Crise no CHS reacende debate sobre estrutura, gestão e atendimento
Relatos de falhas e mortes de pacientes colocam hospital sob pressão; direção reconhece problemas e cita alta demanda
Um dos principais centros de saúde pública da Região Metropolitana de Sorocaba, o Conjunto Hospitalar de Sorocaba (CHS), volta ao centro do debate diante de uma série de relatos recentes que apontam problemas estruturais, falhas no atendimento e dificuldades operacionais em setores críticos da unidade.
Procurada, a direção do hospital afirma que reconhece parte dos problemas, mas destaca que a unidade opera sob alta demanda e complexidade. “Temos problemas estruturais importantes, temos problemas de ar-condicionado, vazamentos e infiltrações por causa do telhado”, afirma o superintendente do Seconci, que gere o CHS, doutor Paulo Quintaes.
Com histórico marcado pela importância regional, atendendo não apenas Sorocaba, mas pacientes de 48 municípios, que totalizam quase 3 milhões de pessoas, o hospital enfrenta, segundo relatos, um cenário de sobrecarga, falta de insumos e questionamentos sobre a qualidade da assistência prestada.
O vereador Ítalo Moreira (Missão) afirmou que um dos pontos mais sensíveis envolve casos de mortes de crianças, que passaram a ser associados, em relatos, a possíveis falhas no atendimento e nas condições da unidade. “Nós temos pelo menos seis crianças que morreram por descaso.”
Para o vereador Izídio de Brito (PT), a situação atual contrasta com a trajetória da instituição, construída ao longo de décadas como referência no atendimento público. “É uma instituição que foi construída com muita luta e prestou grandes serviços. A gente precisa preservar essa história, mas o que tem chamado atenção agora é esse número grande de ocorrências graves”, afirma.
Entre os principais pontos levantados estão mortes de pacientes, especialmente em casos envolvendo bebês, demora no atendimento e dificuldades no encaminhamento de casos de maior complexidade. “Tem falta de insumo, falta de encaminhamento, demora no atendimento. É um conjunto de problemas que precisa ser entendido”, diz.
No dia 14 de março, o jornal Cruzeiro do Sul noticiou a morte de um recém-nascido que nasceu prematuro em 1º de dezembro de 2025 e permanecia internado desde o nascimento na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Neonatal do hospital.
O bebê teria apresentado uma fratura em um dos braços durante a internação. De acordo com os pais, nem as circunstâncias da lesão nem da morte foram explicadas pelo hospital.
“Nem a carteira de vacinação do meu filho, nem os exames, nada. A única coisa que recebemos do hospital foi a certidão de óbito para poder enterrar o menino”, afirmou a mãe.
Sobre o caso, o diretor afirma que a criança apresentava quadro extremamente grave. “Foi uma fratura espontânea. Não foi trauma, não foi descaso”, diz. Segundo ele, o bebê era prematuro extremo, com múltiplas complicações clínicas, e a fratura já havia se consolidado e não afetou o óbito do bebê.
A direção afirma que, em casos de maior repercussão, familiares são chamados para reuniões com a equipe médica e administrativa para esclarecimentos. “Nós trazemos a família para essa mesa e explicamos toda a situação”, afirma Paulo. De acordo com o diretor, “Hoje, nós fazemos em torno de 120 partos aqui no hospital. É um número pequeno. Só que são partos de altíssima complexidade. Nós temos, entre leitos de UTI e de semi-intensiva neonatal, 40 leitos. Invariavelmente, os 40 leitos estão ocupados.”
Entre os problemas apontados estão goteiras em áreas críticas, como a UTI neonatal, equipamentos com falhas, mobiliário em condições precárias e ausência ou mau funcionamento de ar-condicionado, item considerado essencial para esse tipo de ambiente. “Goteira na UTI neo natal, falta de EPI, móveis enferrujados, ar-condicionado com problema”, afirma Ítalo.
