Instalação de carregadores de veículos elétricos é desafio para condomínios
Crescimento da frota pressiona e especialistas alertam para regras e segurança nas instalações
O avanço dos veículos elétricos no Brasil já começa a impactar diretamente a rotina de condomínios residenciais e comerciais. Com o aumento da demanda por pontos de recarga, síndicos e moradores passam a lidar com novos desafios que envolvem questões técnicas, jurídicas e, principalmente, de convivência coletiva.
O tema foi discutido no encontro promovido pelo Sindicato da Habitação (Secovi) na Associação Comercial de Sorocaba (Acso), na última quarta-feira (25). O evento reuniu profissionais do setor imobiliário, especialistas e gestores condominiais para debater a instalação de carregadores e seus impactos práticos no dia a dia.
Segundo Júlio Casas, representante do Secovi-SP em Sorocaba, o objetivo do encontro foi orientar o setor diante de um cenário em transformação. “A gente tem promovido eventos para compartilhar conhecimento e orientar os condomínios, principalmente diante das novas exigências”, afirma.
Especialistas destacaram que a expansão dos veículos elétricos já deixou de ser tendência e passou a integrar a realidade dos empreendimentos, trazendo novos desafios para a convivência em condomínio.
De acordo com Eric Keller Tavares de Camargo, advogado e membro da vice-presidência de Administração Imobiliária e Condomínios do Secovi-SP, esse movimento já tem reflexos diretos no cotidiano dos moradores. “As vagas de garagem de uso privativo começam a ser foco de questionamentos e conflitos jurídicos”, informa. Segundo ele, o avanço da eletromobilidade intensifica o choque entre interesses individuais e coletivos. “O direito individual vai até onde encontra o direito do outro”, diz.
Camargo destacou ainda o papel do síndico nesse cenário. “O síndico precisa atuar como mediador e se antecipar aos problemas”, afirma. Ele ressaltou a importância de resolver os conflitos internamente. “É muito melhor resolver dentro do condomínio do que levar para o Judiciário”, ressalta.
Segurança
Do ponto de vista técnico, a instalação dos carregadores é considerada possível na maior parte dos casos, desde que sejam respeitados critérios adequados e haja análise prévia da infraestrutura elétrica dos empreendimentos.
Segundo o engenheiro e empresário do setor, Milton Bigucci Júnior, estudos e análises apresentados durante o evento indicam que os veículos elétricos não apresentam maior risco de incêndio em comparação aos modelos a combustão. “O carro elétrico não é um vilão”, afirmou durante a palestra. Ele destacou que definição das regras envolveu um processo técnico amplo, com participação de entidades do setor, além da realização de testes e simulações. “Não foi algo imposto. Foram feitos estudos, testes e simulações para entender o comportamento desses veículos”, explica.
Uma das soluções destacadas para viabilizar a instalação nos condomínios é o chamado balanceamento de carga, sistema que permite distribuir o consumo de energia entre os veículos. “Isso é o que vai viabilizar a instalação na maioria dos prédios”, diz.
Ainda assim, ele alertou que a adaptação deve ser feita com cautela. “Cada condomínio precisa passar por uma análise técnica. Não é simplesmente instalar”, pontua.
A discussão também passa pelo campo jurídico. A Lei nº 18.403/2026 assegura ao morador o direito de instalar carregadores em vagas privativas, desde que sejam cumpridas exigências técnicas.
Segundo Eric Keller Tavares de Camargo, esse direito não é absoluto. “Eu posso ter o direito de instalar, desde que eu siga determinadas regras”, afirma. Ele explicou que a negativa por parte do condomínio deve ser fundamentada em critérios técnicos. Segundo o especialista, é necessário comprovar risco ou inviabilidade para impedir a instalação.
Ao mesmo tempo, o advogado destacou a responsabilidade do gestor. “O síndico é responsável pela gestão das áreas comuns e pode responder civil e criminalmente por aquilo que deixa de fazer”, informa.
Organização
A nova realidade altera a dinâmica de decisão dentro dos condomínios. Segundo especialistas, a instalação de carregadores passa a envolver, além das decisões coletivas, direitos individuais previstos em lei. Para Camargo, esse cenário exige preparo. “É muito melhor resolver dentro do condomínio do que levar para o Judiciário”, afirmou. Ele defende que a melhor estratégia é a antecipação. Segundo o especialista, o condomínio deve se antecipar aos pedidos e avaliar previamente a viabilidade das instalações, considerando o interesse dos moradores.
Outro ponto que gera dúvidas é a divisão de custos. A legislação prevê que o morador interessado deve arcar com a instalação individual, desde que cumpridas as exigências técnicas. No entanto, Camargo destacou que há diferentes possibilidades dentro dos condomínios. Segundo ele, podem existir custos individuais e coletivos, dependendo da solução adotada. Apesar dos avanços, especialistas destacam que o tema ainda está em evolução e exige acompanhamento constante por parte dos condomínios.
Durante o debate, foi ressaltado que algumas medidas ainda estão em discussão e podem ser definidas futuramente, o que reforça a necessidade de planejamento por parte dos gestores.
Para Milton Bigucci Júnior, o momento é de adaptação responsável. Segundo ele, atualmente é possível autorizar a instalação, desde que sejam respeitados os critérios técnicos e as condições do condomínio.
Diante desse cenário, a principal recomendação é buscar equilíbrio entre inovação e segurança. A mobilidade elétrica tende a crescer, mas sua implementação nos condomínios exige organização, responsabilidade técnica e diálogo entre moradores.