História de Rafael Tobias de Aguiar ainda não é conhecida pelos sorocabanos
O pouco que a população conhece sobre ele — quando sabe — são versões distorcidas ou lendas
O brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar foi uma das figuras mais marcantes da história de Sorocaba. Ainda assim, em 7 de outubro de 1977, o Cruzeiro do Sul noticiava que a população sorocabana pouco conhecia sobre ele e, quando sabia, era por meio de versões distorcidas ou lendas.
Quase cinquenta anos depois, a reportagem voltou às ruas para repetir a mesma pergunta. No sábado (11), conversamos com visitantes do Zoológico Quinzinho de Barros e do Museu Histórico Sorocabano, local que já serviu de moradia para o brigadeiro e a resposta foi semelhante: o sorocabano ainda não descobriu as histórias de Rafael Tobias de Aguiar.
Lendas que em 1977 ainda circulavam entre os moradores hoje parecem esquecidas. Nenhum dos entrevistados recordou, por exemplo, que ele teria sido traído por sua esposa, a Marquesa de Santos. De qualquer forma, esta era apenas uma lenda mesmo, já que a Marquesa teria um relacionamento com o imperador Dom Pedro I, e casou-se com Brigadeiro Tobias 11 anos depois, do imperador voltar a Europa.
Na enquete atual, restaram apenas referências pontuais. Alguns entrevistados associaram o nome Tobias ao bairro homônimo; outros, à corporação da Polícia Militar — as Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota). O personagem histórico, no entanto, segue pouco conhecido.
Afinal, quem foi Rafael Tobias de Aguiar?
Nascido em Sorocaba, em 4 de outubro de 1794, Rafael Tobias de Aguiar era filho de Antônio Francisco de Aguiar e Gertrudes Eufrosina de Aguirre. Educado inicialmente por monges beneditinos, estudou latim, retórica e filosofia antes de se mudar para São Paulo, onde deu continuidade à formação. Com a morte do pai, em 1818, assumiu a administração das propriedades da família e envolveu-se em diversas atividades econômicas, como fazendeiro e comerciante.
Ingressou na vida política em 1821, como eleitor de comarca para as Cortes Constituintes de Lisboa. No ano seguinte, organizou combatentes para integrar o Batalhão dos Paulistas na campanha da Independência. Ao longo da carreira, foi membro do Conselho da Província de São Paulo, nomeado para o Conselho de Estado por D. Pedro I e exerceu dois mandatos como presidente da província.
Defensor de ideias liberais, Tobias foi um dos protagonistas da Revolução Liberal de 1842, quando foi proclamado presidente interino em Sorocaba, e reconhecido como patrono da Polícia Militar do Estado, segundo informações do Museu da Cidade de São Paulo, e assumiu o comando político da cidade durante o levante.
Perseguido pelas tropas legalistas comandadas pelo brigadeiro Caxias, precisou fugir para o Rio Grande do Sul. Preso e levado ao Rio de Janeiro, permaneceu detido na Fortaleza da Laje até 1844, quando recebeu anistia geral.
Continuou ativo na política até sua morte, em 1857, a bordo do navio Piratininga, na Baía de Guanabara. Seu corpo foi embalsamado e posteriormente trasladado para São Paulo, sendo sepultado no jazigo da Ordem Terceira da Igreja de São Francisco.
Em Sorocaba, sua presença ainda ecoa. O historiador José Rubens Incao relembra monumentos erguidos em sua homenagem: a antiga casa onde cresceu, no bairro que leva seu nome, permanece preservada; a residência na Vila Hortência transformou-se no Museu Histórico Sorocabano. A estátua na praça Arthur Fajardo, conhecida como praça do Canhão, e o antigo Teatro São Rafael, batizado em sua homenagem e hoje sede da Fundec, são marcas que resistem ao tempo.
Cinco décadas após a primeira reportagem, o cenário parece o mesmo. Brigadeiro Tobias segue sendo uma figura monumental na história de Sorocaba e, ao mesmo tempo, um ilustre desconhecido para a maioria de seus habitantes.