Relato de moradores, imagens e documentos levantam suspeitas; Saae de Sorocaba afirma que intervenção foi regular
Denúncia feita por vereador ao Ministério Público aponta possível "obra encenada" para vídeo do prefeito Rodrigo Manga
O caso envolve a abertura de um buraco na rua Diadema, no Jardim Leocádia, em 9 de abril. Trata-se de uma obra realizada pelo Serviço Autônomo de Água e Esgoto de Sorocaba (Saae) que chegou em forma de denúncia ao Ministério Público de São Paulo.
A reportagem do Jornal Cruzeiro do Sul esteve no local nesta sexta-feira (24) e conversou com várias pessoas. Um morador da região, que não quis se identificar, descreveu a movimentação no dia da obra no local e demonstrou estranheza com a intervenção. “Mas eu vou ser bem sincero, cavaram o buraco pra gravar o negócio. Não tinha nada”, afirmou.
Segundo o morador, a ação mobilizou estrutura e durou praticamente o dia todo. “E assim, eles chegaram, eram umas 10 pras 8 da manhã. E foram finalizar quase 4 horas da tarde. Então, assim, cavaram. Aí veio um caminhão pipa, encheu d’água. Aí, cara, veio escavadeira. Muito transtorno pra fazer uma gravação de 15 segundos”, relatou.
Outro morador destacou a reação dos vizinhos ao descobrirem o suposto objetivo da intervenção. “Tanto é que quando a gente ficou sabendo que era pra gravação, a gente ficou meio que indignado. A gente falou, 'meu, vocês estão de brincadeira. Vocês fizeram um baita de um buraco desse pra gravar um vídeo de 15 segundos?'”, disse.
O morador ainda questiona a justificativa apresentada. “Aí o cara disse pra gente: 'não, é problema de esgoto'. Aí a gente falou, se fosse problema de esgoto, a gente seria o primeiro a entrar em contato com a prefeitura”, completou.
A reportagem também conseguiu acesso a imagens de câmeras de segurança da região. Nelas é possível ver a equipe do Saae chegar ao local às 8h10, do dia 9 deste mês, com uma escavadeira e iniciar a abertura do buraco. Às 9h10, um caminhão pipa chega e enche a vala com água. O prefeito Rodrigo Manga aparece no local às 10h33 e deixou a cena cerca de dez minutos depois, às 10h43. De acordo com o registro, logo após a saída, funcionários iniciaram o fechamento da vala. Fotografias feitas pela equipe mostram que a abertura tinha dimensões equivalentes ao tamanho de um carro.
Denúncia
Uma denúncia sobre o caso foi feita pelo vereador Raul Marcelo (PSol) ao MP e aponta que a intervenção realizada pelo Saae teria sido encenada para a gravação do vídeo do prefeito Manga, com uso indevido de recursos públicos.
Segundo a representação, a intervenção não teria sido motivada por necessidade real de manutenção, mas sim pela produção de conteúdo para redes sociais.
De acordo com o documento, há indícios de irregularidades na formalização da obra, como repetição de imagens nos registros de “antes e depois”, ausência de evidências técnicas do reparo e inconsistências sobre a origem da demanda. A denúncia também aponta que servidores e equipamentos públicos, como retroescavadeira, teriam sido utilizados na ação.
A denúncia sustenta que o caso pode configurar desvio de finalidade no uso da estrutura pública e cita, em tese, possíveis crimes como improbidade administrativa, peculato e falsidade documental, que deverão ser analisados pelo Ministério Público.
Em andamento
Em nota, o Ministério Público informou que já recebeu duas Notícias de Fato sobre o mesmo caso. “O MPSP informa ter recebido duas Notícias de Fato (NF) sobre o tema as quais estão em análise.”
O órgão não detalhou o teor das denúncias, autorias e nem prazo de análise. Contudo, conforme consta, o MP tem o prazo de 30 dias, a contar do recebimento, para analisar a denúncia. Mas a prorrogação pode chegar até 90 dias, de forma fundamentada, se forem necessárias mais apurações.
Resposta Saae
Em resposta à reportagem, o Saae informou que a intervenção foi necessária e seguiu os protocolos. Nem a prefeitura, nem o prefeito se manifestaram sobre o caso até o momento.
Segundo a autarquia, a vala foi aberta para manutenção em rede de esgoto, com troca de uma abraçadeira danificada.
O órgão afirma que o serviço foi concluído no mesmo dia, com recomposição do pavimento, e que a ação partiu de uma solicitação formal registrada, seguindo fluxo interno que garante a rastreabilidade das ordens de serviço.