Quantos vivem nas ruas em Sorocaba?

Estatística da Prefeitura de Sorocaba aponta 360 enquanto pesquisa de universidade federal indica 945

Por Thaís Verderamis

Profissionais que trabalham no serviço de acolhimento veem tendência de alta

Andar pelo centro de Sorocaba e encontrar pessoas em situação de rua é comum. Dependendo do bairro também é possível ver quem vive nessa condição de vulnerabilidade social. De acordo com a prefeitura, o número de pessoas desabrigadas tem diminuído ao longo dos anos. Em 2023, eram 412 pessoas; em 2024, 395; em 2025, 380; e atualmente, em 2026, seriam 360 pessoas morando nas ruas da cidade. Um queda de 12,62% em três anos.

No entanto, especialistas apontam que esses números podem não refletir totalmente a realidade. Pesquisa do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) aponta que em 2026 o número de pessoas em situação de rua em Sorocaba é de 945.

A psicóloga e coordenadora da clínica de psicologia da Universidade Paulista (Unip), campus Sorocaba, Valéria Cristina Antunes, explica que há diferentes metodologias e possíveis distorções nos dados. “Existem indicadores e indicadores. Alguns municípios acabam dizendo que o seu número é menor, mas existe uma série de manobras, como acolhimento em clínicas, internações compulsórias ou até envio dessas pessoas para suas cidades de origem. Isso pode mascarar os dados”, afirma.

Segundo ela, na prática, profissionais que atuam diretamente com essa população observam tendência de crescimento. “A incidência sempre tende a aumentar. A gente tem visto aumento da violência, da pobreza, da desigualdade social e do uso abusivo de álcool e outras drogas, o que eleva o risco de as pessoas irem para a situação de rua”, destaca.

A Prefeitura de Sorocaba possui projetos para acolher, ajudar e dar suporte a estas pessoas que ainda enfrentam esta realidade. Há seis tipos de atendimento para o auxílio desta população: Abordagem Social Especializada; Centro de Triagem Municipal; Casa de Passagem 24 horas; Programa Humanização; Serviços de Saúde e auxílio e encaminhamento para tirar ou regularizar documentações e inserção em programas sociais.

Segundo a prefeitura, “ao aceitar o acolhimento no SOS (Serviço de Obras Sociais), a pessoa tem à disposição, no local, diariamente, alimentação, banho, roupas e lugar para o pernoite, além da atenção cuidadosa e humanizada que caracteriza esse serviço. Ainda, sempre que necessário, também é feito o encaminhamento dos que precisam para serviços de saúde”.

No SOS, segundo o presidente João Carlos Wey, são 13.500 refeições por mês e em torno de 162 mil refeições por ano. Por mês também são contabilizados 4.500 banhos. O serviço de acolhimento tem capacidade para atender até 120 pessoas, mas a instituição já chegou a registrar 170 .

Segundo a prefeitura, o perfil atual de pessoas em situação de rua é composto por homens entre 18 e 59 anos, de baixa escolaridade e históricos de desemprego ou trabalho informal. No entanto, cada pessoa carrega uma história, mas os traumas que levam a situações extremas por vezes são os mesmos. “Muitas dessas pessoas apresentam rompimento de vínculos familiares e enfrentam problemas de saúde mental ou dependência química. Entre os principais fatores que levam a essa condição estão o desemprego, a pobreza, conflitos familiares, uso de substâncias entorpecentes e perda de moradia”, afirma a prefeitura.

A psicóloga Valéria acrescenta que, embora a maioria ainda seja masculina, há crescimento entre mulheres e jovens. “Mulheres jovens e rapazes jovens também aparecem com frequência, e o alcoolismo seguido de outras drogas ainda predomina, muitas vezes associado a transtornos mentais”, diz. Ela ressalta ainda a dificuldade de identificar se os transtornos são causa ou consequência da dependência.

Nova realidade

O gerente administrativo e financeiro do SOS, Vanderlei da Silva, percebeu uma mudança de perfil ao longo dos 27 anos de trabalho na instituição. “Eu já presenciei três cenários. Quando eu comecei a trabalhar aqui era muito mais pessoas adultas, de 40, 50 anos. Depois teve uma fase com muitos jovens, usuários de droga. Hoje, você vai ver muitos idosos, as famílias não estão conseguindo mais cuidar dos seus idosos. Não existe vaga nos acolhimentos e esses idosos acabam ficando nas ruas. São idosos com problemas de saúde, cadeirantes, que não deveriam estar aqui. Porque não estamos preparados para isso, mas acabam ficando”, afirma.

Segundo Silva, é importante contextualizar os dados divergentes. “O Observatório Brasileiro de Políticas Públicas da UFMG fez um levantamento baseado no CadÚnico que aponta cerca de 945 pessoas, mas isso pode incluir pessoas cadastradas no município que não permanecem nele. Já a Secretaria de Segurança Urbana trabalha com cerca de 360 pessoas”, explica.

Valéria reforça que a dificuldade de mensuração também passa pela dinâmica dessa população. “Existe a população fixa, que conseguimos observar nos mesmos territórios, mas também há aqueles em trânsito, o que dificulta o mapeamento. É um tema complexo, que depende muito de como os dados são coletados”, considera.

A psicóloga ressalta a importância de políticas públicas integradas. “É um trabalho intersetorial e multiprofissional. É preciso fortalecer a rede, os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), as unidades básicas de saúde e os serviços de assistência social para conseguir atuar não só na saúde mental e na dependência química, mas também na reconstrução de vínculos familiares e sociais.” (Colaborou Caroline Mendes)

 ‘Tem de estar sempre pronto para
recomeçar’, diz assistente social

Ao chegar ao Serviço de Obras Sociais (SOS), a pessoa em situação de rua é acolhida. Segundo a assistente social do SOS, Valcilene de Carvalho Gargaro, eles chegam pela abordagem na rua ou por demanda espontânea e é feita a identificação. “Eles passam em atendimento comigo ou com o assistente social da tarde para a gente fazer um acolhimento inicial e ver as necessidades. Nós temos aqueles que estão aqui de passagem, que estão seguindo viagem, temos aqueles que vêm para solicitação de um encaminhamento para a saúde ou para a internação ou para documentos”, explica.

“Eu trabalho aqui há muitos anos, quando alguém entra, eu falo que a gente tem que trabalhar primeiro a frustração. Porque vai ter muitos retornos, não é fácil. A dependência é uma doença, então a pessoa vai, batalha, tem a recaída, retorna. Eu acho que nós funcionários, em primeiro lugar, temos que trabalhar isso, essa frustração de recomeçar. Tem de estar sempre pronto para recomeçar”, afirma Valcilene.

Uma das pessoas atendidas no SOS, cuja identidade será preservada, veio da Argentina, como mochileira, e chegou até Sorocaba. Devido à falta de documentos, ficou nas ruas por não conseguir emprego. O SOS realizou então o encaminhamento para o Centro de Triagem Municipal, para dar entrada assim aos documentos necessários.

Arrecadação

O SOS realizará no dia 18 de julho de 2026 a 26ª edição do Jantar Bacalhau Amigo, um evento beneficente como forma de arrecadar fundos para o trabalho social desenvolvido na instituição. O SOS também aceita doações de alimentos e roupas de todos os tipos. Os interessados podem entrar em contato por meio dos canais oficiais do SOS: o telefone (15) 3229-0777 ou o e-mail sos@sossorocaba.org.br. (T.V.)