Há 2 anos, Sorocaba teve 1º caso de Covid

No período, município acumula 116.187 confirmações e 3.114 óbitos

Por Wilma Antunes

Rua São Bento, no Centro de Sorocaba no início do isolamento social.

Era uma terça-feira, dia 24 de março de 2020, quando a população de Sorocaba se viu obrigada a lidar com os impactos da pandemia. A cidade registrava seu primeiro caso confirmado de Covid-19. Um homem, com 53 anos na época, recebeu o tão temido diagnóstico da doença. Ele trabalhava na cidade de São Paulo e, dias antes de receber o resultado do exame, teve contato com um colega que estava com suspeita de contaminação. Os sintomas apareceram rapidamente: febre e coceira na garganta. O quadro da doença foi leve e ele nem precisou ser internado.

Embora esse seja classificado como o primeiro registro de coronavírus na cidade, é praticamente impossível apontar quem trouxe a doença para a região. Isso porque, junto a esse caso, havia dezenas de suspeitos. Tanto que, dias depois, o avanço de contaminação foi explosivo. A Secretaria Municipal da Saúde (SES) tem dados da primeira confirmação da doença, mas não consegue apontar qual foi o segundo, terceiro, quarto caso e assim por diante.

Sem ao menos ter tempo para se recuperar da notificação do primeiro caso, a primeira morte em decorrência do coronavírus em Sorocaba veio quatro dias depois, como um soco no estômago. Em um sábado, dia 28 de março, um idoso de 92 anos, diabético, não resistiu às complicações daquele novo vírus e morreu. Ele estava internado desde o dia 23 daquele mês. O idoso foi o primeiro óbito registrado, mas, a essa altura da crise sanitária, tinha mais quatro mortes em investigação.

Dali para frente, a situação só pioraria. Três meses depois, em 24 de junho, a cidade já havia registrado 3.776 casos e 105 mortes. Nos hospitais, 109 leitos eram ocupados por pacientes infectados. O médico Fernando Brum, que foi responsável pela Coordenaria de Enfrentamento ao Novo Coronavírus, lembra que, no início da crise sanitária, a maioria das pessoas que morriam eram idosos. A doença também se mostrava menos agressiva do que as próximas variantes que ainda surgiriam.

Mesmo com as pessoas em casa, a pandemia avançava. No dia 24 de setembro, o total de confirmados para coronavírus saltou para 17.317. Ainda mais famílias choraram a partida de seus entes queridos. Sorocaba já somava 387 óbitos e tinha 44 pacientes hospitalizados. A recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) era para se evitar reuniões familiares e locais com aglomeração.

Na véspera de Natal, dia 24 de dezembro, a transmissibilidade de Covid-19 continuava muito alta. Com total de 40.725 confirmações, 962 mortes e 240 internados. Brum relembra que foi um período difícil para todos da área de saúde, em que o maior desafio era sobreviver.

Vacina

A esperança para a população chega em Sorocaba também em uma terça-feira, dia 19 de janeiro de 2021. A cidade finalmente recebeu as primeiras 9.280 doses da vacina Coronavac contra a Covid-19. A imunização começou no dia seguinte para trabalhadores da saúde. A primeira vacina na cidade foi aplicada na técnica de enfermagem Michelle Cristiane da Costa Selvo, com 41 anos na época.

Inicialmente, a vacina foi destinada apenas aos profissionais da saúde e às pessoas incluídas no grupo de risco, assim idosos, gestantes, puérperas, imunossuprimidos, indígenas e quilombolas tinham prioridade. Os estoques de imunizantes ainda não supriam toda a demanda da cidade. Desta forma, em 24 de março, um após o primeiro caso confirmado de Covid-19, Sorocaba já tinha 40.725 positivações, 962 óbitos e 240 pessoas internadas. A quantidade de casos era 135,1% maior do que seis meses atrás.

Março ainda foi considerado o mês mais letal da pandemia para o município, com 357 mortes em decorrência do coronavírus. A mortalidade foi tão alta que, em 2 de abril, imagens aéreas mostraram muitas covas sendo abertas no cemitério Santo Antônio. O médico Fernando Brum recorda que, nesta época, as pessoas voltaram a sair de casa para trabalhar e até mesmo para encontros festivos. As vítimas, que costumavam ser idosos, agora tinham um novo perfil: obesos e adultos.

Em 24 de junho daquele ano, Sorocaba já tinha 71.055 confirmados, 2.275 mortes e 344 pacientes hospitalizados. Apesar dos números, a cidade chegou ao chamado platô da pandemia, ou seja, alcançou estabilização para que os índices começassem a baixar. No trimestre seguinte, em 24 de setembro, o total de confirmados passou para 85.037, enquanto as mortes aumentaram para 2.832 e 15 pacientes estavam internados. Naquela ocasião, houve aumento de 19,6% na quantidade de contaminações em relação a três meses atrás.

Com as taxas de transmissibilidade e mortalidade já em declínio, o presente de Natal de 2021 foi, justamente, estar presente. Na véspera do feriado, em 24 de dezembro, os números avançaram de forma lenta em comparação ao meio do ano. A cidade estava com 86.716 confirmados, 2.868 mortes e nove internados. Brum associa o fato da queda de casos ao progresso da vacinação contra o coronavírus. Ele ainda destaca que a imunização nunca impediu ninguém de ficar doente, mas que diminuiu o risco de morte.

Perto do fim

Ontem (24), dois anos depois do primeiro caso de Covid-19 na cidade, os sorocabanos já podem respirar aliviados. Com 96,4% da população vacinada pelo menos com a primeira dose e 84,6% com o esquema vacinal completo, os índices de contaminação de mortalidade diminuíram drasticamente. Em dois anos de pandemia, o município acumula 116.187 casos confirmados e 3.114 óbitos. No dia, foram registrados 36 positivações, uma morte e cinco internações.

Para o médico Fernando Brum, a pandemia se aproxima do fim. Os cuidados, no entanto, nunca devem ser deixados de lado. “O coronavírus já atingiu a maioria da população, inclusive as crianças. Tivemos variantes violentas, como a Delta, que tinha uma transmissibilidade média, mas era muito agressiva. Depois, veio a Ômicron, que era muito contagiosa, mas menos letal. Não nos restam dúvidas de que a vacinação tem relação direta com a diminuição de casos e mortes. Isso é inquestionável!”, afirmou.

Brum relembra que a caminhada não foi fácil nesses dois anos e se sentiu impotente em alguns momentos. Mesmo atuando na área da saúde há anos, há certas cenas que ninguém está preparado para ver. “Era um cenário de guerra. Por mais que você tente fazer, existem limitações. Faltavam leitos, medicamentos... Os pacientes já chegavam em estado grave, perdeu-se o controle. Há fases da vida que a gente prefere não lembrar e virar a página. Foi um tempo de muitas perdas e marcas que ainda vão levar tempo para se curar”, desabafou. (Wilma Antunes)