Fiéis lotam celebração da Paixão de Cristo e acompanham procissão em Sorocaba
Cerimônia na paróquia de São Francisco de Assis reuniu diferentes gerações em um momento de fé, silêncio e tradição
A Sexta-Feira Santa, comemorada ontem (3), foi marcada pela celebração da paixão de Cristo e a procissão do Senhor Morto, realizadas pela paróquia de São Francisco de Assis, em Sorocaba. A cerimônia foi conduzida pelo padre Fernando Giuli e contou com a presença de centenas de pessoas.
A celebração da Sexta-feira Santa levou os fiéis a um percurso de introspecção, em que a dor e a esperança caminham lado a lado, quase como duas sombras inseparáveis projetadas pela mesma chama. Entre os presentes, havia muitos idosos e crianças. As imagens de santos estavam cobertas com panos roxos, respeitando a tradição católica, simbolizando luto, sobriedade e penitência. O objetivo, de acordo com a tradição, é retirar distrações visuais para que os fiéis foquem no essencial: a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus.
Francisca Rosa, de 77 anos, afirmou que não tem o costume de ir à igreja durante o ano, mas que não deixa de cumprir a quaresma e, na semana santa, participa de todas as celebrações desde pequena. “Tem que renovar a fé, e aqui é tão bonito”.
O padre destacou a importância dos momentos de reflexão e tristeza, mas afirmou, categoricamente, que esse não deve ser o único sentimento, pois a mensagem de Cristo também é de alegria. Também foram realizadas as Orações Universais, quando são apresentadas dez grandes intenções, intercaladas por momentos de oração e silêncio.
As intenções são: pela Igreja; pelo Papa; por todos os fiéis; pelos catecúmenos (pessoas que estão se preparando para o batismo); pela unidade dos cristãos; pelos judeus; pelos que não creem em Cristo; pelos que não creem em Deus; pelos governantes; e por todos que sofrem. As dez intenções, de acordo com o padre Giuli, são rezadas na liturgia católica da Sexta-feira Santa em todo o mundo.
Paulo Henrique Ferreira, de 38 anos, acompanhou a celebração com a família -- esposa, mãe e filhos. Ele afirmou que a celebração, além do significado religioso, “é um momento de união familiar e de transmitir aos filhos as tradições, mantendo acesa a chama da fé”, declara.
Ao final, a procissão do Senhor Morto tomou as ruas, transformando o espaço externo em continuidade da celebração. Em passos lentos, os fiéis acompanharam a imagem em cortejo marcado pela reverência e pela fé, enquanto cânticos e orações ecoavam pela noite. Mais do que uma manifestação religiosa, o momento reuniu diferentes gerações em torno de uma tradição que atravessa o tempo, reafirmando, entre sombras e velas acesas, a força de uma memória coletiva que se renova a cada ano.
A data
A Celebração da Paixão de Cristo, como rito estruturado da Sexta-Feira Santa, tem mais de 1.600 anos de tradição documentada.
Embora as primeiras comunidades cristãs já cultivassem práticas de memória da morte de Jesus desde o século I, foi apenas entre os séculos IV e V que a Igreja passou a organizar de forma oficial e uniforme a liturgia da Semana Santa, incluindo a celebração específica da Paixão. Os registros mais antigos vêm de Jerusalém, especialmente do diário de viagem de Égéria, uma peregrina do século IV, que descreveu detalhadamente como os cristãos locais celebravam o dia da crucifixão -- cerimônias que, posteriormente, influenciaram toda a liturgia ocidental.
Desde então, a celebração foi preservada, adaptada e universalizada, mantendo seu caráter de recolhimento e centralidade na tradição cristã até os dias atuais.