Desapego de livros e uniformes: economia e solidariedade no início do ano letivo
Participantes relatam já ter economizado até 60% na lista de materiais escolares
Na medida que o início das aulas se aproxima e famílias começam a se preparar para o novo ano letivo, uma prática vem ganhando força nas comunidades: o desapego de livros escolares e uniformes usados. Entre grupos de WhatsApp, redes sociais e iniciativas comunitárias, pais e mães trocam, doam ou vendem materiais que ainda estão em bom estado, reduzindo custos e promovendo a reutilização de recursos em um período de altos gastos escolares.
A pressão financeira no início do ano letivo é uma realidade presente em muitas famílias: livros didáticos, paradidáticos e uniformes podem representar um gasto significativo. A compra desses itens usados, por outro lado, pode ajudar no orçamento. “Os uniformes e os livros escolares eu sempre compro de desapego”, conta Corina Torres, de 39 anos, auxiliar de loja, que participa ativamente de grupos de troca. “O desapego ajuda em tudo: conseguimos bons produtos com ótimos preços e economizamos tempo também.”
A coordenadora de uma comunidade de trocas e desapegos, a psicóloga Simone Mazzetti, , afirma que teve redução de até 60% na lista de materias. “Meus filhos estudam em um colégio de elite em Sorocaba e, desde sempre, ensinei a eles a buscar livros usados por causa do nosso orçamento. Com a crise econômica de 2013, aproveitei para criar um grupo de troca de livros, o Banco de Livros, para promover a reutilização e a colaboração entre as famílias. A ideia cresceu e hoje o grupo funciona até mesmo junto às escolas, onde a troca de livros usados já virou prática comum.”
A negociação desses materiais acontece principalmente por meio de grupos de WhatsApp e Facebook direcionados às escolas ou comunidades locais. Para muitos, essas plataformas viraram ferramentas essenciais, alguns grupos ficaram tão cheios que precisaram ser multiplicados para acomodar todos os interessados. Para algumas mães, o boca a boca nas amizades e o cruzamento de dicas também ampliam a rede de trocas, facilitando que livros e peças de uniformes circulem entre quem já não precisa mais e quem busca economizar.
Mas além da economia no bolso, a reutilização de livros e uniformes contribui para reduzir o desperdício de material que ainda está em bom estado, e evita que exemplares de livros, muitas vezes desatualizados para as exigências das escolas, sejam simplesmente descartados.
Livros “tem que circular”
Essa cultura de reuso vai além da economia. Simone relata que cresceu em um lar em que os livros “tinham que circular”, um princípio que agora ela tenta divulgar em seu grupo, promovendo consciência social e incentivo à leitura e à solidariedade comunitária. “A literatura faz parte de minha vida desde a primeira infância, meu pai era gráfico. Minha casa sempre teve muitos livros pois toda a publicação meu pai trazia para casa um exemplar. Aprendi desde muito cedo que livro tem que circular. Se gostou da história, repasse, se já não precisa mais dele, faça doação.”
Além do aspecto pessoal e familiar, essas práticas de reaproveitamento também se estendem ao campo profissional. Andréa Castro de Melo, 47, explica que, por trabalhar com biblioterapia, precisa investir bastante em livros e, ao participar da troca de materiais usados, consegue enriquecer seu acervo sem gastar tanto, ao mesmo tempo em que ajuda outras mães a economizar com livros e uniformes neste período de altos custos escolares.
Segundo as participantes, o fluxo de trocas aumenta significativamente entre novembro e fevereiro, seguindo a liberação das listas de materiais pelas escolas. Neste período, a busca por itens como camisetas, bermudas, moletons de uniformes, mochilas, tênis e livros, especialmente de literatura infantojuvenil ou paradidáticos, é maior.
Mais do que um simples mercado de usados, a prática do desapego de livros e uniformes escolares é um indicador de cooperação comunitária em tempos de pressões econômicas e um símbolo de um consumo mais consciente. Ao promover economia e incentivar a reutilização, essa dinâmica mostra que, quando a necessidade encontra criatividade e solidariedade, soluções práticas podem surgir, gerando impacto real no bolso e na vida das pessoas. (Lavínia Carvalho - programa de estágio)