Deputado ucraniano defende aliança estratégica com o Brasil

Parlamentar destaca o papel brasileiro na mediação da paz e afirma que o País pode "definir o destino do século XXI"

Por Caroline Mendes

Sviatoslav Yurash: "Para que o destino da Ucrânia no século XXI seja mais claro, nós precisamos trabalhar com o Brasil"

O deputado Sviatoslav Yurash, de 28 anos -- o mais jovem do parlamento da Ucrânia --, defendeu o fortalecimento das relações com o Brasil como estratégia central para o futuro de seu país em meio à guerra contra a Rússia. Em entrevista ao Jornal Cruzeiro do Sul, concedida durante sua visita a Sorocaba, ele reconheceu falhas diplomáticas passadas e afirmou que a Ucrânia vive um “novo capítulo”, no qual a aproximação com os brasileiros é prioridade.

“Está muito claro que não prestamos a devida atenção. Não tentamos nos envolver mais com o Brasil, especialmente quando discutíamos caminhos para a paz”, declara. Segundo ele, a mudança de postura ocorre pelo reconhecimento do peso geopolítico nacional: “O Brasil irá definir o destino do século XXI. Para qualquer nação que pense no seu futuro, isso significa se engajar, falar e fazer acordos com o território brasileiro”.

Ao abordar o cenário da guerra, Yurash destacou que a resistência ucraniana tem sido o elemento central para manter o país ativo no cenário internacional. “Ao longo desses anos, mostramos ao mundo nossa vontade de existir e de lutar por essa existência. Isso vai durar”, diz. Para ele, essa resiliência é o principal fator de esperança: “O fato de a nação ucraniana ter perseverado é o que nos dá força neste momento”.

O parlamentar defendeu que a aproximação precisa ocorrer em diferentes níveis: político, econômico, cultural e social. “Para que o destino da Ucrânia no século XXI seja mais claro, precisamos trabalhar com o Brasil. Precisamos compreendê-lo e também ajudá-lo a nos compreender”, afirma.

Essa conexão, segundo ele, possui bases históricas importantes. “A parceria já foi construída, pois meio milhão de brasileiros são descendentes de ucranianos. Mas isso é apenas um começo muito sólido”, pontua. Yurash reconheceu, no entanto, que muitos projetos bilaterais não avançaram: “Ao longo dos anos de independência, tivemos diversas iniciativas com o Brasil, mas o destino desses projetos nem sempre foi bem-sucedido. Agora queremos que isso mude”.

Acolhimento fraterno

Enquanto o discurso diplomático ganha força, cidades do interior paulista tornam-se símbolos concretos dessa união. Em Sorocaba, novas famílias ucranianas continuam chegando e sendo acolhidas por iniciativas locais. Recentemente, duas famílias refugiadas foram recebidas pela Igreja Família, ampliando o número de estrangeiros assistidos na cidade.

Uma das famílias é composta por sete pessoas -- um casal, três adolescentes e duas crianças. A outra reúne uma mulher e duas filhas. Todas deixaram a Ucrânia em meio ao conflito e chegaram ao Brasil com apoio da Global Kingdom Partnership Network (GKPN), que atua em mais de 100 países e financiou a logística dos refugiados.

Segundo a pastora Fabrícia Lemski Rosa, responsável pela ação no município sorocabano, o acolhimento envolve mais do que abrigo temporário. “A igreja fica responsável por acolher e sustentar essas famílias por um ano. Hoje, estamos com quatro famílias, totalizando 17 pessoas”, explica. O suporte inclui moradia, alimentação, roupas, saúde e acompanhamento social, além da inserção das crianças no sistema educacional.

O trabalho dá continuidade a uma mobilização iniciada em 2022, quando o Brasil recebeu grupos vindos da Polônia com apoio da embaixada brasileira em Varsóvia. Na ocasião, os refugiados passaram por cidades como São José dos Campos antes de serem encaminhados a municípios como Sorocaba, onde encontraram redes de apoio estruturadas.

De acordo com a igreja, as primeiras famílias acolhidas neste ano, vindas da cidade de Kharkiv, já estão instaladas e com as crianças frequentando a escola. O desafio atual é ampliar a estrutura. “Precisamos alugar imóveis, mobiliar e garantir condições para que essas famílias recomecem suas vidas com dignidade”, afirma a pastora.

Para Yurash, ações como essa reforçam a importância da sociedade civil na construção das relações bilaterais. “Há muitos níveis de conexão. Há empresas, artistas, comunidades e pessoas comuns construindo essa relação”, diz, citando a presença de empresas ucranianas de tecnologia no Brasil e intercâmbios culturais como exemplos.

Brasil no front

O deputado também destacou o envolvimento de brasileiros no conflito. “Há muitos brasileiros que foram para a Ucrânia lutar pela nossa independência. Precisamos honrá-los e mostrar ao Brasil os heróis que vieram da sua nação”, afirma.

Sobre a atuação brasileira nas tentativas de mediação da paz, Yurash adotou um tom de cautela e reconhecimento. “Houve muitas interações com planos de paz propostos pelo Brasil. Posso apontar problemas em alguns deles, mas prefiro destacar que tudo o que nos aproxima da paz deve ser valorizado”, declara.

Ele foi enfático ao agradecer: “Mesmo que o plano de paz do Brasil não seja o escolhido, não teremos palavras para descrever nossa gratidão pelo fato de o país tentar nos ajudar”. Segundo ele, o Brasil desempenhará um papel relevante em um eventual acordo: “Quando a paz for alcançada, o Brasil será uma das pedras fundamentais dessa construção”.

Yurash reforçou que os laços são antigos e seguem em evolução. “Há 135 anos, ucranianos vieram para o Brasil e se tornaram parte do ’gigante do Sul’. Eles contribuíram para os negócios, para a política e para a cultura. Estamos diante de uma oportunidade de levar essa relação a um novo nível”, conclui.