Avanço tecnológico e mudanças culturais redefinem exigências do mercado de trabalho

Com 616 mil trabalhadores, Sorocaba enfrenta desafios de equilíbrio e saúde mental no ambiente laboral

Por Tom Rocha

Posto de atendimento ao Trabalhador (PAT) é uma das principais fontes de busca de recolocação profissional dos sorocabanos

Sorocaba tem um mercado de trabalho que engloba 131.764 estabelecimentos comerciais, segundo informações da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS). O documento também registra 616.792 empregados cadastrados em todos os setores, com remuneração média de R$ 2.931,39. Os dados são referentes a 2024 e foram divulgados no dia 17 de abril deste ano. A publicação ganha relevância especial no contexto do Dia do Trabalhador, celebrado hoje (1º), data que tradicionalmente reforça debates sobre condições laborais, direitos sociais e os desafios enfrentados pelos trabalhadores diante das transformações econômicas e tecnológicas.

Especialistas entrevistados pela reportagem apontam que empregados devem estar atentos às atualizações dos processos de trabalho e procurar evitar o esgotamento, que pode provocar aumento de ansiedade e depressão. É uma balança difícil de equilibrar, dada a velocidade do cenário atual de mudanças, principalmente com o avanço de novas tecnologias de comunicação e da inteligência artificial.

Os setores econômicos que mais reúnem trabalhadores foram comércio varejista (101.997), atividades de atenção à saúde humana (30.579) e fabricação de produtos alimentícios (27.527). De acordo com dados da Receita Federal do Brasil (RFB), em Sorocaba, do total de estabelecimentos com registro até 2025, 19,5% correspondem a “Outros” (73.530 estabelecimentos), 44,8% a Microempreendedor Individual - MEI (168.881 estabelecimentos), 30,5% a Microempresa - ME (115.263 estabelecimentos) e 5,2% a Empresa de Pequeno Porte - EPP (19.626 estabelecimentos).

Múltiplas gerações

“Hoje, contratar vai muito além da experiência técnica. O setor de recursos humanos lida com múltiplas gerações, cada uma com valores, expectativas e formas de trabalhar distintas, o que transforma a cultura das empresas. Nesse novo cenário, o ’fit cultural’, a adaptabilidade e as habilidades comportamentais se tornaram decisivos, muitas vezes tanto quanto ou mais que o conhecimento técnico”, explica Thamara Silverio Dias, profissional de RH.

Isso eventualmente pode se transformar em pressões, e que devem estar no radar de todo empregado. “A hiperconectividade permite que todo momento seja um momento possível para se trabalhar e o trabalho remanescente da pandemia faz com que muitas pessoas não tenham nenhum limite físico entre a vida profissional e o pessoal. O resultado disso é o aumento de ansiedade, depressão, quadros de esgotamento como o burnout e o abuso de medicamentos e álcool como tentativas de algum relaxamento”, analisa o psicólogo comportamental João Eduardo Cattani.

“Alguns sinais podem servir de alerta, como a irritabilidade crônica que impacta os relacionamentos ou uma tendência ao isolamento; o desinteresse pelo trabalho, evitar de atividades prazeirosas que antes eram vivenciadas e problemas no sono”, alerta. Mas há alternativas. Segundo Thamara, o RH tem entendido que produtividade e bem-estar não são opostos, mas complementares. “Por isso, vem investindo em ambientes mais flexíveis, modalidade de trabalho híbrido, programas de bem-estar, escuta ativa e mantendo as lideranças mais próximas. Com isso, promovem naturalmente um ambiente com mais qualidade de vida, desenvolvimento e equilíbrio, fortalecendo o engajamento e, como consequência, reter talentos de forma mais sustentável”, analisa a profissional.

“Na prática, as empresas têm valorizado cada vez mais profissionais que tem maior adaptabilidade, flexíveis a mudanças, que saibam lidar com cenários incertos. Além do conhecimento técnico, podem gastar destaque quem tem uma comunicação clara, tem bom trabalho em equipe, resiliência, inteligência emocional para enfrentar os desafios e pensamento crítico para tomada de decisões”, finaliza Thamara.

IA e dignidade

“É possível ver que o temor de perder o trabalho para a IA e outras tecnologias paira no inconsciente coletivo da sociedade atual. Dentro das empresas, isso tende a gerar ansiedade, maior competitividade, necessidade constante de provar que tem valor e busca acelerada por qualificação. Fora delas, pode levar ao adiamento de projetos pessoais como casamento e filhos, além de maior insegurança financeira”, comenta João Eduardo.

“Em uma encíclica do papa João Paulo II de 1981 chamada Laborem Exercens (“Sobre o Trabalho Humano”), o pontífice argumenta que o trabalho não é apenas uma forma de servir à sociedade, mas uma forma de servir à própria dignidade, responsabilidade e sentido de vida. Em leitura laica, isso reforça a ideia de que o trabalho possui valor humano, não apenas mercantil. Quando uma sociedade ameaça o acesso ao trabalho, não afeta somente a renda das pessoas, mas também o pertencimento e perspectiva de futuro”, opina o psicólogo.

Ambiente laboral

O avanço da tecnologia e novas formas de organização laboral representam um desafio para muitas empresas. “Um dos principais obstáculos atuais é equilibrar desempenho consistente com a sustentabilidade das entregas. Nesse contexto, nossa empresa estrutura suas práticas de trabalho para conciliar eficiência operacional, dinâmica das equipes e gestão do tempo, adotando diretrizes alinhadas às necessidades do negócio e à construção de um ambiente saudável e colaborativo”, comenta Roberto Suguihara, sócio-diretor da consultoria Apter. “Em linha com esse movimento, acompanhamos de perto a evolução tecnológica, com especial atenção ao avanço da inteligência artificial, incentivando sua aplicação no dia a dia por meio de iniciativas estruturadas de capacitação e disseminação de boas práticas”, afirma. “O objetivo é preparar os profissionais da nossa empresa não apenas para os desafios atuais, mas também para as transformações futuras do mercado”.