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Mulheres de Sorocaba querem contribuir para mudar o mundo

08 de Março de 2019 às 07:32

Em suas comunidades, escolas ou em redes formadas pela internet, as mulheres provocam um impacto transformador na sociedade. Engajadas, ativistas, idealistas e batalhadoras: no Dia Internacional da Mulher, o jornal Cruzeiro do Sul destaca o trabalho desenvolvido por mulheres de Sorocaba que querem contribuir para mudar o mundo. Amparo às pessoas com deficiência e seus cuidadores, alimentação saudável e acessível, oportunidades para micro e pequenos empreendedores, o combate à violência contra a mulher e a defesa dos animais são ideais que as movem.

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Melhorar o mundo aos poucos

Oferecer oportunidade de crédito para pequenos e microempreendedores criarem ou ampliarem seus negócios é a missão do Banco Pérola, associação de crédito sorocabana criada por Alessandra França, de 33 anos. Na região já aconteceram mais de 3 mil operações, que somam R$ 11 milhões. Em 2019 o banco selecionará 200 empresas para participarem dos programas de educação financeira e concessão de crédito. “Eu acredito que a gente possa melhorar sim o mundo, um pouquinho e de cada vez, da nossa forma, e inspirando outras pessoas”, afirma.

Porque elas são mulheres! Alessandra sabe que, com pouco, muito se pode fazer - Foto: Emidio Marques

O banco capta recursos junto a investidores e oferece crédito para pequenos e micro empreendedores - além disso, desenvolve programas de educação financeira. Os critérios de acesso ao crédito vão além do nome “limpo”, valorizado o comprometimento do empreendedor. “A gente atende pessoas que não seriam atendidas (em instituições de crédito convencionais) ou com o volume de crédito que a gente concede ou da forma que a gente faz”, explica.

Aos 15 anos, Alessandra estudava no Projeto Pérola, voltado à inclusão digital e cidadania; depois, passou a trabalhar no próprio projeto. Em 2008 se inscreveu em um processo seletivo da ong Artemísia voltado a empreendedores, quando surgiu a ideia do banco. Também serviram de inspiração os próprios pais, pequenos empreendedores, e o vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 2006, Muhammad Yunus, incentivador da concessão de microcrédito na Índia.

Em quase uma década de banco, percebeu a resiliência e a força de trabalho das mulheres empreendedoras e das do próprio Peróla. Mas alerta que nem sempre as mulheres reconhecem o próprio trabalho. “Falta um olhar mais de autorreconhecimento para esse valor”, diz.

Quem cuida do cuidador?

“Quem cuida de quem está cuidando?”, questiona Gabriela Pereira, 31 anos. Mãe do pequeno Benyamin Luiz, ela criou um grupo para dividir conhecimentos sobre direitos das pessoas com deficiência e, também, promover o resgate da autoestima dos que cuidam delas, em especial as mães. Atualmente são aproximadamente 130 famílias atendidas pelo projeto, denominado Ampara (facebook.com/amparain), que desenvolve com o marido, Moisés Pereira.

Porque elas são mulheres! Gabriela ajuda outras cuidadoras - aprendeu na pele a dureza de cuidar de um filho deficiente - Foto: Arquivo Pessoal

Gabriela recorda que, após o nascimento do filho em 2015 -- que tem cardiopatia, Síndrome de Down e surdez -- precisou deixar de trabalhar para cuidar dele. Além disso, travou uma batalha para conseguir uma cirurgia cardíaca para o filho. Todo o processo a levou a se esquecer de si mesma. Nos órgãos públicos e consultórios médicos, era chamada apenas de a “mãe do Ben”. “A gente acaba esquecendo que tem nome, que tem individualidade”, diz. Além disso, sofria com as cobranças. “As pessoas lá fora colocam na gente esse peso. Como se não pudessemos ficar cansadas ou reclamar”, afirma.

Um blog, as redes sociais e o WhatsApp foram as ferramentas usadas para conversar com outros cuidadores, papel que, na maioria das vezes, fica com as mães. A ideia é que voltem a se ver como mulheres e que se cuidem para que possam amparar os filhos. Gabriela também dissemina informações sobre direitos da pessoa com deficiência. Porém, ela não “resolve” os problemas pontuais enfrentados pelas mães. A ativista pretende capacitar e empoderar essas mulheres para que consigam lutar por seus direitos sempre. “Hoje posso dizer que elas são empoderadas e conseguem se impor”, diz. Atualmente, Gabriela realiza palestras sobre a importância do amparo às famílias, participa do Conselho Municipal da Mulher e estuda Libras. Incansável, ainda sonha em estudar Direito e se especializar na causa das pessoas com deficiência.

