Cuidadora é afastada após denúncia de maus-tratos a aluno com TEA em Sorocaba

Caso envolve menino de 11 anos e é investigado pela Polícia Civil

Por João Frizo

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A cuidadora suspeita de agredir um aluno de 11 anos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) foi afastada de uma escola estadual em Sorocaba após denúncia de maus-tratos registrada pela família. O caso é investigado pelo 8º Distrito Policial da cidade e teria ocorrido no dia 1º de abril, durante o período escolar.

Segundo a mãe, ao buscar o filho na escola após o episódio, ela percebeu um comportamento incomum tanto da criança quanto da profissional responsável pelo acompanhamento de alunos com necessidades especiais. “Ela me entregou ele muito nervosa e disse que pediria transferência após um episódio na escola. Eu estranhei, porque meu filho não costuma ter esse tipo de comportamento”, relata.

Ela acrescenta que, ao chegar em casa e conversar com o filho, a situação se tornou ainda mais preocupante. “Ele, com os olhos cheios d’água, me disse que ela não o deixava comer, apertava seu braço e gritava quando ele ia ao banheiro”, afirma.

Mudança de comportamento

A mãe também relatou mudanças significativas no comportamento do filho após o episódio. “Na terapia, ele não queria abraçar, ficava assustado. Em casa, começou a ficar irritado; teve noite em que acordou de madrugada e não conseguiu mais dormir”, diz.

Ainda segundo ela, o menino apresentava dificuldade para expressar o que estava acontecendo. “Os olhos ficavam lacrimejando, ele queria chorar e não conseguia me falar o que estava acontecendo.”

A responsável afirmou que chegou a comentar com profissionais da terapia sobre a mudança de comportamento do filho ainda no mesmo dia, antes de saber das possíveis agressões. Segundo ela, os próprios profissionais também notaram que a criança estava mais assustada e resistente ao contato físico.

Imagens registradas

De acordo com a mãe, o caso foi levado à escola e uma reunião foi realizada no dia 6 de abril com a equipe pedagógica. “Elas me chamaram na escola e disseram que viram tudo pelas câmeras”, relata.

Segundo o advogado responsável pelo caso, Anselmo Bastos, a direção da unidade teria confirmado a existência de imagens de câmeras de segurança que registrariam os episódios. O material já foi solicitado oficialmente pela Polícia Civil.

Ainda conforme o advogado, outras crianças e funcionárias da unidade teriam presenciado as situações. “As merendeiras foram chamadas pelas crianças que presenciaram os fatos, e a direção também tomou conhecimento”, afirma.

O advogado acrescentou ainda que há relatos de que a profissional já teria apresentado comportamento semelhante com outros alunos. A informação, no entanto, ainda será apurada.

Medidas judiciais

A Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP) informou, em nota, que o caso foi registrado como maus-tratos e é investigado pelo 8º Distrito Policial de Sorocaba. Segundo a pasta, a equipe analisa os elementos apresentados e realiza diligências para esclarecer os fatos.

Ainda de acordo com o advogado, o delegado responsável pelo caso já solicitou oficialmente as imagens à escola e encaminhou a criança para escuta especializada. Na esfera civil, foi protocolada uma ação contra o Estado pedindo indenização de R$ 50 mil e o acesso às imagens das câmeras.

Investigação

O delegado titular do 8º Distrito Policial de Sorocaba, Acácio Aparecido Leite, informou que a investigação foi iniciada após o registro do boletim de ocorrência por maus-tratos. “Recebemos o boletim de ocorrência, a família registrou o caso como maus-tratos, então já de pronto recebemos a família e tomamos conhecimento do que aconteceu”, afirma.

Segundo o delegado, a criança foi encaminhada para escuta especializada. “Encaminhamos a criança para a escuta especializada, que é o órgão preparado para colher o depoimento com todo o cuidado e técnica possível”, diz.

Ainda de acordo com o delegado, a Polícia Civil já requisitou as imagens das câmeras de segurança da escola, além de informações sobre os envolvidos. “Requisitamos tanto as imagens que a família disse que a escola possui quanto informações sobre os envolvidos, não só a suposta autora, mas também eventuais testemunhas”, explica.

O delegado destacou que, embora o caso tenha sido inicialmente registrado como maus-tratos, a tipificação pode mudar ao longo da investigação. “O caso foi registrado como maus-tratos, mas pode, ao final da investigação, converter-se em um crime mais grave”.

Afastamento da cuidadora

Em nota, a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo informou que a profissional foi afastada e já não atua mais na unidade escolar. Uma nova cuidadora foi designada para acompanhar o estudante.

A pasta informou ainda que, assim que tomou conhecimento do caso, acionou a unidade responsável pela profissional e realizou uma reunião com os pais na segunda-feira, dia 6 de abril. A Secretaria, no entanto, não detalhou as circunstâncias do ocorrido.

A mãe do aluno cobra responsabilização pelo caso e afirma que o episódio não pode ficar impune. “Nenhuma mãe gostaria que seu filho indefeso passasse pelo que o meu filho passou”.

Ela também questiona a possibilidade de outros casos envolvendo a mesma profissional. “Se ela fez isso na frente das câmeras, imagina o que fazia quando ninguém estava vendo”, afirma.