Da Vila Santana ao panteão: Tiradentes entre memória e desconhecimento
Em Sorocaba, homenagens ao herói republicano convivem com lacunas sobre a Inconfidência Mineira e seu significado
O tradicional bairro da Vila Santana, em Sorocaba, guarda uma das poucas homenagens do município a Tiradentes, uma rua com seu nome. Feriado nacional desde 1890. Alçado a figura de herói, Tiradentes tem seu busto, na praça dos Três Poderes, ao lado do Panteão da Pátria, em Brasília.
De acordo com o professor de história Henrique Cavalcanti, a escolha da data e do personagem não foi casual. Em meio à necessidade de consolidar o novo regime, o governo provisório liderado por Deodoro da Fonseca buscava construir símbolos capazes de dar identidade e legitimidade à República.
Até então, o Brasil tinha vivido sob a Constituição de 1824 e sob uma monarquia com forte presença simbólica. A ruptura institucional exigia mais do que mudanças legais: era preciso criar novas referências para a população. Nesse contexto, a figura de Tiradentes, participante da Inconfidência Mineira executado em 1792, foi resgatada e elevada à condição de herói nacional.
Em seu livro “Uma História do Brasil, Trajetórias e Sentidos”, Henrique detalha que a consolidação da imagem de Tiradentes também passou pela arte. O pintor Pedro Américo, conhecido por obras ligadas ao período imperial, foi responsável por uma das representações mais marcantes do personagem. Na pintura, Tiradentes aparece com características que remetem à figura de Cristo, estratégia que dialogava com a tradição católica predominante no País.
A associação evidencia uma contradição do período: embora a República tenha adotado a separação entre Igreja e Estado, recorreu a elementos religiosos para fortalecer seu principal símbolo cívico. O feriado, nesse sentido, funciona como lembrança histórica e reforça o esforço na construção do imaginário republicano no Brasil.
Inconfidência
A Inconfidência Mineira foi uma conspiração articulada no fim do século 18 em Vila Rica (atual Ouro Preto), motivada pela profunda insatisfação com a carga tributária imposta pela Coroa portuguesa. Diante da queda na produção de ouro e do aumento da pressão fiscal, o movimento reuniu militares, intelectuais e membros da elite local. Influenciados pelas ideias iluministas vindas da Europa, os inconfidentes defendiam a proclamação de uma república em Minas Gerais, conforme explica Henrique
Apesar da articulação, a revolta não chegou a se concretizar. Denunciado por Joaquim Silvério dos Reis, o movimento foi desarticulado antes da execução do plano, levando à prisão de seus principais integrantes. Entre eles, destacou-se Joaquim José da Silva Xavier, que acabou assumindo a responsabilidade pela conspiração e foi o único condenado à morte. Executado de forma exemplar no Rio de Janeiro, seu corpo foi esquartejado e exposto publicamente, numa tentativa de intimidar novas rebeliões.
Memória do interior
Pelas ruas de Sorocaba o nome de Tiradentes ainda permanece como “uma figura histórica” e até como um “herói”, mas poucas pessoas sabem o contexto da Inconfidência e misturam com outras revoltas no imaginário. “Eu lembro da novela ‘A Casa das Sete Mulheres’ que contava a história dele”, afirma uma entrevistada — que preferiu não se identificar — ao se referir ao folhetim que abordou a Revolução Farroupilha e o líder dos farrapos, Bento Gonçalves.
Outras pessoas dizem só se lembrar pelo feriado nacional. Algumas relembram. “Eu já ouvi que ele era um dentista, tem gente que fala que foi militar. Mas ele foi enforcado, né?”
Vivo nos museus e nos livros de história, tem seu nome imortalizado no “Panteão de Heróis Nacionais”, que está em Brasília.
De toda forma. Tiradentes segue presente, ainda que nem sempre compreendido. Em Sorocaba, assim como em outras cidades do País, o herói republicano resiste mais como símbolo do que como história conhecida.
Mais de um século após a criação do feriado, a figura construída pela República continua de pé, mas o sentido da Inconfidência ainda parece, para muitos, tão distante quanto as ruas de Vila Rica no século 18. No imaginário brasileiro, os heróis se misturam, mas se mantém vivos.