Tradições natalinas revelam memórias e afetos

Entre milhares de Papais Noéis e as luzes do Chanukah, famílias preservam costumes que atravessam gerações e dão sentido ao mês de dezembro

Por Vernihu Oswaldo

Radialista José Desidério tem tantos enfeites que nem sabe dizer quantos são

Tradições de Natal atravessam gerações e se repetem ano após ano. Estão nos filmes, nos livros e, principalmente, nas mesas brasileiras: no peru, no tender cravejado de cravos e até na controversa uva-passa da farofa. O Papai Noel também muda conforme o lugar. Pode surgir de roupas praianas, tocando saxofone ou em versões menos convencionais. Pelo mundo, os costumes são diversos. Na França, o bûche de Noël; na Espanha, o Tió de Nadal. Em comum, a origem ligada a antigas práticas de solidariedade, quando troncos simbolizavam a partilha da colheita para ajudar os mais pobres durante o inverno.

Em Sorocaba, duas famílias mantêm tradições próprias. Histórias que misturam herança familiar, afetividade e identidade cultural. Uma delas a do radialista José Desidério da Silva, de 82 anos, conhecido entre os amigos como “o narrador do fim do mundo”. Dono de sorriso fácil, ele acumula memórias, histórias e uma tradição natalina que atravessa mais de cinco décadas.

Em 1973, durante uma viagem pela América do Sul para cobrir um jogo da Copa Libertadores, Desidério comprou um Papai Noel que dançava e tocava música. O presente para a esposa marcou o início de uma coleção que hoje reúne milhares de peças. Todos os anos, o casal decora a casa com Papais Noéis, renas, bonecos de neve e outros símbolos natalinos. O foco é o bom velhinho, quase sempre vestido de vermelho. A exceção é um Papai Noel verde, adquirido em homenagem a um sobrinho palmeirense.

Os enfeites são tantos que o próprio Desidério não sabe dizer quantos são. Alguns dançam, outros tocam música. Basta ligar a régua de energia para que luzes e sons tomem conta da sala, criando um ambiente completamente natalino. No dia da ceia, familiares dividem espaço com a decoração. As paredes da casa também exibem diplomas e homenagens recebidas ao longo da vida profissional. No escritório, além dos enfeites, há livros e lembranças, como um casaco de treino do Santos, presente de Pelé, e uma contracapa da carteira de trabalho rasgada para receber um autógrafo do Rei.

Do lado de fora, duas relíquias completam o cenário: um Chevette, que só sai da garagem uma vez por ano, e um presépio gigante. A iluminação do presépio foi inaugurada por oito anos seguidos pelo arcebispo Dom Júlio Akemine. Neste ano, a cerimônia ficou a cargo do padre da paróquia local.

Sem filhos, Desidério e a esposa se cercaram de sobrinhos e afilhados. Em tom bem-humorado, ele costuma dizer que o acervo deixado terá de virar museu. A casa também recebe visitantes. Pessoas atraídas pelo presépio pedem para entrar e conhecer a decoração. Com gentileza, Desidério abre as portas para adultos e crianças.

Luzes que atravessam fronteiras

O jornalista Gabriel Toueg, 46 anos, mantém outra tradição. De ascendência judia, ele viveu mais de sete anos em Israel e preserva o ritual do Chanukah, celebração que simboliza resistência, identidade e liberdade religiosa. O Chanukah relembra um episódio histórico em que o óleo do Templo de Jerusalém, suficiente para apenas um dia, manteve a chama acesa por oito. Por isso, a celebração dura oito noites, com o acendimento progressivo das velas da chanukiá.

Em alguns anos, o calendário coincide com o Natal. Na casa de Gabriel, as velas dividem espaço com luzes decorativas. A esposa, Lindsay Barros, que não é judia, participa do ritual e ajuda a espalhar os enfeites pela casa. Além das luzes, há presentes para as crianças e pratos típicos, especialmente frituras, que remetem ao óleo da tradição. Gabriel recorda com carinho do sufganiá, doce frito semelhante ao sonho brasileiro. Mais do que um ato religioso, o ritual é conexão com a família distante, com a ancestralidade e com a memória.

Tradições que iluminam

Seja entre milhares de Papais Noéis ou nas velas acesas uma a uma, as luzes cumprem o mesmo papel: preservar histórias. Em Sorocaba, tradições diferentes iluminam dezembro de maneiras distintas, mas com sentidos semelhantes. Mais do que fé, são gestos de pertencimento, memória e continuidade — pequenas luzes que insistem em permanecer acesas, mesmo quando o tempo passa.