Linha Rosa divide opiniões entre passageiras em Sorocaba
Em fase experimental, o ônibus exclusivo para mulheres busca ampliar a segurança e o bem-estar das usuárias, mas ainda gera dúvidas sobre sua real eficácia
Desde o dia 20 de outubro, as mulheres que utilizam o transporte público de Sorocaba contam com um ônibus exclusivo, chamado de Linha Rosa. O serviço, em caráter experimental, funciona apenas na linha 100 Expresso, nos horários de pico (das 6h às 8h e das 17h às 19h), e tem dividido opiniões. Há quem ache a iniciativa interessante e diferente, enquanto outras usuárias a classificam como “uma brincadeira”.
O Cruzeiro do Sul percorreu os terminais Santo Antônio e São Paulo no fim da tarde de quinta-feira (23) e observou que muitas mulheres utilizavam a linha exclusiva apenas quando não havia o ônibus habitual — ou seja, nenhuma esperava mais tempo para embarcar no veículo feminino. O tempo médio estimado de chegada da linha é de cerca de 10 minutos nos terminais.
Mesmo em horário de pico, por volta das 17h30, os ônibus saíam dos dois terminais com cerca de 10 a 15 passageiras. Nenhum coletivo seguiu viagem lotado — diferente do que é relatado por quem utiliza o serviço pela manhã.
A linha foi criada com o objetivo de ampliar a segurança e o bem-estar das passageiras e deve funcionar até 20 de dezembro. Nessa data, a Urbes avaliará a adesão e o impacto do serviço junto às usuárias. A expectativa, segundo a Prefeitura, é que, após essa fase, o projeto possa ser aprimorado e ampliado para outras linhas e regiões da cidade.
Esse é um dos pontos que a auxiliar de escritório Bárbara Vitória de Oliveira considera necessário para aprovar, de fato, a nova linha. “Às vezes saio da faculdade bem tarde e o Cidade Universitária vem sempre cheio. Se fosse ampliado para lá, seria perfeito”, conta a universitária de 22 anos, que mora em Boituva e vem diariamente para Sorocaba. Enquanto isso não acontece, ela classifica a iniciativa como “ok”, nada muito revolucionária para o momento.
Helen Cristina Brisola, de 39 anos, adjetiva a nova linha como diferente, sobretudo pelos balões e amostras grátis de produtos ofertadas em algumas viagens. A neuropsicopedagoga também percebeu que, neste início, algumas mulheres ainda têm receio de entrar no ônibus, o que poderia ser explicado pela falta de hábito. “A ideia até é interessante, mas o que poderia ajudar mesmo é a mulher se posicionar bem ao pedir respeito ao sexo oposto, mais do que propriamente ter uma linha só dela”, reflete.
Os veículos têm layout interno com sinalização temática na cor rosa. Além disso, estão equipados com sistema de monitoramento por câmeras. E as mulheres não são apenas passageiras — os ônibus são conduzidos por motoristas mulheres. Uma delas é Amélia de Souza, de 41 anos, que, entre uma viagem e outra, conversou rapidamente com o Cruzeiro do Sul. Ela salientou que também acha a iniciativa “muito legal” e que levar as mulheres em total segurança é “muito emocionante”.
Mas a opinião, ainda que majoritariamente positiva, não é unânime. Durante uma viagem entre os dois terminais, a reportagem notou comentários que demonstravam não entender o motivo de se ter uma linha exclusiva para o sexo feminino. A moradora do bairro Cajuru, Rosemeire de Cássia Nunes, compartilha dessa visão.
“Acho isso uma brincadeira, porque no meio do caos que é o transporte público, com a demora de todo dia, não adianta nada um ônibus rosa — ainda mais sabendo que tantas coisas na cidade não funcionam”, opina. “Não acho útil, porque vivem tirando linha lá no Cajuru, e isso é o que prejudica nosso dia a dia de verdade”, acrescenta a sorocabana de 53 anos.
A iniciativa teve início em outubro, segundo a Prefeitura, por fazer parte das ações voltadas à campanha Outubro Rosa, de prevenção ao câncer de mama e de colo do útero.
Segurança para mulheres
Um dos principais motivos para a criação da linha foi a segurança das passageiras. Casos de importunação sexual no transporte público não são incomuns. A neuropsicopedagoga Helen Cristina Brisola já vivenciou essa situação duas vezes.
“Quando era adolescente, o ônibus estava bem cheio. Um homem se aproximou atrás e começou a encostar o corpo em mim e também o órgão genital”, relembra. Por ser uma época em que as mulheres não tinham tanta voz como hoje, ela não reagiu.
Anos depois, há cerca de dois meses, Helen passou novamente por um episódio de desrespeito. “Eu estava sentada no ônibus e um rapaz se aproximou de maneira indelicada. No mesmo instante, falei: ‘O senhor vai se ajeitar ou vou precisar chamar a polícia’. Depois disso, ele levantou e foi sentar em outro lugar. Agora eu sei que é importante ter voz e falar nesses momentos”, relata.
A jovem Bárbara Vitória de Oliveira, por sua vez, nunca foi vítima, mas já presenciou situações com outras passageiras. “É muito desconfortável, uma situação extremamente constrangedora”, afirma. (Thaís Marcolino)