Especialistas analisam as enchentes recorrentes do Rio Sorocaba

Previsão é de ocorrências mais frequentes e com maior gravidade, caso nada seja feito; estudos mostram que os baixos índices de áreas verdes e de superfícies permeáveis dificultam a absorção da água da chuva

Por Vernihu Oswaldo

Previsão é de ocorrências mais frequentes e com maior gravidade, caso nada seja feito; estudos mostram que os baixos índices de áreas verdes e de superfícies permeáveis dificultam a absorção da água da chuva

O professor André Cordeiro Alves dos Santos, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), docente no Campus de Sorocaba e vice-presidente do Comitê de Bacia do Rio Sorocaba e Médio Tietê, afirmou que um dos problemas é que o assunto só é tratado quando ocorrem tragédias. “Nada é feito, só lembram disso quando chove. Tem que reduzir a impermeabilização e plantar árvores, jardins de chuva e parques.”

Já o professor e pesquisador da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Campus Sorocaba, docente na graduação de engenharia ambiental, afirmou que o problema é comum entre cidades médias, como Sorocaba, que estão crescendo e “impermeabilizando cada vez mais para aproveitamento do espaço urbano" e ele alerta: "isso vai gerar mais enchentes”.

Ainda de acordo com William, o Rio Sorocaba tem se mostrado mais "sensível" a cada ano, transbordando com chuvas menos intensas e mais rápidas.

“Acredito que o mais crítico sejam as áreas onde vivem pessoas vulneráveis às enchentes e que possuem menor capacidade de recuperação após serem impactadas.”

O Painel de Justiça Climática, desenvolvido pelo grupo de pesquisa Lamar, da Unesp Sorocaba, cruza vulnerabilidade socioeconômica com suscetibilidade a inundações em municípios da região.

Já o doutor em Ciências Ambientais da Universidade de Sorocaba (Uniso), Renan Angrizani, afirma que “os pontos mais baixos das cidades geralmente coincidem com os leitos dos rios. Por isso, é fundamental preservar as áreas de mata ciliar. Essas áreas não apenas ajudam a manter a qualidade da água, mas também funcionam como uma proteção natural contra enchentes, reduzindo os impactos sociais e ambientais.”

Além disso, ele explica que no caso de Sorocaba, dados do Programa Adapta Cidades, mostram que o risco de inundações é um dos principais desafios ambientais do município. " Isso está diretamente relacionado aos baixos índices de áreas verdes e de superfícies permeáveis que dificultam a absorção da água da chuva”, completa.

A cidade e o rio

O que os especialistas descrevem tem nome e tem história. A impermeabilização do solo não é um fenômeno novo em Sorocaba. Décadas de expansão urbana substituíram gramados, jardins e mata por asfalto e concreto — superfícies que não absorvem água, mas a empurram. O resultado aparece nas ruas alagadas, no barro, nos bueiros transbordando a cada chuva mais intensa.

O Rio Sorocaba, que dá nome à cidade, é o termômetro mais honesto desse processo. Cada novo loteamento, cada nova via pavimentada, cada metro quadrado impermeabilizado acelera o escoamento e diminui o tempo que a água leva para chegar ao leito do rio que recebe mais volume, mais rápido, e com menos mata ciliar para frear o impacto.

E a Marginal Direita?

O Rio Sorocaba nasce na Serra de São Francisco, onde as cabeceiras dos rios Sorocabuçu, Sorocamirim e Una se encontram para formar o principal curso dessa bacia. Boa parte de seu trajeto corre em zona urbana, ladeado por ruas.

As avenidas Dom Aguirre e Juvenal de Campos são exemplos de vias que ladeiam o rio. Sobra pouco espaço para a mata ciliar. Um dos poucos redutos está na chamada marginal direita, onde deveria existir um parque linear.

No local deverá ser construída a Marginal Direita, como noticiou o jornal Cruzeiro do Sul em oito de outubro de 2025. Após meses de impasse judicial sobre as obras da avenida Marginal Direita do rio Sorocaba, a Prefeitura e o Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP) firmaram um acordo que prevê a retomada dos trabalhos, condicionada à execução de um amplo programa de compensação ambiental.

Para os quase 1.200 metros de pista, será realizado o Sistema de Parques Norte-Sul do Rio Sorocaba. Trata-se de um conjunto de áreas verdes interligadas que formará um corredor ecológico de cerca de 30 quilômetros, cortando a cidade de ponta a ponta.

Mas o professor André Cordeiro não está otimista e afirma que a medida deve piorar ainda mais as enchentes: “Faz exatamente o contrário, tira a vegetação e aumenta a impermeabilização.”

O ambientalista e ativista da causa ambiental em Sorocaba, Rafael Franco, diz que diversas árvores nativas da região seriam derrubadas para as obras e que estão sendo feitas diversas campanhas para defesa da região.

As tendências para os próximos anos reafirmam a necessidade de investimento de médio e longo prazo.

É o que acredita o doutor Renan Angrizani, ao utilizar o site CityCatalyst (CCRA), que reúne dados e indicadores para avaliar os riscos climáticos e a capacidade de resposta urbana de cidades como Sorocaba. O portal é ligado ao programa “Adapta Cidades” do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima: “a tendência é que esses eventos extremos se tornem ainda mais frequentes e intensos até 2050”, alerta.

Sorocaba já tem ameaças classificadas com a pontuação de risco mais alta: ondas de calor, deslizamentos e inundação. No caso das duas últimas, elas aparecem duas vezes no relatório com impactos nas áreas da saúde pública e da infraestrutura. “Os impactos mais altos em Sorocaba estão relacionados a inundações, além dos deslizamentos e ondas de calor.”

E o futuro?

A Universidade de Sorocaba (Uniso) mantém o Observatório de Desenvolvimento da Região Metropolitana de Sorocaba (RMS), que tem um olhar para o Rio Sorocaba. O professor Paulo Celso, com seus alunos, realiza um trabalho de acompanhamento do rio.

Eles abordam como o rio foi se transformando em problema para a cidade: “Com o passar do tempo, o rio se converteu em ‘obstáculo’ para o melhor aproveitamento dos potenciais recursos que a cidade pode oferecer. É o rio que ‘impede’ a ocupação de terras visadas pela especulação imobiliária; é o rio que impede a celeridade da mobilidade urbana; é o rio que transborda sempre e causa enormes danos à população.”

A questão que se apresenta é que enquanto o rio segue sendo tratado como obstáculo, a cidade insiste em avançar sobre ele. A cada nova chuva, o resultado se repete: ruas alagam, pessoas perdem seus eletrodomésticos, seus carros e, em alguns casos, suas vidas.

As tendências indicam a intensificação dos eventos climáticos extremos e o Rio Sorocaba segue sem um olhar mais atento das autoridades. Entretanto, nada vai mudar sua força em extravasar seu leito e, como diriam os antigos, "rasgar a terra". Resta cobrar, e torcer, para uma busca sensata e real de soluções. Já tem muita gente sofrendo simplesmente em ver mais uma chuva se aproximando.