São Paulo reforça defesa sanitária contra vírus que ameaça cadeia da tilápia
Na esteira da Páscoa, período em que o consumo de peixes cresce de forma expressiva em todo o País, o Governo do Estado de São Paulo reforçou as medidas de defesa sanitária voltadas à tilápia — espécie mais produzida e consumida no mercado nacional. Em meio ao aumento da demanda e ao avanço da atividade aquícola paulista, o Estado publicou nesta semana uma resolução que endurece o controle sobre a produção, comercialização e importação do peixe e seus derivados. O objetivo é prevenir a entrada do Tilapia Lake Virus (TiLV), um patógeno emergente que ameaça a cadeia produtiva global e impõe risco concreto ao Brasil.
A preocupação ocorre em um cenário de expansão do setor. Em 2025, a produção de tilápia no Estado atingiu 54,17 mil toneladas, alta de 4% em relação ao ano anterior, com faturamento estimado em R$ 494,11 milhões, segundo dados do Instituto de Economia Agrícola (IEA-APTA). Com mais de 12 mil tanques-rede em operação, São Paulo se consolidou como um dos principais polos produtivos do país.
Esse avanço, no entanto, aumenta também a necessidade de proteção sanitária. “A cadeia da tilápia tem ganhado relevância no agro paulista, com crescimento da produção e geração de empregos. Esse avanço exige uma atenção sanitária cada vez maior”, destaca o secretário de Agricultura e Abastecimento, Geraldo Melo Filho.
Risco global e alerta para o Brasil
Embora o Brasil ainda seja considerado livre da doença, especialistas alertam que o risco de entrada do vírus é concreto e crescente. A pesquisadora Patricia Maciel-Honda enfatiza que o TiLV já está disseminado em importantes regiões produtoras do mundo.
“O risco da entrada do vírus é real e não deve ser negligenciado. Há mais de uma década ele circula nos principais players de produção de tilápia do mundo”, afirma. Segundo ela, países da Ásia, África, Américas e Oriente Médio já registraram a doença.
A especialista chama atenção para os fatores que aumentam esse risco. “A movimentação de animais vivos, o intercâmbio de material genético e o comércio de produtos processados são vias potenciais de disseminação do patógeno”, explica.
O alerta ganha ainda mais peso diante da posição brasileira no cenário internacional. “O Brasil alcançou uma marca relevante na produção aquícola, sendo atualmente o quarto maior produtor mundial de tilápia e líder nas Américas. Toda a atenção e prevenção devem ser consideradas para manter esse status produtivo e sanitário”, ressalta.
O TiLV preocupa principalmente pelo seu impacto direto na produção. A doença afeta sobretudo alevinos e juvenis, etapa fundamental para abastecer toda a cadeia produtiva. “A infecção incide principalmente nas fases jovens, podendo levar a mortalidades que superam 80%”, explica Patrícia. Em alguns surtos, segundo dados da Secretaria de Agricultura, esse índice pode chegar a 90%.
Os efeitos, no entanto, vão além das perdas iniciais. “O impacto mais direto ocorre sobre as fazendas produtoras de formas jovens, mas se estende por toda a cadeia. A indisponibilidade de alevinos reduz ou paralisa a engorda, afeta o abate e compromete toda a estrutura econômica e humana do setor”, detalha.
Diante desse cenário, a nova resolução paulista estabelece regras mais rígidas para produtos de tilápia oriundos de países com registro da doença. Todos os itens — frescos, congelados, inteiros ou processados — passam a ser submetidos a controle sanitário reforçado.
Entre as exigências estão a identificação e rastreabilidade dos lotes, segregação por origem e manutenção de registros sanitários e fiscais por no mínimo 12 meses. Também estão previstas inspeções em cargas e estabelecimentos, além da possibilidade de apreensão e interdição de produtos.
A Defesa Agropecuária do Estado será responsável pela fiscalização, com atuação integrada a outros órgãos.
Para a médica-veterinária Ieda Blanco, responsável pelo Programa Estadual de Sanidade dos Animais Aquáticos, a antecipação é essencial. “A prevenção contra a introdução do agente da TiLV é fundamental, uma vez que o vírus apresenta altas taxas de mortalidade e rápida transmissão”, afirma.
Importação
Entre os principais pontos de atenção está a importação de tilápias vivas. “Esse é o principal risco para a entrada do vírus no Brasil”, afirma Patrícia Maciel. No entanto, ela alerta que o perigo não se limita a isso. “Há registros científicos da presença do vírus em músculos de peixes infectados, o que indica a possibilidade de ocorrência em produtos processados, como filés”, explica.
A pesquisadora também faz um alerta sobre os limites das ações estaduais. “As medidas adotadas por São Paulo refletem a seriedade do tema, mas os patógenos não conhecem fronteiras geográficas. É necessária uma estratégia ampliada em nível federal para evitar a entrada do vírus no País”, defende.
Caso o vírus seja detectado no Brasil, o cenário seria de emergência sanitária. “Haveria interdição de lotes e fazendas, aumento da vigilância, reforço de biosseguridade e necessidade de intensificação das análises laboratoriais”, explica Patrícia.
Além disso, poderiam ocorrer perdas produtivas significativas. “A disseminação do vírus implicaria em mortalidades não esperadas, redução de produtividade e aumento de custos, configurando riscos importantes para uma cadeia que hoje cresce de forma segura”, afirma.
Prevenção começa nas propriedades
Mesmo sem registro da doença no País, a prevenção já faz parte da rotina dos produtores. Práticas como controle de acesso, desinfecção de equipamentos, manejo sanitário e vacinação são adotadas para reduzir riscos.
No entanto, segundo a pesquisadora, esse cuidado precisa ser ampliado. “Essas medidas devem ser fortalecidas e melhor documentadas, especialmente diante de uma ameaça como o TiLV”, orienta.
Ela também destaca a importância da notificação de casos suspeitos. “É fundamental comunicar imediatamente os serviços veterinários oficiais em situações de mortalidade anormal, para que haja diagnóstico e resposta rápida”, completa.
Crescimento exige vigilância permanente
Com uma cadeia em expansão e cada vez mais relevante para a economia paulista, o desafio agora é garantir que o avanço produtivo seja acompanhado por rigor sanitário. “O setor está em crescimento consistente, mas isso exige vigilância constante. Todas as medidas e atores envolvidos devem aplicar o princípio da precaução para assegurar a condição sanitária atual da piscicultura brasileira”, conclui a pesquisadora.
Ao apostar na prevenção, São Paulo tenta proteger sua produção e a competitividade de um setor estratégico que ganha cada vez mais espaço no agronegócio nacional.