São Miguel Arcanjo faz 137 anos de olho no turismo ecológico e religioso

Por Vernihu Oswaldo

Turismo ecológico é um dos principais atrativos de São Miguel Arcanjo

Um passeio pelas ruas de São Miguel Arcanjo nos leva para paisagens bucólicas. No centro, em volta da Basílica dedicada ao padroeiro do município, bancos são posicionados nas sombras, e a vida parece passar devagar. Nas conversas, nos olhares, em uma fé própria, que parece aquecer a cidade junto com o sol.

Neste ano, a cidade completa 137 anos de história, foi fundada em 12 de maio de 1877 e emancipada em 1º de abril de 1889. O aniversário é comemorado em relação à data de emancipação.

A cidade é lar de mais de 32 mil pessoas, de acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), possui uma área territorial de mais de 930 quilômetros quadrados e nasceu da movimentação de povoadores que saíam da cidade de Sorocaba e iam em direção ao sul. No caminho, diversas cidades foram fundadas. Entre elas, São Miguel Arcanjo.

Em meados do século dezenove, o tenente Urias Emídio Nogueira de Barros formou o bairro que nomeou de “fazenda velha”. No local, o militar fixou residência junto com sua família e amigos que o seguiram. No local, foi construída uma capela, em homenagem ao arcanjo Miguel, que nomearia a cidade dali em diante.

A fé, que desde o início molda a história do município, continua sendo um dos pilares de sua identidade. Uma das histórias mais repetidas nas ruas são-miguelenses é a aparição do Arcanjo Miguel, que teria aparecido nas trincheiras de uma batalha da Revolução Constitucionalista, entre tropas paulistas revolucionárias e tropas federalistas vindas do sul do país. Conta-se que um homem apareceu nas trincheiras sulistas e avisou ao comandante que a guerra teria acabado. Os exércitos se retiraram, e o comandante foi até a igreja da cidade para agradecer a graça. Ao se deparar com a estátua do arcanjo, declarou atônito: “foi este o homem que me avisou do fim da guerra!”.

Desde seu início, a cidade tem suas raízes, literalmente fincadas no solo. A base econômica sempre esteve ligada à agricultura. No século vinte, o ciclo do algodão trouxe aquela que, para alguns historiadores, foi o momento mais rico do município. Depois, com a chegada de imigrantes italianos, veio o ciclo do trigo; com os japoneses vieram as uvas; os sírios e libaneses conduziram o comércio da cidade.

José Antônio de Góes é diácono e historiador da cidade. Sua história familiar é intimamente ligada à história da cidade; seu pai estava na igreja quando o líder do exército federativo chegou para relatar o milagre. Ele conta sobre a influência dos estrangeiros na cidade: “O sírio-libanês que nós tínhamos aqui, as famílias, eles eram tudo comerciantes e ajudaram muito nessa parte de alimentação.”

Novos tempos

Mais de um século após sua fundação, São Miguel Arcanjo parece equilibrar passado e futuro com a mesma delicadeza das manhãs da praça central. Antes sinônimo quase exclusivo de sustento, a terra agora também se transforma em convite.

Com características pouco comuns no interior paulista, a cidade desponta como destino de alto potencial para o turismo ecológico, impulsionada sobretudo pela preservação do Parque Estadual Carlos Botelho. O local abriga rica biodiversidade, com destaque para o muriqui-do-sul, o maior primata das Américas e cuja maior população remanescente está na região.

O parque também abriga a tradicional rota 139, conhecida como “Serra da Macaca”, com calçamento de paralelepípedo e acesso controlado. A via atrai motoristas e aventureiros em busca de trilhas, cachoeiras e práticas de contato profundo com a natureza, além de conectar o interior paulista à Serra do Mar.

Cercada por áreas preservadas, a cidade integra uma região privilegiada para o ecoturismo, atraindo visitantes e fotógrafos interessados na fauna e flora, especialmente no muriqui-do-sul. O guia Aelson Mattos Apolinário ressalta que o parque, graças ao controle de acesso e ao alto nível de conservação, tornou-se referência para pesquisadores e turistas em busca de imersão em rios, cachoeiras e novas espécies.

A fé também movimenta visitantes. Está em construção no município aquela que deverá ser a maior estátua católica do mundo, dedicada ao padroeiro. Outra referência religiosa é Irmã Joseli, nascida em 1972 e falecida em 2004.

Entre áreas de preservação e devoção, São Miguel Arcanjo escreve um novo capítulo, no qual o passado se integra às possibilidades de desenvolvimento.