Chuvas intensas causam destruição em Sorocaba e mobilizam rede de solidariedade
Volume de chuva em poucas horas superou o esperado para todo o mês; moradores relatam prejuízos, temem novas enchentes e pedem soluções para problemas recorrentes
A forte chuva que atingiu Sorocaba no fim de semana provocou alagamentos em diversos bairros, destruiu casas, causou quedas de árvores e muros e mobilizou uma rede de apoio para ajudar famílias que perderam praticamente tudo. Segundo a Prefeitura de Sorocaba, foram registrados 114,4 milímetros de chuva em apenas três horas no sábado (7), conforme dados da Estação de Tratamento Cerrado. O volume superou o acumulado registrado em todo o mês de março de 2025, que foi de 59 milímetros.
Na região do Mineirão, um homem foi encontrado morto por volta da 1h de domingo (8), em meio à inundação. A cidade registrou alagamentos em várias regiões e também ocorrências de quedas de árvores, muros e erosões em vias.
Entre os pontos com alagamentos registrados estão avenidas importantes como Pereira Inácio, Washington Luiz e Dom Aguirre, além de ruas em bairros como Mineirão, Jardim Santa Lucinda, Barcelona, Vila Assis e Jardim Itapemirim.
De acordo com a prefeitura, 18 famílias dos bairros Mineirão e Jardim Sandra precisaram deixar suas casas temporariamente, mas já haviam retornado às residências no domingo.
Moradores relatam perdas e medo
Nos bairros atingidos, moradores ainda tentam se recuperar dos prejuízos. No Jardim Faculdade, a água invadiu casas e comércios após subir rapidamente durante o temporal. O morador Saulo Freitas afirma que o problema é recorrente quando chove forte e cobra soluções estruturais para evitar novas enchentes.
Entre as medidas que, segundo ele, poderiam ajudar estão a construção de um piscinão na região, o aumento do número de bombas para escoamento da água para o rio, o desassoreamento contínuo do rio e a limpeza frequente dos bueiros. “Quando chove forte sempre alaga. Muitas pessoas perderam tudo”, relata.
Na mesma região vivem os irmãos gêmeos Fernando e Flávio, moradores antigos do bairro. A casa onde vivem foi novamente invadida pela água. “Foi terrível, como das outras vezes. A água subiu muito rápido. Não deu tempo de salvar nada”, conta Fernando.
Ele afirma que convive com o problema há mais de duas décadas. Para tentar evitar que a água invadisse a casa, os irmãos instalaram uma comporta na entrada da residência há cerca de oito anos. “Ela já segurou várias vezes, mas quando a água passa por cima entra com muita força e derruba tudo”, explica.
A enchente atingiu quartos, cozinha e alimentos armazenados. “O que eu tinha aqui vai tudo embora. A gente compra para durar bastante tempo, mas quando entra água perde tudo.” Mesmo diante dos prejuízos, ele diz que já se acostumou com a situação. “Medo não. Preocupação, sim.”
Comércio e moradores enfrentam prejuízos
Comércios da região também foram afetados. Em uma conveniência do bairro, a água invadiu o estabelecimento. Segundo a atendente Jéssica, o nível da água chegou até a metade de um freezer. “Já tinha acontecido antes. Na outra vez chegou a entrar um metro de água aqui”, relata.
Ela conta que, no momento da chuva, o movimento parecia diminuir, mas o cenário mudou rapidamente. “Parou um pouco e a gente achou que ia ficar tranquilo. De repente veio vento e a água subiu muito rápido.”
O posto onde fica a conveniência ficou embaixo d’água, e até a manhã de ontem ainda estava sem energia elétrica.
Buraco no quintal preocupa família
Na Vila Jardini, a moradora Cláudia também tenta se recuperar dos danos provocados pela chuva. No quintal da casa, um grande buraco se abriu após o temporal. “Entrou bastante água em casa e estamos há dois dias limpando. Agora melhorou, mas estamos com medo por causa desse buraco”, conta.
