O colapso mental no fim do ano
O fim do ano sempre chega anunciando paz, felicidade e esperança. É o mês das luzes, dos abraços ensaiados e das promessas de recomeço. Mas, quando o barulho das festas diminui, outros sentimentos atravessam a porta. Para muita gente, dezembro não é celebração. É exaustão.
Entre balanços pessoais, cobranças silenciosas e expectativas que não se cumprem, o último mês do ano se transforma em terreno fértil para o sofrimento emocional. Especialistas chamam esse fenômeno de “dezembrite”, uma tristeza profunda que não aparece nas fotos, mas pesa no corpo e na mente.
O biólogo Hélio Rubens afirma que a dezembrite está associada a um conjunto de sentimentos: “como tristeza, irritabilidade, ansiedade e desânimo, que surgem em meio às cobranças por metas cumpridas, confraternizações obrigatórias, excesso de gastos e expectativas criadas em torno das festas.”
A psicóloga Ariane Teixeira Toubia explica que o cansaço acumulado ao longo do ano, somado às pressões internas e sociais, pode empurrar a pessoa para um ciclo difícil de romper. “A gente evita, se isola e o sofrimento ganha força”, afirma. Segundo ela, os casos de depressão podem aumentar em até 75% nesse período, enquanto os quadros de ansiedade chegam a crescer cerca de 70%.
O fim do ano também reativa dores antigas. Encontros familiares que expõem conflitos, a obrigação do presente ideal, viagens feitas mais por pressão do que por desejo e a comparação constante com histórias de sucesso alheias funcionam como gatilhos emocionais. Para quem já está fragilizado, tudo pesa mais.
“Esses encontros familiares muitas vezes funcionam como gatilhos. Conflitos antigos voltam à tona, expectativas não resolvidas pesam e dinâmicas difíceis críticas, comparações, aquele clima tenso podem disparar ansiedade, raiva ou tristeza profunda.” Ariane afirma ainda que uma opção para enfrentar esse momento é definir metas claras, como determinar que só ficará um tempo exato no encontro.
Além das emoções, a vida prática aperta. As contas acumuladas, o medo do ano seguinte e a sensação de não ter avançado o suficiente reforçam o sentimento de inadequação. O corpo segue presente nas comemorações, mas a mente pede descanso. “Quando o balanço é feito olhando só para o que não deu certo ou comparando com os “sucessos” que aparecem nas redes sociais, o resultado pode ser doloroso: sensação de fracasso, queda na autoestima. É fácil cair na armadilha do “tudo ou nada”: ou o ano foi perfeito, ou foi um desastre”.
Sinais
Os sinais mais frequentes são irritabilidade, vontade de se isolar, cansaço que não passa, dificuldade de concentração, alterações no apetite ou no sono, crises de choro e pensamentos negativos que não saem da cabeça. A psicóloga afirma que uma rotina de autocuidado, exercícios físicos, meditação e hobbys saudáveis são opções para combater o momento difícil.
Ela também ensina algumas técnicas:
Respiração: A técnica consiste em mandar o ar para o diafragma inspirando por 4 segundos, prendendo o ar por 2 segundos e expirando por 6 segundos.
Distração: olhar ao redor e nomear 5 coisas que vê, 4 que toca, 3 coisas que ouve, 2 coisas que você pode sentir.
Conversar com pessoas de confiança também pode ajudar a diminuir a tensão. Em casos mais graves é indicado a procura por um profissional.
Centro de Valorização da Vida
Uma opção que a pessoa em sofrimento psíquico pode procurar é o Centro de Valorização da Vida (CVV), ele existe desde 1962, e está instalado em Sorocaba, desde 1983. O contato ao CVV pode ser feito pelo número 188 ou pelo site cvv.org.br.
Alcebíades Alvarenga, coordenador de divulgação do CVV, afirmou que “Geralmente, nessas datas chamadas icônicas, aumenta muito a procura. As pessoas estão em um clima festivo, em um clima assim de família, todo mundo está se aproximando. E também todo esse acontecimento, toda essa festividade é intensamente divulgada, estimulada.”
Em 2025 o CVV de Sorocaba atendeu cerca de 5.700 pessoas por mês. Quase 200 atendimentos por dia.
No meio de tantas luzes artificiais, talvez o cuidado mais urgente seja permitir que nem todo dezembro precise ser feliz. Às vezes, atravessar o fim do ano em paz significa apenas continuar respirando, um dia de cada vez.
Alcebíades afirma ainda que o número de plantonistas é insuficiente. O ideal seria ter, pelo menos, 150 pessoas, atualmente o CVV de Sorocaba, conta com aproximadamente 100 plantonistas.
Em janeiro, será oferecido um novo curso para plantonistas. As turmas serão online, com a primeira começando no dia cinco de janeiro. As inscrições podem ser feitas pelo site do CVV.