Manga minimiza déficit na prefeitura e diz que não há racha com Fernando
Troca de secretários e diretores expõe mudanças significativas na administração municipal de Sorocaba
O prefeito de Sorocaba, Rodrigo Manga (Republicanos), afirmou ontem (8) que não há um racha político com o vice-prefeito Fernando Martins (PSD) ao ser questionado sobre as mudanças administrativas ocorridas com seu retorno após 145 dias de afastamento. Em entrevista concedida ao Cruzeiro do Sul e à rádio Cruzeiro FM 92,3, ele também relativizou o déficit de R$ 700 milhões nas contas da prefeitura, indicando que os valores são menores — R$ 600 milhões — e que estariam dentro de uma margem de controle.
Situações como a ausência de Fernando Martins no Paço Municipal no dia 1º de abril, quando Manga retornou ao comando do Executivo depois de uma decisão da Justiça, indicou o que viria a seguir. Nesse mesmo dia, entre as dezenas de exonerações promovidas por Manga, em mudanças ocorridas no primeiro e segundo escalão, uma delas foi a de Rodrigo Carvalho de Almeida, que atuava como superintendente do Gabinete do Poder Executivo. Ele era muito próximo de Fernando Martins e acompanhava o vice na maior parte das agendas.
Onze secretários foram dispensados. Um deles considerou, reservadamente, que Manga e Fernando Martins racharam politicamente. A reportagem falou com outros exonerados, mas preferiram não confirmar ou negar as divergências. “Acho que é uma questão dos dois”, respondeu um. “Como não faço mais parte do governo, prefiro não me manifestar sobre o tema neste momento”, disse outro.
Confirmando ou não, Manga fez algumas considerações na entrevista sobre a relação com o vice-prefeito, indicando que a escolha para a composição da chapa teve caráter estratégico eleitoral em 2020 e que o papel desempenhado por Fernando teria sido mais representativo do que executivo.
Ao comentar o período em que esteve fora do cargo, Manga adotou um tom emocional, relatando que sua maior preocupação foi com decisões que, segundo ele, impactaram diretamente famílias em situação de vulnerabilidade. E optou por destacar ações sociais, especialmente a retomada do passe estudantil gratuito e a distribuição de uniformes escolares, apontando essas medidas como prioridade de sua gestão.
Fernando Martins, quando estava à frente do Executivo, fez exonerações. No dia 7 de janeiro, promoveu a retirada de 21 cargos comissionados “como parte de um amplo processo de reorganização administrativa e contenção de despesas”. A medida, de acordo com o que foi informado na ocasião, foi o de “gerar uma economia estimada em aproximadamente R$ 5,5 milhões por ano aos cofres públicos”. Muitos dos ocupantes desses cargos comissionados eram ligados ao prefeito afastado e acabaram por retornar com a volta de Manga.
Contas públicas
Um relatório do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP) aponta uma tendência de descumprimento das metas fiscais e incompatibilidade entre o resultado primário previsto na Lei Orçamentária Anual (LOA) e a meta estabelecida na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) em Sorocaba. O dado mais sensível está no volume de despesas correntes: 93,55% da receita comprometida com a manutenção da máquina pública, acima do limite de 85% previsto na Constituição.
A situação financeira da prefeitura já havia sido descrita pelo vice Fernando Martins, com cerca de R$ 700 milhões negativos, mas o prefeito Manga procurou relativizar os números. Sem negar a existência de compromissos financeiros, ele afirmou que o montante seria, na verdade, próximo de
R$ 600 milhões, dentro de um orçamento de aproximadamente R$ 6 bilhões, comparando a situação a dívidas parceladas comuns no cotidiano de uma família. Segundo Manga, são obrigações administráveis e compatíveis com a capacidade financeira do município.
Vereadores
João Donizeti (União), líder do governo na Câmara de Sorocaba, foi questionado se há uma crise política interna, se a base avalia que há desalinhamento entre Manga e Fernando, além da contradição do déficit de R$ 700 milhões e a retomada de obras e serviços pela cidade. Em resposta, o parlamentar afirmou que trata-se do mesmo plano de governo, com dois perfis diferentes de atuação. “Avalio que o Fernando fez um bom trabalho no período em que esteve à frente do Executivo e respeito muito o jeito do Manga de administrar. São estilos diferentes, mas com a mesma proposta: Sorocaba. É nisso que acredito.”
Para a vereadora Iara Bernardi (PT), de oposição ao governo Manga, o retorno do prefeito é algo “totalmente inseguro para a cidade”. Segundo ela, Manga pode sair a qualquer momento, pois não foi inocentado de nada. “Também porque esse clima de conflito entre as gestões Fernando e Manga só gera dúvidas e instabilidade. Se antes o discurso do prefeito Fernando era de que faltava dinheiro — e por isso precisou fazer alguns cortes — por que agora Manga ignora as dificuldades orçamentárias? Há uma clara indisposição, sim, entre o prefeito e o vice. Os dois nem foram vistos publicamente juntos ainda. Esse conflito não é bom para a cidade, que não tem tempo para disputa de egos.”
A reportagem tentou ouvir Fernando Martins, por meio do assessor Rodrigo Almeida, e direcionou questionamentos sobre as declarações de Manga. Até o início da noite de ontem não houve manifestação. O espaço segue aberto.