Migração de pomares e clima favorável consolidam avanço da laranja na região

Citricultura atrai novos investimentos e reforça integração com a indústria de suco

Por Caroline Mendes

Segundo especialistas, cenário é estrutural e deve se manter nos próximos anos

A produção de laranja na região de Sorocaba vive um momento de consolidação dentro do cinturão citrícola paulista. Dados da Fundação Seade apontam que a cultura tem peso expressivo no Valor da Produção Agrícola (VPA) regional. Em 2024, o VPA total da RA de Sorocaba somou R$ 9,4 bilhões, sendo que a laranja responde por parcela significativa desse montante.

Os municípios que lideram a produção regional são Itapetininga, na Região Metropolitana de Sorocaba (RMS), e Avaré (Região Administrativa de Sorocaba (RA), com predominância de produtores de médio e grande porte. O perfil empresarial desses citricultores também contribui para a adoção de tecnologias, manejo mais eficiente e integração com a indústria.

Segundo a especialista em agro Paula Castanho Borges de Ávila, o crescimento da produção na região não está ligado apenas a preços favoráveis ou a um momento conjuntural de mercado. Trata-se de um movimento estrutural de reorganização da citricultura paulista.

“O que tem feito aumentar essa produção aqui é a migração dos pomares de regiões que sofrem mais com problemas fitossanitários e climáticos. Esses pomares estão cada vez mais migrando para o sudeste do Estado, onde temos características mais favoráveis de clima e melhor controle de pragas e doenças”, explica.

Migração estratégica e ganho de produtividade

A citricultura é altamente sensível a fatores climáticos e sanitários. Em regiões com maior pressão de pragas e doenças, a produtividade cai e os custos de manejo aumentam. Na região de Sorocaba, as condições têm se mostrado mais equilibradas, favorecendo pomares mais produtivos e com melhor desempenho econômico.

“Se eu tenho uma planta que sofre menos com ataque de pragas e doenças, eu tenho um pomar mais produtivo. Esse é um dos principais fatores que estão impulsionando essa migração”, afirma Paula.

Cadeia produtiva diversificada

A região apresenta uma cadeia produtiva diversificada, atendendo tanto o mercado de fruta in natura quanto a indústria de suco concentrado. “Os dois mercados são expressivos. A fruta in natura abastece principalmente o mercado interno, enquanto o suco concentrado tem forte característica de exportação”, detalha a especialista.

O suco concentrado produzido a partir da laranja paulista tem como principal destino a União Europeia. Entretanto, em 2026, a demanda europeia apresentou retração em função do aumento de preços no mercado internacional, o que pode gerar impactos na indústria processadora.

Além das unidades instaladas nas próprias cidades produtoras, a RA de Sorocaba conta com uma vantagem logística relevante: a proximidade com Araraquara e Matão, reconhecidos como grandes polos industriais do setor citrícola. Essa integração facilita o escoamento da produção e fortalece o posicionamento regional dentro da cadeia estadual.

Greening é o principal desafio

Apesar do cenário favorável, a citricultura enfrenta desafios importantes, especialmente relacionados ao greening, considerado atualmente a doença mais severa da cultura. Transmitida por um inseto vetor, a enfermidade é causada por bactéria e compromete drasticamente a produtividade das plantas.

“A planta infectada não tem tratamento. A produção cai muito, os frutos são abortados ainda jovens e ela se torna uma fonte de contaminação para o restante do pomar”, explica Paula. A recomendação técnica é a erradicação da planta doente para evitar a propagação.

Na região de Sorocaba, a intensidade do greening é considerada média, enquanto em Itapetininga é mais baixa, o que reforça o movimento de atração de novos pomares para essa área. O controle fitossanitário mais eficiente, aliado ao clima favorável, tem sido diferencial competitivo.

Um passado de protagonismo

O município de Sorocaba já teve relevância na citricultura, especialmente entre as décadas de 1920 e 1940. A perda de expressão ocorreu por uma combinação de fatores históricos: redução das exportações durante a Segunda Guerra Mundial, avanço da doença conhecida como tristeza dos citros e o crescimento urbano, que reduziu áreas agrícolas.

“Esses três fatores — queda nas exportações, doenças e urbanização — culminaram na perda de protagonismo do município”, contextualiza a especialista.

Hoje, o protagonismo se desloca para municípios vizinhos com maior disponibilidade de área e vocação agrícola consolidada.

“A perspectiva é que a região continue atraindo pomares. Esse processo de migração é estrutural e deve se manter por conta das boas características climáticas e do controle fitossanitário.”