Estudo da Santa Casa aponta redução de microrganismos em UTI
Um estudo realizado na Santa Casa de Misericórdia de Sorocaba com pacientes entubados em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) apontou redução da carga microbiana na cavidade oral após a aplicação de protocolos de higiene bucal. A pesquisa foi publicada no Brazilian Dental Journal e analisou a presença de microrganismos em 50 pacientes adultos submetidos à ventilação mecânica.
O trabalho foi conduzido entre dezembro de 2024 e janeiro de 2025 e estruturado como um ensaio clínico randomizado. Durante o estudo, foram coletadas amostras de secreções orais e traqueais em quatro momentos distintos, antes e depois dos procedimentos de higienização. As análises laboratoriais permitiram identificar bactérias e fungos presentes na cavidade oral e avaliar a variação da carga microbiana após os cuidados de higiene. Os resultados demonstraram diminuição significativa da população de microrganismos após a aplicação dos protocolos adotados na UTI.
Além de avaliar o impacto da higiene bucal, o estudo comparou dois produtos utilizados no procedimento: a clorexidina, frequentemente adotada como referência em protocolos hospitalares, e o enxaguatório “blueM”, que utiliza oxigênio ativo e possui propriedades antimicrobianas. Segundo os pesquisadores, ambos apresentaram resultados semelhantes na redução da microbiota oral dos pacientes avaliados.
Pacientes críticos
De acordo com a cirurgiã-dentista Tereza Cristina Teixeira, uma das autoras da pesquisa, o estudo surgiu da necessidade de avaliar estratégias de cuidado bucal em pacientes críticos que não conseguem realizar a própria higiene. “A motivação surgiu da importância da saúde bucal em pacientes críticos internados em UTI, especialmente aqueles submetidos à ventilação mecânica. Esses pacientes frequentemente não conseguem realizar sua própria higiene oral, o que favorece o acúmulo de biofilme e a colonização por microrganismos potencialmente patogênicos”, afirma.
A pesquisadora explica que pacientes entubados apresentam alterações fisiológicas que favorecem o crescimento de bactérias na cavidade oral. “Pacientes entubados apresentam redução da salivação, dificuldade de deglutição e incapacidade de realizar higiene oral adequada. Isso favorece o acúmulo de biofilme e a proliferação de bactérias na cavidade oral”, diz.
Segundo ela, esse cenário pode ter impacto direto no quadro clínico do paciente internado. “Na prática clínica, a boca pode se tornar um reservatório de microrganismos que podem ser aspirados para o trato respiratório inferior. Esse processo pode contribuir para infecções respiratórias graves, como a pneumonia associada à ventilação mecânica”, explica.
Durante a pesquisa, os profissionais observaram que os dois produtos analisados apresentaram desempenho semelhante no controle da microbiota oral. “O estudo demonstrou que tanto a clorexidina quanto o enxaguatório ‘blue’ foram eficazes na redução da população microbiana oral dos pacientes intubados. Observamos uma diminuição significativa da carga microbiana após os protocolos de higiene bucal em ambos os grupos avaliados”, afirma a dentista.
A especialista ressalta que a comparação entre os dois produtos foi um dos pontos relevantes do estudo. “Quando comparamos os dois produtos, não houve diferença estatisticamente significativa entre eles em relação à redução da microbiota oral. Isso indica que o ‘blue’ apresentou eficácia semelhante à clorexidina, demonstrando que pode ser uma alternativa viável para a higiene oral de pacientes em ventilação mecânica na UTI”, afirma.
Odontologia hospitalar
A pesquisa também reforça a importância da atuação da odontologia hospitalar dentro das equipes multiprofissionais de terapia intensiva. Na Santa Casa de Sorocaba, a equipe de odontologia realiza acompanhamento da saúde bucal dos pacientes internados na UTI e atua na implementação de protocolos de higiene.
Segundo Tereza, a presença do cirurgião-dentista no ambiente hospitalar contribui para o controle de infecções e para o acompanhamento de alterações na cavidade oral. “A odontologia hospitalar tem um papel fundamental na prevenção e no controle de infecções relacionadas à cavidade oral em pacientes internados. O cirurgião-dentista atua na avaliação da saúde bucal, na realização de protocolos de higiene, no controle de infecções orais e na orientação da equipe multiprofissional sobre cuidados adequados”, afirma.
Na instituição, o protocolo de higiene bucal aplicado em pacientes entubados inclui a limpeza da cavidade oral, remoção de secreções e aplicação de produtos específicos para controle de bactérias. Como os pacientes não conseguem realizar esse cuidado por conta própria, a higiene passa a ser realizada pela equipe de saúde.
De acordo com a pesquisadora, a Santa Casa conta com acompanhamento diário da saúde bucal na UTI. “Além da equipe de odontologia que realiza visitas diárias para avaliar os pacientes, contamos também com um profissional dedicado exclusivamente à higiene bucal desses pacientes, garantindo que esse cuidado seja feito de forma constante.”
Desde 2020
A implantação de protocolos estruturados de higiene bucal e nasal na UTI da Santa Casa teve início em 2020, após estudos internos voltados à redução de infecções hospitalares em ambientes de terapia intensiva. A partir dessas análises, a instituição implementou rotinas específicas voltadas ao cuidado da cavidade oral em pacientes críticos.
Para a pesquisadora, a publicação do estudo em uma revista científica internacional amplia a divulgação de dados produzidos no ambiente hospitalar e contribui para o avanço da área. “A publicação em uma revista científica demonstra a relevância e a qualidade da pesquisa desenvolvida e contribui para dar visibilidade ao trabalho realizado na Santa Casa de Sorocaba”, afirma.
A equipe também pretende ampliar as pesquisas na área de odontologia hospitalar com novos estudos envolvendo pacientes em tratamento oncológico. Segundo Tereza, a proposta é avaliar como o acompanhamento odontológico pode contribuir para prevenir e controlar alterações bucais causadas por terapias contra o câncer, com foco no acompanhamento clínico durante o tratamento.