Oitenta pessoas morreram no trânsito de Sorocaba em 2025
Levantamento do InfoSiga aponta redução nos óbitos em 2025, mas indica que acidentes seguem frequentes em vias de grande fluxo
O trânsito de Sorocaba segue deixando marcas na rotina da cidade. Em 2025, 80 pessoas perderam a vida em acidentes registrados em vias urbanas, segundo dados do sistema Infosiga, do Detran-SP. O número representa uma queda de 17,5% em relação a 2024, quando foram contabilizadas 97 mortes, mas ainda revela um cenário de risco recorrente para quem circula pelas ruas do município.
Ao longo do ano, foram registrados 1.650 sinistros de trânsito, entre colisões, atropelamentos e outras ocorrências. As mortes representam a parcela mais grave desse cenário, que também gera impactos no sistema de saúde, nos serviços de emergência e na mobilidade urbana. O custo estimado dos acidentes ultrapassa R$ 180 milhões, segundo o levantamento estadual.
Os dados mostram ainda que as vítimas fatais são, em sua maioria, homens em idade economicamente ativa, grupo que concentra mais de 70% das mortes no trânsito da cidade. Entre os óbitos registrados em 2025, 35 envolveram motociclistas, além de 26 pedestres, 12 ocupantes de automóveis e três ciclistas, indicando que diferentes perfis seguem expostos aos riscos da circulação urbana.
Vias de grande fluxo concentram ocorrências
As mortes no trânsito em Sorocaba não ocorrem de forma aleatória. Elas se concentram principalmente em avenidas de grande circulação, que funcionam como corredores de ligação entre bairros populosos e regiões comerciais.
Entre os trechos com maior número de registros aparecem as avenidas Itavuvu, com oito mortes em 2025, e Ipanema, com seis óbitos. Outras vias também figuram entre as mais críticas, como a avenida Afonso Vergueiro, com quatro mortes, e as avenidas Dom Aguirre e Victor Andrew, com três óbitos cada.
Do total de sinistros registrados no ano, a maioria foi classificada como colisão, seguida por atropelamentos e quedas, reforçando que os óbitos são apenas a face mais grave de um problema urbano mais amplo.
A percepção de risco no dia a dia
Para quem depende das ruas para trabalhar, os números se misturam à experiência cotidiana. Motoboys ouvidos pela reportagem relatam que a sensação de insegurança é mais intensa nos horários de pico, quando o trânsito fica mais carregado e a pressa dos motoristas aumenta.
Os dados do Infosiga ajudam a explicar essa percepção: a maior parte das mortes ocorreu no período da tarde e da noite, além de haver maior incidência aos sábados e domingos, quando o fluxo de veículos se mantém elevado.
Motoboy há quase oito anos, Gabriel Ávila de Oliveira evita determinados trajetos nos horários mais movimentados. Foi em uma dessas avenidas que sofreu um acidente grave, que o afastou do trabalho por cerca de seis meses. “Uma motorista atravessou a preferencial e entrou na minha frente. Acabei batendo no carro. Quebrei o braço e precisei passar por cirurgia”, relata.
Acidentes deixam de ser exceção
Mesmo entre quem está começando na profissão, o risco aparece rapidamente. Patrick Gabriel Dantas, de 26 anos, trabalha como motoboy há poucas semanas e diz que já presenciou um acidente grave durante a madrugada, na avenida Ipanema.
“Foi por volta de uma da manhã. Tinha gente muito machucada, família no local, desespero”, conta. Segundo ele, o comportamento dos motoristas contribui para o risco. “Fecham a moto, não dão seta, entram de uma vez.”
O perfil das vítimas reforça a recorrência desses casos: 72,5% dos mortos eram homens, com maior concentração nas faixas etárias entre 20 e 29 anos e entre 40 e 49 anos.
Imprudência e pressa como fatores constantes
Para Leonardo Marques Bisso, de 40 anos, que trabalha há décadas no trânsito da cidade como motoboy, os acidentes refletem um padrão que se repete. “No horário de pico, todo mundo está com pressa. Falta atenção e respeito”, avalia.
Leonardo já se envolveu em três acidentes de moto, dois deles causados por fechadas de carros. Os dados oficiais ajudam a contextualizar essa leitura: 71% dos sinistros registrados em 2025 foram classificados como colisões, ocorrências típicas de conflitos diretos entre veículos em circulação.
O debate sobre o BRT
Outro ponto levantado por trabalhadores do trânsito é a organização viária, especialmente em relação aos corredores exclusivos do sistema BRT. Segundo motoboys, em determinados trechos, essas faixas permanecem sem circulação constante de ônibus, enquanto motos e carros disputam espaço nas pistas comuns.
Na avaliação deles, a liberação controlada desses corredores poderia reduzir conflitos no tráfego e o risco de acidentes em vias de grande fluxo.
A posição da Prefeitura
A Prefeitura de Sorocaba informou que atua na segurança viária por meio de fiscalização, educação para o trânsito e engenharia viária, com monitoramento permanente do sistema viário, uso de câmeras e ações integradas entre agentes municipais, Guarda Civil Municipal e Polícia Militar.
Em relação ao BRT, o município sustenta que a proibição do tráfego de motocicletas foi adotada como medida preventiva. Segundo a Secretaria de Mobilidade, levantamentos realizados nas avenidas Itavuvu e Ipanema indicaram que a liberação parcial das faixas não resultou em aumento no número de mortes, mas a restrição total busca reduzir ainda mais os riscos.
Entre os números e a realidade urbana
Apesar da queda nos dados oficiais, os relatos mostram que o trânsito segue sendo percebido como um ambiente de risco por quem convive diariamente com ele. “A gente sai para trabalhar sem saber se vai voltar inteiro para casa”, resume Gabriel.
Os números ajudam a dimensionar o problema. As histórias revelam como ele é vivido no cotidiano e indicam que, mesmo com avanços, a segurança no trânsito ainda permanece como um dos principais desafios urbanos de Sorocaba.