Outubro Rosa reforça importância do diagnóstico precoce do câncer de mama

Campanha mundial chama atenção para prevenção e detecção antecipada, que podem garantir até 95% de chance de cura

Por Cruzeiro do Sul

Exame de mamografia é o principal método para detectar o câncer de mama em estágio inicial

O mês de outubro é tradicionalmente marcado pela cor rosa, que simboliza uma das campanhas de saúde mais importantes do calendário mundial: o Outubro Rosa, voltado à conscientização sobre o câncer de mama — doença que afeta cerca de 73 mil novas mulheres todos os anos no Brasil, de acordo com dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca). Quando identificado no início, o câncer de mama pode ter até 95% de chance de cura.

A campanha, que começou nos Estados Unidos na década de 1990, surgiu da iniciativa de duas mulheres que enfrentaram o diagnóstico e decidiram lutar por mais informação, acolhimento e diagnóstico precoce da doença. Hoje, o movimento é global e cumpre papel essencial na mobilização da sociedade.

Apesar dos esforços de conscientização, muitos mitos e desinformações ainda rondam o tema. O médico especialista em oncologia clínica Paulo Bispo destaca que o câncer de mama pode não apresentar sintomas em suas fases iniciais, o que torna o diagnóstico precoce ainda mais necessário. “Muitas mulheres só procuram atendimento médico ou realizam exames como a mamografia quando percebem algum sintoma evidente, o que pode atrasar o tratamento e reduzir as chances de cura”, afirma o médico.

Entre os sinais de alerta mais comuns estão os nódulos mamários, que geralmente não provocam dor e podem ser percebidos no autoexame ou mesmo em um toque casual nas mamas. Outras alterações que merecem atenção são mudanças na coloração ou textura da pele, como vermelhidão, presença de feridas, retração ou desvio do mamilo e secreção mamilar sem causa aparente. “Especialmente quando ocorre apenas em uma das mamas. Além disso, o surgimento de caroços na região axilar, conhecidos popularmente como ínguas, pode indicar que a doença avançou para os gânglios linfáticos”, explica Bispo.

Ainda assim, é importante frisar que nem todo caroço na mama é câncer. Muitas mulheres têm cistos ou nódulos benignos que não oferecem riscos. O problema é que, apenas pelo toque, não é possível diferenciar o que é benigno do que pode ser maligno. Por isso, o especialista alerta: “Ao detectar qualquer alteração, por menor que seja, a recomendação é procurar o médico imediatamente. O diagnóstico preciso depende de exames como mamografia, ultrassonografia e, se necessário, biópsia. Esses exames ajudam a caracterizar o nódulo e orientam a conduta médica a ser seguida”.

A mamografia é considerada o principal método para detectar o câncer de mama ainda em estágio inicial. A grande vantagem do exame é a capacidade de identificar alterações ainda não palpáveis, como pequenas calcificações ou até o carcinoma in situ — uma forma extremamente precoce e curável da doença, que permanece restrita aos ductos mamários, sem se espalhar pelo corpo.

Ao contrário do que muitos pensam, fazer mamografia regularmente não previne o câncer; o exame permite o diagnóstico antes que o tumor evolua. A prevenção verdadeira está ligada a fatores modificáveis do estilo de vida.

Nesse sentido, a alimentação rica em frutas, verduras, fibras e cereais, aliada à prática regular de atividade física e ao controle do peso, compõe o tripé da prevenção. “O sedentarismo, a obesidade, o consumo de bebidas alcoólicas e o tabagismo são fatores de risco. A obesidade, por exemplo, está ligada ao câncer de mama devido às alterações hormonais que provoca no organismo”, explica Bispo.

Muitos mitos ainda rondam o câncer de mama e dificultam a adesão às práticas de cuidado. Um deles é o medo da mamografia, seja pela suposta dor, seja pela ideia equivocada de que a radiação do exame pode causar câncer. O especialista reforça que a mamografia é segura e eficaz. Outro erro comum é acreditar que o autoexame é suficiente para o diagnóstico precoce.

Embora seja importante para o autoconhecimento e o cuidado pessoal, o autoexame detecta o tumor já em estágios mais avançados, quando o nódulo tem cerca de um centímetro. O médico reforça que o câncer de mama tem até 95% de chance de cura quando identificado precocemente.

Mudanças no protocolo

Uma mudança recente que impacta diretamente as políticas públicas de saúde foi a atualização do protocolo do Ministério da Saúde, que passou a recomendar, desde setembro, a realização anual da mamografia a partir dos 40 anos — anteriormente, a orientação era iniciar aos 50 anos, a cada dois anos.

A alteração foi motivada pela pressão de sociedades médicas e pelo aumento da incidência de câncer de mama em mulheres mais jovens. Atualmente, entre 20% e 30% dos casos ocorrem em mulheres entre 40 e 50 anos, o que reforça a importância do novo protocolo.

No entanto, a mudança também revela outro grande desafio: a estrutura do sistema público de saúde. Mesmo com a nova recomendação, muitas mulheres enfrentam dificuldades para agendar mamografias, realizar biópsias ou iniciar o tratamento após o diagnóstico. “A lei dos 60 dias, que determina o início do tratamento oncológico em até dois meses após o diagnóstico, frequentemente não é cumprida em muitos municípios, e o tempo que se perde nesse processo pode custar caro. O ideal seria iniciar o tratamento imediatamente após o diagnóstico”, ressalta Bispo.

O Outubro Rosa é mais do que uma campanha — é um chamado à responsabilidade coletiva pela saúde da mulher. A conscientização sobre o câncer de mama começa com informação, passa pela prevenção e se concretiza com o diagnóstico precoce, destaca o médico. (Lavínia Carvalho - Programa de Estágio)