Novos eixos ferroviários colocam Sorocaba no centro da expansão do Trem Intercidades
Projetos que ligam a cidade a Campinas e Bauru estão no radar do governo estadual, mas ainda dependem de estudos de viabilidade
Sorocaba pode se tornar um dos principais elos da malha ferroviária de passageiros no interior paulista nas próximas décadas. Além da já anunciada ligação com a capital por meio do Trem Intercidades (TIC), o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) revelou a intenção de expandir o sistema com novos eixos conectando o município a Campinas e Bauru.
As novas possibilidades foram citadas durante o início das obras do TIC São Paulo/Campinas, considerado o primeiro grande passo do programa estadual de reativação do transporte ferroviário de passageiros. No caso de Sorocaba, a prioridade segue sendo o trecho até a capital, cuja licitação deve ocorrer ainda neste ano, por meio do modelo de diálogo competitivo — uma modalidade que permite maior interação com o mercado antes da publicação do edital.
Segundo Augusto Almudin, diretor da Companhia Paulista de Parcerias (CPP), vinculada à Secretaria de Parcerias em Investimentos (SPI), o projeto faz parte de um programa mais amplo, com mais de 40 empreendimentos e cerca de R$ 200 bilhões em investimentos. “O objetivo dos TICs é expandir a malha ferroviária de passageiros e conectar a capital ao interior e ao litoral, com transporte de média e alta capacidade”, afirma.
A estratégia inicial do governo é estruturar quatro eixos principais partindo da capital — Campinas, Sorocaba, São José dos Campos e Santos — formando um “arco” que concentra cerca de 30 milhões de pessoas. Só depois dessa etapa concluída é que novas conexões, como Sorocaba/Campinas e Sorocaba/Bauru, devem avançar.
Viabilidade
Do ponto de vista técnico e econômico, os novos projetos apresentam cenários distintos. De acordo com o especialista em logística José Itamar Monteiro, a viabilidade depende diretamente da densidade econômica e da demanda por deslocamentos.
O eixo Sorocaba/Campinas aparece como o mais promissor entre os novos trajetos. “Há uma viabilidade média a alta, pois conecta dois polos relevantes — um industrial e outro tecnológico — com potencial consistente de demanda intermunicipal”, explica.
Já a ligação entre Sorocaba e Bauru é vista com mais cautela. “Este trecho é mais limitado, devido à menor densidade populacional e menor fluxo pendular. Pode exigir subsídios ou integração com transporte de cargas”, avalia.
Para o especialista, projetos ferroviários de passageiros no Brasil tendem a se sustentar quando combinam alta atividade econômica, integração regional e forte concorrência com o transporte rodoviário — cenário que já se verifica em trechos como São Paulo/Sorocaba.
Apesar da existência de trilhos em grande parte desses trajetos, a reutilização da infraestrutura ferroviária é apontada mais como um desafio do que uma vantagem. Segundo Monteiro, o principal benefício está no uso da faixa de domínio, que reduz a necessidade de desapropriações.
Por outro lado, os problemas são significativos: traçados antigos com curvas incompatíveis com velocidades maiores, infraestrutura degradada, diferenças de bitola e ausência de sistemas modernos de sinalização e eletrificação. “Na prática, reaproveita-se o corredor, não o sistema ferroviário em si”, resume.
O diagnóstico é reforçado pelo próprio governo estadual. Almudin destaca que boa parte das ferrovias existentes está abandonada ou voltada exclusivamente ao transporte de cargas, sob gestão federal. “Nossa intenção é reativar esses trechos para operação regular de passageiros, com qualidade e capacidade adequadas”, afirma.
Outro entrave estrutural é o compartilhamento da malha com trens de carga, predominantes no país. A diferença de velocidade e a limitação de capacidade das vias tornam a operação conjunta pouco eficiente. “Atualmente, a infraestrutura não comporta de forma adequada o transporte misto intensivo”, explica Monteiro. Entre as alternativas estão a segregação de vias — considerada ideal —, a duplicação de linhas ou a operação em horários alternados, solução vista como menos eficiente.
Para Sorocaba, a chegada do Trem Intercidades é vista como uma oportunidade de transformação econômica. Em nota, a Prefeitura destaca que o projeto pode ampliar a integração com os principais centros do Estado, reduzir distâncias e aumentar a produtividade.
A expectativa é de atração de novos investimentos, geração de empregos e fortalecimento de setores como tecnologia, logística, hotelaria e serviços. O município também afirma estar se preparando para o impacto, com planejamento voltado à mobilidade urbana e ao entorno das futuras estações.
No caso do trecho Sorocaba/São Paulo, os estudos do governo indicam uma demanda potencial de cerca de 50 mil passageiros por dia útil no pico de operação. Parte desse público deve migrar do transporte rodoviário, contribuindo para aliviar rodovias como a Castello Branco e a Raposo Tavares, que já operam próximas do limite em horários de pico.
Além de reduzir o tempo de deslocamento, estimado em cerca de uma hora, o sistema pode estimular mudanças no padrão de moradia e trabalho, permitindo que mais pessoas vivam no interior e trabalhem na capital, ou vice-versa.
Embora os novos eixos ainda estejam em fase preliminar de estudo, o governo estadual sinaliza que a expansão da malha ferroviária de passageiros será gradual e estruturada. A prioridade é consolidar os primeiros corredores e, a partir deles, avançar para novas conexões.
Para especialistas, o sucesso desses projetos dependerá não apenas de investimentos elevados, mas de soluções técnicas robustas e integração eficiente entre regiões. Se superados os desafios, Sorocaba pode se firmar como um dos principais polos ferroviários do Estado — e peça-chave na reorganização da mobilidade paulista.
Trecho degradado
O Complexo Ferroviário de Sorocaba permanece em estado de abandono e avançada degradação. O trecho atualmente é concedido à Rumo Malha Oeste. A empresa informou que o segmento apresenta “desequilíbrio econômico-financeiro estrutural desde os primeiros anos da concessão”, condição reconhecida pelo Judiciário e que teria comprometido a viabilidade operacional do ativo ao longo do tempo.
Segundo a concessionária, diante desse cenário, foi protocolado em 2021 um pedido de devolução amigável da concessão, nos termos da Lei nº 13.448/2017. O pedido foi acolhido pelo Poder Concedente e o processo de relicitação está em andamento, incluindo o encontro de contas entre as partes.