Ano começa só depois do Carnaval?

Especialistas analisam hábito cultural e impacto psicológico e financeiro

Por Murilo Aguiar

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Entre promessas de Ano Novo e a contagem regressiva para os desfiles de blocos e escolas de samba, há quem só aperte o botão de “iniciar” quando o Carnaval termina. A ideia de que o Brasil engrena de vez apenas depois da folia atravessa gerações e aparece tanto nas conversas informais quanto no planejamento de metas pessoais e profissionais. Mas até que ponto isso pode ser explicado do ponto de vista psicológico, financeiro e prático?

Para a psicóloga Ana Heloísa Cabral de Moura, o comportamento tem relação com a forma como o cérebro organiza o tempo. “O nosso cérebro é habituado a utilizar marcos temporais para se organizar. Por isso, é sempre comum ouvir dizer que a partir de datas específicas as pessoas estabelecem novos hábitos na rotina, como fazer dieta, estudar e até mesmo iniciar um relacionamento”, afirma.

Segundo ela, datas simbólicas funcionam como gatilhos mentais, mas nem sempre garantem continuidade. “Embora utilizar um marco simbólico para iniciar um novo hábito pareça positivo, muitas vezes ele acaba sendo frustrante, porque mais eficiente do que uma data é necessário que as pessoas utilizem estratégias eficazes para que o novo hábito não seja procrastinado”, explica.

A profissional observa que o início do ano costuma ser marcado por promessas que perdem força ao longo das semanas. “Em janeiro, é muito comum que as pessoas iniciem o ano fazendo várias promessas de novos hábitos, mas a grande maioria delas não sustenta essa rotina até o Carnaval”, diz.

No caso específico da folia, ela aponta fatores culturais. “A ideia de que o ano começa só depois do Carnaval vem também da crença de que, sendo festividade nacional, ele acaba sendo um marco inicial, visto que janeiro e fevereiro são períodos de recesso escolar e férias para a maioria dos brasileiros”, afirma.

Para a psicóloga, adiar decisões pode assumir contornos coletivos. “Deixar as decisões para depois do Carnaval pode ser entendido como uma forma de procrastinação socialmente legitimada. A festa cria um contexto em que adiar compromissos é aceito, funcionando como uma desculpa compartilhada para postergar decisões”, analisa.

Ela destaca, porém, que há diferença entre usar uma data como estímulo e utilizá-la como justificativa para adiar responsabilidades. “A melhor coisa a se fazer para iniciar um novo hábito é começar com pequenas mudanças. Ao invés de começar atividade física com treinos pesados e dietas com alta restrição alimentar, o ideal é iniciar com caminhadas de 15 minutos e poucas alterações na alimentação”, orienta.

Entre as estratégias recomendadas está a chamada ancoragem, que consiste em associar um novo comportamento a algo já consolidado na rotina. “Inserir pequenas alterações na rotina em algo que já faz, como comer uma fruta sempre que comer pão no café, ajuda muito nesse processo”, exemplifica. Ela também alerta para metas excessivamente ambiciosas. “Não ter metas tão altas evita que, caso falhe, a pessoa se frustre como se todo o processo estivesse perdido”, afirma.

Do ponto de vista financeiro, o contador e professor Manoel Messias Marin Videira afirma que os primeiros meses do ano costumam ser mais desafiadores para pessoas físicas, mas por razões objetivas. “Sim, os primeiros meses do ano são mais difíceis para a pessoa física. Os motivos você já colocou: IPVA, IPTU, material escolar, faturas acumuladas. Porém eu acrescento que o 13º salário é para essas despesas. Mas culturalmente usamos errado o 13º salário, e esse hábito não tem como mudar”, afirma.

Ele pondera que a ideia de esperar o Carnaval para organizar a vida financeira não é regra. “Nem sempre. Depende da necessidade de cada um. Essa história de esperar o Carnaval não é uma prática comum. Ela existe, é verdade, mas nem sempre se pratica. Cada pessoa tem uma necessidade”, diz.

No ambiente empresarial, segundo ele, o calendário festivo não costuma ser determinante. “Às vezes você espera reação das vendas, lançamento de produtos, que nem tem a ver com o Carnaval. Em alguns momentos ninguém olha para o calendário, vai lá, faz e pronto. Depende muito mais das oportunidades que aparecem do que do Carnaval”, explica.

Sobre inadimplência, ele é direto: “a inadimplência tem a ver com os fatos econômicos. Nada a ver com o Carnaval ou início de ano”, afirma. Para o contador, rotinas administrativas não podem ser adiadas por causa de datas comemorativas. “De jeito nenhum. As rotinas e procedimentos administrativo-financeiros não esperam Carnaval. Têm que ser feitos e pronto”, diz.

Ele também destaca que janeiro e fevereiro são meses estratégicos para organização tributária. “Janeiro e fevereiro começam as discussões da pessoa física e Imposto de Renda. A pessoa jurídica inicia o planejamento e coloca em prática. Não tem nada a ver com o início do ano”, observa.

A orientação é: “o Natal passa, o réveillon passa, a Páscoa passa, Dia das Mães e dos Pais passam. Tem que começar agora, não deixar para depois. O tempo não para e não volta. Todo minuto é importante”, afirma.

Entre quem vive a rotina comercial, a percepção pode variar. O vendedor Ygor Berger afirma que não compartilha da ideia de que o ano só começa após a folia. “Não, não acho, pois as pessoas ficam no embalo de que janeiro é férias, sem aulas, e logo volta com uns dias de feriado e ponto facultativo, mas isto não é o suficiente para mim”, relata.

Ele diz que não costuma adiar planos. “Não costumo”, responde ao ser questionado se deixa metas para depois do Carnaval. Para ele, janeiro pode até ter clima de férias, mas não impede organização. “Janeiro é de férias, mas nada impede de se organizar”, afirma.

Ygor também não associa mudanças significativas ao fim da festa. “Não sinto que muda”, diz sobre a rotina após o Carnaval. Neste ano, ele afirma ter iniciado seus planos logo no começo do calendário. “Eu já comecei em janeiro mesmo”, conclui.