O que os sorocabanos pensam da Marginal Direita?
População se manifesta sobre o tema; maioria é contra a proposta
Nos últimos dias, o jornal Cruzeiro do Sul ouviu pessoas de diversas esferas sobre a construção, ou não, da Marginal Direita. Hoje, foi a vez da população. A reportagem esteve em pontos da cidade, como a praça Coronel Fernando Prestes e as proximidades da própria marginal.
Vereadores, instituições e especialistas já deram suas opiniões. Mas o que os sorocabanos pensam do projeto?
No centro da cidade, o clima era de compras por conta da proximidade do Dia das Mães. Entre lojas e presentes, diversos sorocabanos falaram sobre a obra que poderá impactar diferentes regiões da cidade.
O vendedor Lucas Martins, de 29 anos, afirmou: “Entendo que a cidade está crescendo e precisa de mais vias, mas a questão ambiental é muito importante para mim. Prefiro projetos que ajudem a mobilidade sem prejudicar o ambiente.”
Ao longo do dia, dezenas de pessoas foram ouvidas pela reportagem. As respostas variavam entre apoio à obra, preocupação ambiental e dúvidas sobre os impactos reais no trânsito da cidade. Em comum, muitos defendiam maior transparência e mais debate público sobre o projeto.
Muitas pessoas afirmaram ainda que não sabiam nada sobre o tema, nem que a construção estaria próxima de começar, o que demonstra que o assunto não foi amplamente divulgado e que o debate está longe de se encerrar.
“Precisa melhorar o trânsito naquela região, de manhã e fim de tarde a Dom Aguirre não dá conta, trava tudo. Mas também tem que ver para onde ela vai levar os carros, porque tanto a avenida São Paulo quanto a Joaquim Silva já são complicadas nesses mesmos horários”, afirmou um motorista de aplicativo que preferiu não se identificar.
A preocupação tem embasamento, já que as duas avenidas que seriam interligadas diretamente pela nova marginal já possuem grande tráfego.
A avenida São Paulo corta grande parte da cidade, interligando a rodovia Raposo Tavares — e seu início fica próximo ao trevo com a rodovia Celso Charuri. Em sua outra extremidade, termina na ponte Francisco Dellosso; do outro lado da ponte está a rua Quinze de Novembro, que corta o centro da cidade.
Já a avenida Joaquim Silva começa na sequência da avenida Quinze de Agosto, quando esta cruza com a rodovia José Ermírio de Moraes, a Castelinho. Na continuação, muda de nome para avenida Rudolf Daffener e termina na avenida Engenheiro Carlos Reinaldo Mendes, que passa em frente à prefeitura de Sorocaba.
“A cidade está crescendo, mas não quero que meus netos só vejam árvores em livro de escola. A floresta faz parte daqui. Podia virar um parque, seria melhor para todo mundo. A gente vê capivara às vezes; se começar a cortar a pouca floresta que tem, vai perder tudo isso”, afirmou a professora Maria Helena, de 62 anos.
Alguns pescadores que estavam à beira do rio contaram que têm o costume de pescar no local desde pequenos, com seus parentes. Um deles disse que gostaria que a marginal não fosse construída, já que o número de peixes vem aumentando nos últimos anos, mas que uma grande obra poderá matar ou espantar boa parte da fauna aquática do local. “Desde pequeno eu venho aqui, pesco lambari, tabiú, às vezes até traíra aparece. Mas cada vez que mexem nas marginais, diminui muito, fica complicado”, afirmou um pescador de 66 anos que preferiu não se identificar.
As diferentes opiniões ouvidas pela reportagem mostram que o debate sobre a Marginal Direita vai além de trânsito e mobilidade.
O tema ambiental citado por muitos entrevistados também aparece nos documentos do projeto. Um laudo técnico elaborado em 2022 aborda a caracterização da vegetação que poderá ser suprimida para a implantação da Marginal Direita.
Questões ambientais, críticas ao planejamento urbano e pedidos por melhorias viárias fazem com que a obra desperte sentimentos distintos entre os moradores, evidenciando uma cidade dividida sobre qual caminho seguir para o futuro.
Opiniões online
Ao longo da semana, o jornal Cruzeiro do Sul publicou diversas postagens sobre o tema nas redes sociais. Nos comentários, leitores também participaram do debate e registraram suas opiniões sobre o projeto.
As publicações receberam dezenas de comentários. Grande parte das manifestações é contrária à construção da marginal, ou ao menos ao modelo apresentado pela prefeitura. Entre os principais argumentos estavam preocupações ambientais, dúvidas sobre a eficácia da obra para melhorar o trânsito e pedidos por alternativas de mobilidade urbana.
Leitores comentaram, por exemplo, que a alternativa proposta pelo Cruzeiro do Sul seria uma opção viável, já que mantém boa parte da floresta. Outros lembraram que países do mundo todo estão tomando iniciativas para reflorestar, e que Sorocaba estaria na contramão ao destruir o que resta. Houve também quem defendesse a construção, argumentando que a cidade precisa de mais vias para que o trânsito flua melhor.
A proposta citada defende que a via seja construída respeitando a distância de 50 metros das margens do rio, conforme recomendado pelo Código Florestal, o que permitiria a manutenção da área verde e a construção da marginal.
Mesmo entre opiniões divergentes, um ponto aparecia com frequência: a percepção de que a discussão sobre a Marginal Direita deixou de ser apenas uma obra viária e passou a representar um debate mais amplo sobre o futuro da cidade.
Mais do que uma nova via, a Marginal Direita acabou se tornando símbolo de uma discussão sobre crescimento urbano, preservação ambiental e os rumos que Sorocaba pretende tomar nas próximas décadas.