Porque elas são mulheres! Jussara, na Câmara, falando contra a volta dos rodeios - Foto: Fábio Rogério (15/2/2019)

‘Ver a mudança é gratificante’

Há mais de uma década o bem estar dos animais se tornou a causa da advogada Jussara Fernandes, 41 anos. Ela comanda a ong Grupo de Amparo ao Melhor Amigo do Homem (GAMAH) desde 2007 -- que já auxiliou na intermediação de mais de 3 mil adoções de animais -- e é também a atual presidente da Comissão de Proteção Animal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Sorocaba. “Acho que algumas causas já nascem com a gente”.

O exemplo começou com a mãe, que já resgatava animais. Em 2006, após o resgate de uma pitbull vítima de maus tratos, decidiu se juntar a outros protetores e organizar o trabalho, com resgates, lares temporários e adoções. “Um resgate que a gente faça já muda a realidade daquele animal”, afirma. A ong também promove ações preventivas baseadas na educação para a guarda responsável e no controle da natalidade por meio da castração.

Jussara já perdeu as contas dos resgates que fez, para só depois avaliar os riscos corridos ao entrar em locais denúnciados ou ao assumir gastos veterinários. Apesar das dificuldades, fala com entusiasmo do ativismo. “Ver a mudança no mundo é algo muito gratificante”, afirma.

Para a proteção das meninas

Porque elas são mulheres! Estéfany usa sua experiência pessoal para ajudar outras garotas - Foto: Diego Santiago

Um relacionamento abusivo motivou a então adolescente Estéfany Saez -- hoje com 18 anos -- a se engajar no combate à violência contra a mulher em Sorocaba. Seu objetivo é alertar as meninas para que identifiquem um relacionamento abusivo, e contribuir para que os meninos não reproduzam comportamentos violentos. “Percebi que muitas mulheres não sabiam como começavam os relacionamentos abusivos e suas características”, afirma.

Aos 16 anos, a adolescente vivia um namoro conturbado. “Ele fiscalizava as roupas que eu ia usar, para onde eu ia sair... Com o tempo isso só aumentou, recorda. Foi a sua mãe quem a ajudou a reconhecer o problema e romper. A experiência inspirou o poema “A marca na rosa”, e a produção de uma exposição com imagens de garotas vítimas de violência sobrepostas aos versos do poema. Estéfany, num projeto conjunto com a Prefeitura, leva a exposição para vários espaços e promove nas escolas a discussões sobre esses relacionamentos.

A iniciativa é dirigida a alunos do ensino médio de escolas estaduais e 9º anos das escolas municipais. Envolve a capacitação de professores para trabalhar o tema em sala, rodas de conversa e informações sobre os serviços de proteção à mulher, além da exposição. O projeto é desenvolvido pela Coordenadoria da Mulher, que tem como responsável Ana Cristina Miragaia. “Esse projeto é de combate à causa e não à consequência”, explica Estéfany.

Saúde no prato de todos

Porque elas são mulheres! Para Samanta, “o veganismo tem que ser para todo mundo” - Foto: Divulgação

Pratos simples, ingredientes de fácil acesso e baratos, além de muita informação, são as armas da culinarista e publicitária Samanta Luz para promover uma alimentação saudável. Por meio de oficinas e em suas redes sociais, a jovem de 28 anos fala de assuntos como nutrição, veganismo e o uso integral dos alimentos. Com mais de 30 mil seguidores no Instagram (@samantaluz), ela promove “desafios” em que instiga as pessoas a adotar por sete dias uma alimentação vegana, sem ingredientes de origem animal. Mais de 900 pessoas já se cadastraram e muitas fizeram mudanças permanentes. Os participantes recebem e-mails com receitas e ingredientes baratos, além de material elaborado por nutricionista e terapeuta.

A alimentação saudável e o veganismo são, por vezes, associados a alimentos exóticos e caros - e Samanta percebeu que os espaços e eventos veganos eram majoritariamente elitistas e brancos. “A maioria da população não é a elite e o veganismo tem que ser para todo mundo. A alimentação saudável em si teria que ser para todos”, diz. Um refogado de casca de melancia ou de banana são exemplos de receitas econômicas e nutritivas ensinadas. “Tento mostrar que o veganismo pode ser acessível, sim”. Seu trabalho, focado no combate à exploração animal e à defesa da alimentação saudável, também aborda questões ligadas à população negra.