Indefinições travam recuperação de prédios históricos

Fórum Velho, Matadouro e complexo ferroviário seguem sem uso; Prefeitura aponta limites jurídicos

Por Caroline Mendes

Mosteiro de São Bento teve obra de restauração iniciada, mas não foi concluída

Prédios históricos de Sorocaba continuam sem uso definido ou em estado de degradação, apesar de recorrentes discussões sobre preservação e reaproveitamento. Entre eles estão o Fórum Velho, o Mosteiro de São Bento, o antigo Matadouro Municipal e o complexo da antiga Estrada de Ferro Sorocabana (EFS). Em comum, os imóveis enfrentam entraves ligados à titularidade, alto custo de restauração e processos administrativos em andamento.

A situação do complexo ferroviário envolve um problema maior. Os bens integram a Malha Oeste, atualmente sob concessão da Rumo Logística, mas o contrato está em processo de devolução amigável desde 2021, com relicitação em andamento. A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) prevê o encerramento do contrato vigente em julho de 2026. Até lá, embora haja obrigação de manutenção, as antigas oficinas da EFS têm telhados comprometidos, acúmulo de entulho e vegetação avançando sobre os trilhos.

A indefinição sobre o futuro da concessão impacta diretamente na possibilidade de intervenção nos imóveis, já que qualquer projeto de recuperação depende da resolução contratual e da definição de responsabilidades. A própria ANTT informou que as condições dos prédios serão consideradas no levantamento de ativos e passivos ao fim do contrato.

A antiga estação da EFS, que sofre deterioração em sua parte interna, deve ser restaurada e reaproveitada com a mesma finalidade para o futuro Trem Intercidades (TIC) Eixo Oeste, que ligará Sorocaba à capital paulista.

Fórum Velho

Outro fator que limita ações diretas do município é a titularidade dos bens. Segundo a Secretaria de Cultura (Secult) de Sorocaba, o Fórum Velho pertence ao governo estadual, mas sob permissão de uso do município. A prefeitura aguarda a doação definitiva do imóvel, o que permitiria ampliar a captação de recursos e estruturar parcerias público-privadas para a revitalização.

Enquanto isso, há uma tentativa de reocupação por meio de edital que prevê o credenciamento de empresas para utilização das 40 salas do prédio. O modelo transfere aos interessados a responsabilidade por investimentos e projetos arquitetônicos, incluindo possíveis usos culturais, como exposições. No entanto, não há detalhamento sobre intervenções estruturais nem cronograma de restauração.

O antigo Matadouro Municipal é apontado como um dos casos mais complexos. A prefeitura afirma que busca parcerias para viabilizar a recuperação ou reaproveitamento, destacando o alto custo e as exigências legais por se tratar de patrimônio histórico. Como medida imediata, será realizado o escoramento das paredes, para evitar agravamento de danos estruturais.

Mosteiro

A prefeitura e o Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio (CMDP) atuam na fiscalização de eventuais intervenções no Mosteiro de São Bento, construído no século 17. Uma restauração do prédio histórico foi iniciada a partir de 2014, porém não houve conclusão. Não há sinais de trabalho de recuperação, apesar de tapumes. A reportagem tentou contato com os responsáveis, mas não houve retorno.

Apesar de listar ações pontuais e explicar os limites legais, a Prefeitura de Sorocaba não respondeu diretamente a parte dos questionamentos encaminhados pela reportagem. Não foram apresentados, por exemplo, cronogramas concretos de restauração para o Fórum Velho ou o Matadouro, nem detalhamento sobre parcerias público-privadas em estágio avançado ou orçamento específico destinado ao patrimônio histórico.

Também não houve retorno mais aprofundado sobre os principais entraves além da titularidade — como burocracia ou gestão —, nem sobre riscos técnicos de perda estrutural ou descaracterização dos imóveis ao longo do tempo.

O CMDP, citado pela administração, tem função consultiva e pode ser acionado pela população em casos de depredação, notificando proprietários e órgãos responsáveis. Ainda assim, a ausência de planos estruturados e a multiplicidade de responsáveis mantêm os imóveis em um cenário de indefinição.

Enquanto isso, prédios com potencial histórico, cultural e turístico seguem sem uso na cidade, à espera de soluções que avancem além das limitações jurídicas e transformem projetos em intervenções efetivas.