A direção do hospital confirma dificuldades na infraestrutura e atribui parte dos problemas à idade dos equipamentos. “São equipamentos antigos, onde existe uma dificuldade de reposição de peças”, diz.
O vereador Izídio também aponta para mudanças na gestão ao longo dos anos como um possível marco de agravamento da situação. Na avaliação do vereador, a partir de 2018, com a adoção de um novo modelo administrativo, houve promessa de melhorias que não se concretizaram. “Prometeram uma série de avanços, mas, na prática, a percepção é de que o cenário piorou”, afirma.
Pacientes que não quiseram se identificar afirmaram que horas de espera, falta de insumos básicos como gaze são comuns no local.
Um idoso afirmou que já procurou o hospital diversas vezes: “Temos que esperar em macas no corredor, às vezes em cadeiras de rodas”.
Um comerciante do entorno do hospital afirmou que presencia famílias que vêm de outras cidades e passam o dia inteiro, às vezes sem comer, esperando atendimento.
O diretor contesta a falta generalizada de materiais. “Não falta medicamento, não falta insumo. O problema, às vezes, é de logística interna”, afirma.
A direção também afirma que busca manter o atendimento mesmo durante obras e limitações estruturais. “Eu tenho que trocar o pneu do carro com o carro andando”, diz.
Sistema de saúde regional
A relação entre o CHS e outras unidades, como o Hospital Adib Jatene, também é alvo de questionamentos. Segundo o vereador Izídio, há dúvidas sobre a distribuição de atendimentos e o aproveitamento da estrutura disponível na rede. “Falta clareza sobre o potencial de cada unidade e como isso está sendo utilizado”, diz.
Outro ponto destacado é a sobrecarga do sistema de saúde regional. Na avaliação dele, a forma como o fluxo de atendimento está organizado, com pacientes passando pelas unidades básicas antes de chegarem ao CHS, pode estar contribuindo para o colapso da unidade.
Um funcionário informou que a maior parte dos casos é levada para o CHS; o Adib Jatene só recebe os casos atendidos pelo helicóptero Águia ou transferências.
A direção reforça que o CHS concentra grande parte da demanda de urgência e emergência da região. “A urgência vem toda para cá. O movimento é muito grande”, afirma.
Diante do cenário, a possibilidade de abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara Municipal ganha força. A proposta já tem o número mínimo de assinaturas e deverá ser confirmada nos próximos dias.
Além das questões assistenciais, também há críticas em relação à estrutura física e tecnológica da unidade. O hospital, considerado antigo, demandaria não apenas reformas, mas atualização de equipamentos e reorganização dos espaços. “Não é só uma questão predial. Falta equipamento, falta modernização, falta adequação para o atendimento atual”, aponta Izídio.
Segundo Paulo, há necessidade de investimentos mais amplos. “O hospital necessita de uma grande intervenção estrutural, com recursos que podem passar de 100 milhões de reais”, afirma.
De acordo com o CHS, em 2025, foram 109.361 atendimentos ambulatoriais; 32.711 atendimentos de urgência no pronto-socorro; 11.183 procedimentos cirúrgicos; 10.475 internações clínicas; e 32.561 sessões de quimioterapia e imunoterapia. No caso dos atendimentos ambulatoriais seria, em média, um a cada 5 minutos.
Sobre os atendimentos
A respeito dos atendimentos que o CHS promove em casos de emergências, e que o Hospital Regional de Sorocaba Adib Domingos Jatene não faz, o Departamento Regional de Saúde (DRS) de Sorocaba informa que, na rede de atenção às urgências, já estabelecida entre os 48 municípios, o CHS é a principal porta de entrada para esses atendimentos, especialmente nos casos de politrauma. “Além disso, estão em andamento obras de melhoria e ampliação no CHS, com reforma da estrutura física do pronto-socorro e da área de ressonância magnética, incluindo a aquisição de um novo equipamento de ressonância e de mobiliários”, responde a assessoria.