Pesquisa aponta contaminação de água em municípios da RMS

ONG Repórter Brasil indica problema em 16 dos 27 municípios da RMS entre os anos de 2019 e 2020

Por Marcel Scinocca

Mais da metade das cidades da Região Metropolitana de Sorocaba (RMS) distribuiu água, entre 2019 e 2020, com nível de substâncias que causam risco à saúde acima do limite tolerável. No total, são 16 dos 27 municípios nessa situação. Cinco das cidades têm situação ainda mais crítica. Apresentaram, acima do limite de segurança, substâncias com maiores riscos de gerar doenças crônicas, como o câncer. As informações estão no levantamento Mapa da Água, da organização Repórter Brasil. Os dados são enviados pelos municípios ao Ministério da Saúde, gerando o banco de dados usado na pesquisa.

Ibiúna, cuja distribuição da água da cidade é de responsabilidade da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), teve o pior resultado dentro do levantamento da ONG. A cidade apresentou, ao longo dos dois anos pesquisados, cinco substâncias em níveis que podem ser graves para a saúde; três deles, inclusive, apresentam maior risco de gerar doenças crônicas, como câncer.

Foram localizadas concentrações de chumbo, cromo e nitrato, sendo as três substâncias inorgânicas. Elas são classificadas como provavelmente cancerígenas para o ser humano, de acordo com a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), órgão da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Ainda na água de Ibiúna, foram encontradas concentrações acima do normal em subprodutos da desinfecção e que geram risco à saúde. Os itens foram ácidos haloacéticos total e trihalometanos total. Os trihalometanos são utilizados como solvente em vários produtos. Já os ácidos haloacéticos são classificados como subprodutos da desinfecção, formado quando o cloro é adicionado à água para matar bactérias e outros microorganismos patogênicos.

Outros municípios

Na cidade de Itu, três substâncias acima dos limites toleráveis foram encontradas. O caso mais grave é o nitrato, que junto com seus compostos são utilizados na fabricação de fertilizantes, conservantes de alimentos, explosivos e pela indústria farmacêutica na produção de medicamentos vasodilatadores. Outras duas substâncias foram localizadas na água da cidade, sendo carbofurano (agrotóxicos) e trihalometanos total.

Na vizinha Salto, o mesmo quadro, com uma substância que pode gerar doenças crônicas e duas que podem gerar riscos. O mais crítico foi a concentração de chumbo na água. Vale lembrar que no caso do chumbo não há nível seguro de exposição ao elemento, especialmente para crianças. Além do chumbo, foram encontrados ácidos haloacéticos total e trihalometanos total.

Em São Roque foram localizadas concentrações dos agrotóxicos aldrin + dieldrin. Eles são proibidos para uso tanto no Brasil quanto na União Europeia. Ambos são poluentes orgânicos persistentes (POPs), substâncias que não se degradam facilmente e que se acumulam em tecidos dos organismos vivos. Ácidos haloacéticos total e trihalometanos total também foram localizados na água da cidade.

Em Alumínio, o problema maior está na concentração de arsênio na água da cidade distribuída no período analisado. A exposição prolongada ao arsênio por ingestão de água está relacionada com aumento do risco para câncer de pele, pulmão, bexiga e rins, bem como outros problemas na pele e tecidos. Ácidos haloacéticos total também foram encontrados na cidade.

Na RMS

Níveis preocupantes, mas de elementos menos perigosos, foram encontrados nas águas das cidade de Araçariguama, Boituva, Cerquilho, Itapetininga, Piedade, Porto Feliz, Salto de Pirapora, São Miguel Arcanjo, Sarapuí, Tatuí e Votorantim.

Não houve problemas nas coletas de água feita nas cidades de Araçoiaba da Serra, Capela do Alto, Cesário Lange, Iperó, Jumirim, Mairinque, Pilar do Sul, Sorocaba, Tapiraí e Tietê.

Citados

Sobre as cidades de Alumínio, Araçariguama, Boituva, Ibiúna, Itapetininga, Piedade, Salto de Pirapora, São Miguel Arcanjo, São Roque, Sarapuí e Tatuí, cuja responsabilidade é da Sabesp, a empresa pública afirmou que a água fornecida pela companhia não é imprópria e cumpre a legislação para potabilidade. “Visando garantir sua qualidade, a Companhia monitora continuamente, conforme exigências do ministério, todas as etapas do sistema de abastecimento, desde o manancial, onde é feita a captação da água, as estações de tratamento, as redes de distribuição até o cavalete na entrada do imóvel dos clientes”, argumenta.

A instituição afirmou ainda que os dados são enviados ao Siságua, sistema de informação do Ministério da Saúde, e que são públicos, conforme mostra o acesso realizado pela ONG. “Sempre que anomalias são constatadas, são tomadas as providências necessárias, visando a regularização da situação. Conforme a legislação, o padrão de potabilidade deve ser avaliado levando-se em conta seu histórico completo. Os dados apresentados no Mapa da Água mostram resultados pontuais, sem considerar o histórico de medições exigido pela legislação brasileira. Essas medições apontam conformidade com os padrões de potabilidade e garantem a qualidade da água fornecida”, termina.

O Serviço Autonônomo de Água e Esgoto de Cerquilho (Saaec) disse não concordar com os dados e explica. “Não concordamos com a interpretação dos resultados pela ONG Repórter Brasil, até porque nunca fomos notificados pelos órgãos que nos fiscalizam, como a Agência Reguladora ARES-PCJ, Visa e Siságua, que estamos com os parâmetros fora das normas”, comenta.

A Companhia Ituana de Saneamento (CIS) se manifestou por meio de nota. “A água que sai das estações de tratamento da CIS e chega até os imóveis ituanos precisa seguir um padrão de potabilidade estabelecido (...). Os resultados dos principais parâmetros: cor, turbidez, cloro, flúor, coliformes totais e termotolerantes são divulgados na conta de água e são fiscalizados por uma agência reguladora independente. Se o munícipe notar alguma variação no aspecto da água, com alteração de cor e cheiro, o mesmo deve comunicar os canais de atendimento da CIS de forma imediata.”

A Águas de Votorantim informou que o parâmetro de trihalometanos totais está dentro do limite estabelecido por lei. “Foram verificados os períodos de 2018, 2019, 2020 e 2021. Todos os relatórios de análise e dados lançados no Sisagua foram iguais ou menores que 0,1 mg/L, respeitando o valor máximo permitido de 0,1 mg/L”, comenta.

A concessionária reiterou que as análises desse composto foram realizadas por laboratórios acreditados com equipamentos de alta sensibilidade. “Em coleta realizada na data de 2 de dezembro de 2020, o Sistema ETA Novo Mundo apresentou um resultado de concentração e trihalometanos totais, igual a 0,1503mg/L. O resultado não viola o valor máximo permitido, levando em consideração o desvio padrão da análise e que a legislação vigente determina apenas uma casa decimal”, garante.

A água fornecida pela concessionária atende a todas as características físicas, químicas, biológicas e radioativas, sem a ocorrência de quaisquer efeitos adversos à saúde de toda população do município de Votorantim/SP.

A reportagem não teve respostas dos questionamentos enviados às cidades de Porto Feliz e Salto. Importante frisar que o estudo não aponta a quantidade exata das substância distribuídas e nem o período que ocorreu a situação dentro dos dois anos analisados.