Criatividade aumenta número de vítimas de golpes virtuais

Especialistas alertam para o crescimento do estelionato digital e orientam sobre prevenção

Por Thaís Verderamis

Pesquisa mostra avanço dos golpes digitais e alerta para riscos no uso da internet

Quase todo mundo já conheceu, conhece ou foi alvo de um golpe virtual. As abordagens são diversas: mensagens por SMS com promessas de dinheiro a receber ou cobranças de dívidas, ligações relatando compras não reconhecidas, sites falsos, números clonados que se passam por parentes, entre outras estratégias.

De acordo com o coordenador de tecnologia da UniFacens, Eliney Sabino, para evitar cair em tentativas de golpe online é necessário cautela e, principalmente, tempo. “Um pouco de cautela e um pouco mais de conferência para verificar se aquilo que você está pagando ou comprando é, de fato, real. Ligar para a empresa, confirmar informações e gastar um tempo a mais ajudam a evitar cair em golpes”, explica.

Em uma caminhada por um parque de Sorocaba, diversas pessoas relataram já ter passado por tentativas de golpe. Um dos entrevistados contou que sofreu um acidente e, anos depois, passou a receber mensagens informando que teria uma indenização a receber.

Outro afirmou que recebe com frequência ligações de números desconhecidos. Já uma terceira pessoa relatou que é comum chegar ao celular mensagens sobre tentativas de compra ou comunicações que se passam pelo banco no qual possui conta.

Uma das vítimas perdeu R$ 1.200 após receber uma mensagem de um número desconhecido que se passou pela filha. Durante a troca de mensagens, o golpista solicitou o pagamento de um boleto e, em poucos cliques, o valor foi transferido e não houve ressarcimento.

Golpes e como se proteger

No ambiente virtual, a atenção deve ser redobrada. Segundo o delegado titular da Divisão Especializada de Investigações Criminais (Deic) de Sorocaba, Rodrigo Ayres, nos últimos anos, inclusive em razão da atuação policial, os crimes de roubo vêm apresentando queda. Em contrapartida, os casos de estelionato têm aumentado.

“Quando falamos em estelionato, trata-se de um crime que não é cometido mediante violência ou grave ameaça. Por isso, muitas vezes, a pena é menor do que a de um roubo. No entanto, temos observado que esses crimes acarretam prejuízos financeiros maiores”, afirma.

Sabino reforça que há cuidados básicos que ajudam a reduzir riscos no ambiente digital. Ao realizar compras online, é importante conferir se o endereço eletrônico da loja está correto, pesquisar o CNPJ da empresa, consultar sites de avaliação e, se houver aplicativo oficial da loja, priorizar a compra por esse canal. No momento do pagamento, os dados devem ser conferidos com atenção. Em caso de dúvida, a orientação é entrar em contato pelos canais oficiais da empresa e evitar o pagamento de boletos enviados por SMS, links ou outros meios não solicitados.

O especialista alerta ainda para ofertas com pressão para conclusão rápida da compra e preços muito abaixo do mercado. “Quando o produto aparece com valor muito inferior ao praticado, mesmo após pesquisa em diferentes sites e aplicativos, é preciso ficar atento. Golpistas costumam criar situações de urgência, dizendo que restam poucas unidades ou que o desconto acaba em poucas horas, justamente para impedir a verificação da veracidade da oferta”, explica.

Sobre ligações telefônicas, Sabino chama atenção para chamadas que permanecem mudas após serem atendidas. “Há criminosos utilizando inteligência artificial para clonar vozes e se passar por pessoas conhecidas, simulando situações de emergência. Se atender uma ligação que fica muda, a orientação é desligar imediatamente”, afirma.

Ele reforça ainda que nunca se deve fornecer dados bancários ou informações de cartões de crédito por telefone ou por meios digitais.

Em relação a links suspeitos, o professor explica que eles podem conter códigos maliciosos capazes de roubar dados pessoais. Um dos sinais é a lentidão do aparelho. Nesses casos, a orientação é desconectar o dispositivo das redes Wi-Fi ou móveis e procurar apoio da operadora e da instituição bancária para notificar o risco.

Medidas legais

Caiu em um golpe, e agora? De acordo com o delegado, o primeiro passo é comunicar a Polícia Civil e registrar o boletim de ocorrência (BO). O registro pode ser feito de forma online, presencialmente no plantão policial ou na delegacia mais próxima.

Outro ponto importante é preservar todas as informações relacionadas ao crime, como capturas de tela, conversas e extratos bancários. “É fundamental manter o máximo de dados possível. Se houve conversa online, não apagar as mensagens. Se houve transação bancária, guardar extratos e registros”, orienta Ayres.

Em seguida, é necessário entrar em contato com a instituição financeira para comunicar o golpe e tentar o bloqueio ou eventual ressarcimento do valor.

O delegado destaca a importância do registro do BO. “Primeiro, para que a pessoa possa tentar ser ressarcida. Segundo, para impedir que o autor continue aplicando golpes. Terceiro, porque dificilmente o criminoso aplica um golpe isolado. Quando vários registros são feitos, conseguimos identificar padrões e esclarecer outros casos. Além disso, esses crimes têm sido praticados por organizações, e os boletins ajudam a demonstrar que não se trata de um fato isolado”, afirma.

Por fim, Ayres alerta para o risco de permitir que terceiros utilizem contas bancárias para movimentações financeiras. Dependendo da situação, a pessoa pode acabar envolvida, mesmo sem intenção, em esquemas criminosos.

Pesquisa

Segundo levantamento da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), cerca de nove em cada dez pessoas no Estado de São Paulo já foram alvo de tentativas de golpe digital. Aproximadamente 88% da população, o equivalente a 30 milhões de pessoas, relataram ter passado por alguma situação desse tipo.

A pesquisa foi realizada entre julho e setembro de 2025, de forma remota, e dividida em três eixos: tentativas de golpe por meios digitais, golpes consumados e percepção da população sobre o uso de plataformas digitais.

Os dados indicam que os grupos mais expostos são pessoas com maior escolaridade, rendimentos mais elevados e faixa etária entre 30 e 59 anos, perfil mais conectado às tecnologias digitais.

Ainda segundo a Seade, 40% dos entrevistados relataram já ter comprado em sites inexistentes. Outros 24% afirmaram ter sido vítimas de fraude ou clonagem de cartão de crédito, e mais de um terço disse ter perdido dinheiro sem conseguir recuperar o valor.

Ao final da pesquisa, 95% dos entrevistados afirmaram perceber crescimento dos golpes virtuais, e dois terços consideram difícil se proteger. O risco é maior entre pessoas com mais de 60 anos e menor escolaridade, que, apesar de menos conectadas, apresentam maior vulnerabilidade.

 

Receita Federal

A Receita Federal publicou em seu site oficial um alerta sobre uma nova modalidade de golpe virtual. Criminosos estão utilizando o nome e o Cadastro de Pessoa Física (CPF) reais de contribuintes para criar cobranças falsas com layout semelhante ao do gov.br.
As mensagens costumam pressionar o pagamento imediato. A Receita Federal alerta que situações de urgência são indicativo de golpe. O órgão não envia mensagens com prazos curtos, não solicita pagamentos por aplicativos e não exige quitação imediata.
Para identificar possíveis fraudes, é necessário verificar o endereço eletrônico: sites oficiais sempre terminam em “gov.br”. O e-CAC é o canal oficial de atendimento da Receita Federal e deve ser acessado exclusivamente pelo login no gov.br. Pendências e débitos devem ser conferidos apenas em ambientes seguros.