Segundo ela, a Defesa Civil foi acionada, mas ainda não esteve no local. A preocupação é que a situação se agrave com novas chuvas, já que uma tubulação do serviço de água passa pelo terreno. “Não sei se minha casa está em risco. As crianças estão com muito medo”, relata.
Cláudia mora no local há cerca de 20 anos e afirma que nunca havia enfrentado uma inundação dessa magnitude. Apesar da preocupação, a família tem recebido apoio de vizinhos e conhecidos. Uma igreja se mobilizou para doar móveis, e uma campanha on-line foi criada por pessoas da comunidade para ajudar na reposição de itens perdidos. “Graças a Deus bastante gente está ajudando e as coisas estão se ajeitando”, diz.
Comunidades organizam ajuda entre moradores
Em várias regiões da cidade, moradores também se mobilizam para ajudar famílias afetadas.
Na comunidade do Jardim Guadalupe, voluntários têm organizado campanhas para arrecadar alimentos, roupas e colchões para quem perdeu tudo. Juliana, responsável pelo projeto social “Fazer uma Criança Feliz”, afirma que muitas famílias da comunidade tiveram grandes prejuízos.
“As famílias perderam tudo na comunidade do Jardim Guadalupe”, relata. O projeto, que tradicionalmente organiza eventos para crianças na Páscoa, Dia das Crianças e Natal, funciona de forma totalmente voluntária e sem apoio financeiro.
Mesmo com recursos limitados, os voluntários têm buscado mobilizar doações para ajudar os moradores atingidos pelas enchentes.
Campanhas também circulam entre moradores da região pedindo doações de roupas, colchões, leite e cestas básicas para famílias que vivem na rua Maria das Graças Rodrigues dos Santos.
Água também invadiu casas no Itapemirim
Moradores do Lopes de Oliveira e do Itapemirim também relatam problemas recorrentes com enchentes. A moradora Ariely conta que as áreas próximas ao córrego foram as mais afetadas. “Tem o lado do córrego que foi feio mesmo”, afirma.
Segundo ela, casas localizadas em pontos mais altos também acabam sendo atingidas pela água que desce de outras regiões da cidade. “A água vem toda do Wanel Ville e acaba descendo para cá”, explica. Ela afirma que o problema ocorre sempre que há chuvas mais intensas.
Cerca de 60 famílias já foram cadastradas
Enquanto moradores lidam com os prejuízos, equipes da Prefeitura e do Fundo Social de Solidariedade organizam ações de atendimento às famílias atingidas.
De acordo com a presidente do Fundo Social, Rosângela Perecine, cerca de 60 famílias já foram cadastradas em diferentes regiões da cidade, como Itapemirim, Jardim Sandra, Área Verde do Guadalupe e Mineirão.
“Nós tivemos em torno de seis famílias que precisaram sair das casas. Ontem tínhamos 18 pessoas sendo alimentadas em um dos centros, mas elas já voltaram para suas residências”, explica.
Como parte da assistência emergencial, foram distribuídas cerca de 200 marmitas e 100 cestas básicas para famílias das áreas mais atingidas. “Algumas casas estavam submersas e não havia como cozinhar. Então levamos alimento pronto”, afirma.
Além dos alimentos, as famílias também estão recebendo kits de higiene, produtos de limpeza e cloro para desinfecção das casas.
Equipes também fazem triagem para distribuição de roupas, calçados e itens de cama, mesa e banho, já que muitas famílias perderam praticamente tudo. “A chuva foi tão repentina que algumas famílias só tiveram tempo de pegar as crianças e sair”, afirma Rosângela.
Cidade segue em alerta
A prefeitura informou que mantém equipes monitorando a situação e prontas para atuar em diferentes pontos da cidade.
Em caso de emergência, a população pode acionar o Corpo de Bombeiros pelo telefone 193, a Defesa Civil pelo 199 ou a Semob pelo 118.
Enquanto os moradores seguem na limpeza das casas e na tentativa de reconstruir o que foi perdido, a principal preocupação agora é com a previsão de novas chuvas nos próximos dias.