Moradores do Jardim Astro se mobilizam contra a construção de prédios no bairro

A principal preocupação é com os impactos urbanísticos, ambientais e sociais

Por Cruzeiro do Sul

Cerca de 50 famílias, aproximadamente 100 pessoas, participam diretamente do movimento

Moradores do Jardim Astro, na zona leste de Sorocaba, têm se mobilizado contra a construção de prédios de grande porte no bairro, tradicionalmente marcado por casas térreas, áreas verdes e perfil residencial. A principal preocupação é com os impactos urbanísticos, ambientais e sociais que os novos empreendimentos podem causar.

Segundo um grupo de moradores, que prefere não se identificar, a mudança que permitiu a verticalização passou despercebida pela comunidade. “O Jardim Astro sempre foi um dos menores e mais tranquilos bairros de Sorocaba, formado exclusivamente por casas, com muito verde e sem prédios. Essa tranquilidade sempre esteve vinculada ao seu caráter estritamente residencial”, afirmam.

Até 2014, o bairro era classificado como Zona Residencial 1 (ZR1). Com a aprovação da Lei Municipal nº 11.022/2014, a área passou a ser Zona Residencial 2 (ZR2), que permite uso residencial de média densidade. Os moradores afirmam que só perceberam a alteração quando começaram a surgir os primeiros projetos de prédios. “A mudança não teve destaque específico no texto da lei”, relatam.

Embora a classificação ZR2 permita maior adensamento, os moradores destacam que a legislação municipal não estabelece limite explícito de altura para as construções. “Enquanto muitas cidades limitam construções em ZR2 a quatro ou, no máximo, oito andares, em Sorocaba não há limite claro, o que abre margem para empreendimentos desproporcionais e crescimento urbano desordenado”, criticam.

A mobilização começou após o início da obra de um prédio no bairro. De acordo com os moradores, há ainda a previsão de um novo empreendimento no bairro, com 22 andares, cuja obra ainda não foi iniciada. A possibilidade de um edifício desse porte intensificou a mobilização e ampliou as preocupações quanto ao impacto no trânsito, na infraestrutura e na paisagem urbana. A reportagem esteve no bairro, mas não constatou qualquer movimentação ou indícios de início dos trabalhos até o momento.

Atualmente, cerca de 50 famílias, aproximadamente 100 pessoas, participam diretamente do movimento. Após a manifestação realizada em 8 de fevereiro de 2026, a adesão aumentou. “Mais moradores entenderam a dimensão dos impactos”, relatam.

Os reflexos já são sentidos no cotidiano do bairro. “A privacidade das casas foi comprometida, e o barulho das obras é constante, inclusive em finais de semana e feriados”, afirmam. Eles também apontam grande quantidade de poeira, resíduos sólidos e aumento na circulação de caminhões e veículos pesados. “Um bairro antes silencioso, seguro e organizado está se tornando um canteiro de obras”.

Há ainda preocupação com a infraestrutura. “O bairro dispõe de apenas uma entrada e saída, controlada por semáforo. Com a chegada de dezenas ou centenas de novos moradores, o trânsito tende a se tornar caótico”, alertam. Segundo o grupo, serviços como abastecimento de água, energia e internet não foram planejados para um adensamento dessa intensidade. “Esses serviços já apresentam falhas atualmente e podem sofrer sobrecarga”.

Para o grupo, o Jardim Astro não possui infraestrutura adequada para empreendimentos desse porte. Apesar de ser bem localizado, o bairro foi planejado com vias estreitas e perfil horizontal, o que, na avaliação dos moradores, não comporta prédios altos sem prejuízo à qualidade de vida.

O que diz a prefeitura

A Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Urbano (Seplan) informou que, conforme levantamento da Divisão de Parcelamento e Uso do Solo, não houve alteração de zoneamento do bairro na revisão mais recente do Plano Diretor. Até 2014, o Jardim Astro era classificado como Zona Residencial 1 (ZR1). A alteração para Zona Residencial 2 (ZR2) ocorreu com a Lei nº 11.022/2014, durante a revisão do Plano Diretor naquele período. Na revisão mais recente, aprovada pela Lei nº 13.123/2025, o enquadramento urbanístico foi mantido.

A Seplan esclarece que todas as denúncias e reclamações registradas pela Ouvidoria são analisadas e respondidas, não havendo pendências até o momento. “Todos os empreendimentos da cidade são acompanhados de forma contínua. Em um deles, localizado no bairro citado pela reportagem, já foram realizadas as fiscalizações e efetuadas todas as medidas administrativas cabíveis em relação ao caso”, complementa.

A Prefeitura de Sorocaba informa também que segue acompanhando o caso dentro de suas atribuições técnicas e administrativas, adotando as providências necessárias sempre que são identificadas situações em desacordo com a legislação. “Vale ressaltar que a elaboração ou revisão de um Plano Diretor pressupõe estudos técnicos e discussão com a sociedade”, finaliza.

O Cruzeiro do Sul encaminhou à construtora responsável questionamentos sobre as denúncias de possíveis irregularidades no prédio construído no bairro, sobre as medidas previstas para minimizar impactos como poeira, ruídos e circulação de caminhões. Também foi solicitado posicionamento sobre eventuais contrapartidas urbanísticas e sobre as reclamações apresentadas pelos moradores. Até o fechamento desta reportagem, a empresa não havia se manifestado. O espaço segue aberto. (Da Redação)