Menina resgatada de cárcere privado mostra primeiros sinais de recuperação
Conselho Tutelar de Sorocaba relata avanços no desenvolvimento e socialização da menina
Já faz pouco mais de um mês desde que o Conselho Tutelar de Sorocaba resgatou uma menina de 6 anos, que era mantida em cárcere privado pelos próprios pais em uma casa no Jardim Santa Esmeralda. A criança foi socorrida no dia 29 de agosto. Só que até esse dia, segundo os conselheiros, ela viveu isolada do mundo, sem contato com outras crianças, sem frequentar a escola e sem acompanhamento médico regular. Agora, a preocupação dos profissionais é recuperar o tempo perdido. Ela está em um abrigo, onde recebe toda a assistência médica e emocional.
De acordo com a conselheira tutelar Lígia Guerra, responsável por acompanhar o caso, a menina está passando por terapia ocupacional, fisioterapia, acompanhamento psicológico, odontológico e fonoaudiológico. É um tratamento em várias frentes, iniciado há quatro semanas. Neste período, a profissional observa uma melhora significativa, além do esperado.
“Nós temos que considerar as condições em que essa criança vivia. Ela se alimentava somente por seringa, nunca havia comido alimentos sólidos, fazia suas necessidades fisiológicas em pé. Coisas básicas, como beber água em um copo, ela nunca tinha feito”, diz a conselheira. “Agora, ela está aceitando comida pastosa, aprendeu a comer com colher, a beber no copo, a usar o banheiro”.
O ponto mais importante, segundo a conselheira, é a socialização com outras crianças. No abrigo, além dos hábitos comuns do dia a dia, a menina está tendo contato com pessoas pela primeira vez. No início, choros e gritos eram frequentes. Agora, ela brinca com os outros acolhidos e até demonstra afeto, pedindo beijos e abraços.
“Ela está reagindo aos estímulos e o primeiro passo do tratamento é basicamente isso. Essa menina está conhecendo o mundo agora”, explica Lígia. “Portanto, as coisas que ela não sabe se devem à falta de estímulo. Por exemplo, a própria fala, que não foi desenvolvida. Ela
se comunica balbuciando sons. Agora, iremos trabalhar com um fonoaudiólogo para que ela aprenda a falar”.
A conselheira explica que, embora a criança tenha 6 anos, perdeu toda a fase da primeira infância, que se estende do nascimento até essa idade. Durante o período em que foi mantida em cárcere, alimentava-se apenas por seringa, fazia suas necessidades em pé e nunca havia lavado o cabelo. Todas essas condições comprometeram seu desenvolvimento.
“Ainda está muito cedo para afirmar quais são as condições mentais. Precisamos que ela responda primeiro aos estímulos para chegar a um diagnóstico completo”, informa Lígia. “Algumas coisas são visíveis, como a arcada dentária e o afundamento na região do tórax, causados pela ausência de mastigação e deglutição”.
Os próximos passos do tratamento são manter os estímulos, a socialização e as medicações. Após o diagnóstico, a atenção será direcionada às necessidades específicas da menina.
Situação dos pais
Os pais da criança, responsáveis por mantê-la reclusa, foram presos em 4 de setembro. Inicialmente, eles respondem por cárcere privado, com agravante de maus-tratos contra menor. Após a audiência de custódia, a delegada-titular da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), Renata Zanin, solicitou a prisão temporária por 30 dias.
No dia 26 de setembro, a delegada informou que pediu a prorrogação do prazo por mais 30 dias, para concluir a fase de investigações com informações adicionais
Maus-tratos contra crianças em Sorocaba
Embora o caso da menina de 6 anos tenha repercutido e chocado grande parte da população de Sorocaba, episódios de maus-tratos a crianças e adolescentes infelizmente são comuns. Segundo Lígia Guerra, o Conselho Tutelar recebe diariamente denúncias de violência sexual e doméstica.
“Às vezes é tanta crueldade, que a gente imagina que não existam mais esses tipos de situações, mas ainda existem — e não são poucas. Por exemplo, recebemos denúncias de crianças castigadas com mangueira ou com Espada-de-São-Jorge”, relata a conselheira. “Desde a pandemia da Covid-19, os casos aumentaram bastante”.
A população também pode contribuir com o trabalho do Conselho Tutelar por meio de denúncias anônimas. Para acionar o órgão, basta ligar para o Disque 100 e informar o endereço completo do local onde ocorre o crime.