Férias escolares ampliam tempo de tela e exigem atenção dos pais ao comportamento de adolescentes

Com mais tempo livre em casa, jovens reorganizam o dia em torno da internet

Por Valéria Amoris

Janeiro Branco chama atenção para a saúde mental durante as férias escolares

Com a suspensão das aulas durante as férias escolares, adolescentes passam mais tempo em casa e ampliam o uso de internet, redes sociais, videogames on-line e plataformas de vídeo.

O período também se relaciona ao Janeiro Branco, campanha nacional de conscientização sobre saúde mental criada em 2014, por coincidir com as férias escolares, quando mudanças na rotina permitem observar impactos do uso de telas sobre sono e organização do dia a dia dos jovens.

A psicóloga clínica e neuropsicóloga Alessandra Bortoleto, pós-graduada em Adolescência e Transtornos Aditivos, explica que a interrupção da rotina escolar interfere diretamente na forma como os jovens organizam o tempo.

Segundo ela, durante o período letivo, horários e compromissos funcionam como uma estrutura externa. Nas férias, essa referência deixa de existir, e o jovem passa a depender mais da própria capacidade de autorregulação. “Essa autorregulação ainda está em desenvolvimento na adolescência. Sem a rotina escolar e com mais tempo livre, o adolescente fica mais vulnerável a passar longos períodos conectado”, afirma.

Organização familiar e acompanhamento

A professora de música, especializada em canto, Marília Moreira, de 52 anos, moradora de Sorocaba, é mãe solo de um adolescente, Pietro Moreira Guedes, de 14 anos. Em sua percepção, o comportamento do filho mudou nos últimos anos, principalmente com a chegada dos jogos on-line. “Hoje ele joga na internet. Eu preciso colocar um prazo para encerrar, se não ele vira a noite. Durante a semana, o horário para finalizar é 21h”, relata.

Ela afirma que o filho não utiliza redes sociais e que o consumo de conteúdo acontece por meio de vídeos. Segundo a mãe, durante o período letivo, o uso de telas só ocorre após o cumprimento das tarefas escolares. Nas férias, o controle é mais flexível, mas continua sendo acompanhado. “Procuro estar com ele na maior parte do tempo para que as telas não sejam a única companhia ou possibilidade”, diz.

Marília avalia que o filho tem consciência dos riscos do ambiente digital, mas ainda precisa aprender a lidar melhor com o tempo. “Acredito que ele entenda bem os perigos e as armadilhas da internet. O que ele precisa é respeitar mais o tempo on-line, para não prejudicar os estudos”, afirma.

Para ela, a discussão sobre o uso de tecnologia atravessa gerações. “Em todas as épocas nós tivemos que lidar com questões externas e com novas tecnologias. O importante é o equilíbrio”, conclui.

O que dizem os adolescentes

Três amigos e moradores da região, ajudam a entender como as férias mudam a relação dos jovens com a internet. Fora das telas, eles costumam se encontrar, conversar e realizar atividades juntos. Durante o recesso escolar, no entanto, o ambiente digital passa a ocupar um espaço maior na rotina deles, funcionando também como local de convivência, troca e lazer.

Morador de Capela do Alto, Pedro Miguel Plens de Quevedo Albertoni, de 14 anos, aluno do 9º ano do ensino fundamental, conta que a internet faz parte do dia a dia principalmente como forma de relaxar. “Eu gosto de ficar escutando música”, diz. Segundo ele, o uso do celular aumenta nas férias, quando o tempo livre é maior. Pedro relata que passa entre 8 e 9 horas por dia conectado e que costuma usar o celular até a hora de dormir. “É difícil desligar”, admite.

Pedro explica que a internet também funciona como um meio de manter relações. “Eu me sinto triste por não estar tão perto dos meus amigos quanto gostaria. Prefiro ficar na internet porque não me estresso tanto quanto com as pessoas”, relata. Ele reconhece que, em alguns momentos, perde a noção do tempo enquanto está conectado e que isso acaba interferindo na convivência fora das telas.

Em Sorocaba, João Oliveira, de 14 anos, estudante do primeiro ano do ensino médio, diz que o videogame faz parte da rotina. Durante a semana, ele conta que joga entre 4 e 6 horas por dia. Nos finais de semana, esse tempo ultrapassa 8 horas. João afirma que usa principalmente jogos eletrônicos para interagir com os amigos e assiste a vídeos no YouTube. “Eu gostaria de passar mais tempo jogando no computador”, diz.

Segundo João, o uso da internet é acompanhado pelos pais, que ficaram preocupados com o tempo on-line. Ele afirma que não leva o celular para a cama e procura priorizar o sono. Quando fala sobre atividades deixadas de lado enquanto joga, conta que se sente bem quando está conectado, mas acaba adiando tarefas do cotidiano, principalmente aquelas de que não gosta.

Também em Sorocaba, Pietro Moreira Guedes, 14 anos, estudante do primeiro ano do ensino médio e filho de Marília Moreira, descreve a internet como um apoio no dia a dia. “Se estou cansado ou não sei algo, posso jogar um jogo ou ouvir músicas que gosto. É como se eu me sentisse confortável na internet”, relata.

Pietro conta que costuma jogar on-line com amigos da escola, interagir durante as partidas e conversar enquanto joga. Além dos jogos, ele usa a internet para ouvir música e diz que tem um amigo que conheceu apenas de forma virtual, morador do Mato Grosso. Sobre o tempo conectado, afirma que varia entre 3 e 6 horas por dia, dependendo da rotina, e que esse período aumenta nas férias, em até 2 ou 3 horas a mais.

Na hora de dormir, Pietro diz que leva o celular para a cama, mas tenta se desligar. “Uso só um pouco e depois deixo de lado, tentando dormir”, explica. Ele reconhece que, em alguns momentos, perde a noção do tempo enquanto joga. “Quando percebo que passaram horas, costumo sair um pouco do computador, conversar com minha mãe e depois descansar”.

Ao falar sobre o que mais o prende ao ambiente on-line, Pietro diz que são as possibilidades oferecidas pelos sites. Ele relata que, quando deixa de cumprir algum compromisso por causa do tempo de tela, sente um pouco de tristeza, mas percebe menos impacto quando se trata de atividades do dia a dia.

Quando o uso deixa de ser apenas lazer

De acordo com a psicóloga Alessandra Bortoleto, o uso de telas deixa de ser apenas recreativo quando passa a causar prejuízos no cotidiano. “Não é o número de horas isoladamente, mas a perda de controle e o impacto na vida do adolescente”, explica.

Ela aponta como sinais de atenção alterações no sono, irritabilidade quando o uso é interrompido, dificuldade em reduzir o tempo conectado e afastamento da convivência familiar. “Quando o adolescente passa a organizar a rotina em função das telas, isso precisa ser observado”, afirma.

Janeiro Branco e o cuidado com a saúde emocional

O tema ganha destaque neste mês, período da campanha Janeiro Branco, voltada à conscientização sobre saúde mental. Durante as férias escolares, a suspensão das aulas altera a rotina dos adolescentes e amplia o tempo livre, contexto que exige maior atenção das famílias em relação ao uso da internet.

Segundo Alessandra, o acompanhamento do uso da internet durante as férias não deve se restringir à proibição. “Quando há prejuízo no dia a dia, é um indicativo de que algo precisa ser revisto. Estabelecer combinados claros e manter alguma rotina durante o recesso são formas diretas de cuidado”, conclui.