadas, estruturas metálicas desapareceram e pichações passaram a surgir principalmente após 2021, período em que o local teria apresentado piora mais acentuada. “A degradação aumentou muito nos últimos anos. Quando fizemos levantamentos em 2021, a situação já preocupava, mas ainda era melhor do que agora”, disse.

A arquiteta também afirma haver preocupação com a movimentação de caminhões e o armazenamento de materiais no entorno do imóvel. Segundo ela, o fluxo intenso ocorre dentro da área envoltória do patrimônio, que deveria ter restrições específicas por causa do tombamento. “Existe movimentação constante muito próxima do prédio. Também houve problemas de drenagem no entorno. Tudo isso preocupa porque pode comprometer uma estrutura que já está fragilizada”, afirmou.

Desde 2014, a pesquisadora realiza levantamentos fotográficos e estruturais da edificação. O material reúne registros históricos, plantas, fotografias antigas e levantamentos das patologias da estrutura. “Pelo menos existe hoje uma documentação detalhada do que ainda resta da edificação e das transformações que ela sofreu ao longo do tempo”, disse.

A situação do antigo Matadouro também repercutiu na Câmara Municipal. Após reportagem publicada pelo Cruzeiro do Sul, o vereador Raul Marcelo (PSOL) protocolou requerimento cobrando da prefeitura informações sobre medidas emergenciais, cronograma de recuperação e destinação dos patrimônios históricos da cidade, incluindo o imóvel.

No documento, o parlamentar questiona quais ações concretas serão adotadas para recuperação do Matadouro, se existem projetos executivos em andamento e quais medidas estão sendo tomadas para evitar agravamento da deterioração estrutural.

Em nota encaminhada ao Cruzeiro do Sul, a Prefeitura de Sorocaba informou que um novo laudo técnico será realizado pelo Ministério Público, com perito designado pelo órgão. Segundo a administração municipal, há acompanhamento regular das condições estruturais do prédio e recentemente foi realizado o escoramento das paredes “a fim de evitar novos danos à estrutura”.

A prefeitura também informou que busca parcerias para recuperação e melhor aproveitamento do espaço, destacando que o imóvel demanda alto investimento e enfrenta questões legais relacionadas às características históricas do patrimônio.

Ainda conforme o Executivo, o CMDP mantém monitoramento periódico dos patrimônios históricos da cidade e pode ser acionado em situações de depredação ou risco envolvendo imóveis tombados.