Apreensões de canetas emagrecedoras ilegais disparam na região de Sorocaba

Alta demanda por medicamentos para perda de peso impulsiona contrabando; especialistas alertam para riscos graves à saúde

Por Cruzeiro do Sul

Polícia Rodoviária atua para combater o crime: estratégia mais comum é o transporte fracionado


A região de Sorocaba registra um aumento expressivo nas apreensões de canetas emagrecedoras ilegais. O balanço mais recente aponta uma tendência de crescimento em 2025 na comparação com 2024, tanto no número de ocorrências quanto no volume de produtos retirados de circulação. Segundo a Polícia Rodoviária, somente nesse período, as forças de segurança apreenderam mais de 4.800 medicamentos de uso controlado — entre abortivos, anabolizantes e estimulantes sexuais — além de mais de três mil ampolas e canetas emagrecedoras.

De acordo com a corporação, há indícios técnicos de que esse tipo de ocorrência se intensificou nos últimos meses, especialmente no segundo semestre de 2025 e no início de 2026. O cenário reflete a crescente demanda por medicamentos associados à perda de peso. Na Região Metropolitana de Sorocaba (RMS), as rodovias Castello Branco (SP-280) e Raposo Tavares (SP-270) concentram o maior número de apreensões.

A Polícia Rodoviária explica que as cargas raramente aparecem em grandes volumes concentrados. A estratégia mais comum é o transporte fracionado, em bagagens, compartimentos ocultos de carros de passeio ou ônibus. O objetivo é reduzir o prejuízo em caso de apreensão e dificultar a identificação de esquemas logísticos de maior porte. Com frequência, as canetas emagrecedoras são encontradas junto a outras mercadorias ilícitas, como medicamentos sem registro, anabolizantes, cosméticos irregulares, cigarros e produtos eletrônicos, caracterizando crimes de descaminho ou contrabando.

Em nota, a corporação detalhou como funcionam as abordagens policiais em operações desse tipo. “A identificação ocorre a partir de um conjunto de critérios técnicos e operacionais. Durante as abordagens, os policiais utilizam análise de comportamento, verificação de bagagens, inspeção veicular e informações de inteligência previamente levantadas. A combinação desses elementos permite reconhecer padrões e localizar produtos sem registro ou de origem ilegal. Após a apreensão, os itens são formalmente relacionados, lacrados e descritos no boletim de ocorrência, garantindo a cadeia de custódia. Em seguida, são encaminhados à autoridade competente [Polícia Federal, Polícia Civil, Receita Federal ou vigilância sanitária] que assume os procedimentos investigativos e administrativos”.

Riscos à saúde

Especialistas alertam que o consumo de canetas emagrecedoras de origem desconhecida representa um risco grave à saúde. A médica endocrinologista e metabologista Alessandra Ayan da Silva Diedrichs explica que um dos medicamentos mais visados pelo mercado ilegal é a tirzepatida, desenvolvida originalmente para o tratamento do Diabetes Mellitus tipo 2. “A tirzepatida é um medicamento agonista duplo, que imita dois hormônios intestinais, o GLP-1 e o GIP. Ela atua no controle da glicemia, aumenta a saciedade e retarda o esvaziamento gástrico”, explica.

Ainda segundo a médica, o uso com finalidade de emagrecimento só passou a ser indicado após a comprovação científica de perda de peso significativa. “Inicialmente, a tirzepatida foi desenvolvida para tratar o diabetes tipo 2. Posteriormente, observou-se uma perda de peso muito expressiva, que pode ultrapassar 20% do peso corporal, o que levou à sua aprovação também para o tratamento da obesidade e do sobrepeso com comorbidades”.

Para Alessandra, o principal problema é que as versões contrabandeadas não passam por qualquer controle da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), diferentemente dos medicamentos regularizados, que possuem rastreabilidade, bula, número de lote e prazo de validade. Os produtos ilegais podem conter substâncias tóxicas, dosagens imprevisíveis ou sequer o princípio ativo anunciado. Entre as possíveis consequências estão náuseas, vômitos, diarreia, desidratação e queda de cabelo. Em casos mais graves, podem ocorrer perda de massa muscular, sarcopenia e até pancreatite.

Por fim, a endocrinologista aponta quem costuma ser o principal público desse mercado ilegal. “São pessoas que buscam emagrecimento rápido, muitas vezes por motivos estéticos e sem diagnóstico formal. Mulheres jovens acabam sendo a ‘vítima perfeita’, por causa da pressão social e da influência das redes sociais”, ressalta.

Sobre a interrupção do uso, Alessandra esclarece que não se trata de dependência química nem de efeito rebote. “Os análogos de GLP-1 e GIP não causam dependência. A obesidade é uma doença crônica, e o medicamento funciona como um tratamento contínuo. Quando ele é interrompido, o organismo tende a retornar ao peso anterior, o que é uma resposta fisiológica, não um efeito rebote”, pontua.

A orientação médica é clara: o tratamento seguro e legal da obesidade deve ser realizado por meio de uma abordagem multidisciplinar, envolvendo médico, nutricionista e psicólogo, com o uso exclusivo de medicamentos registrados na Anvisa e, em casos específicos, cirurgia bariátrica. O avanço das apreensões na região de Sorocaba reforça que, além de ilegal, o mercado paralelo de canetas emagrecedoras representa um problema de saúde pública que vai muito além da estética. (Lavínia Carvalho - programa de estágio)