Sorocaba e Região

Mais de 85 mil esperam consultas e exames na rede municipal de saúde

Atendimento pode levar até 3 anos na rede municipal de Saúde e há casos de pessoas que faleceram
Mais de 85 mil esperam consultas e exames
Policlínica concentra maioria das consultas com médicos de especialidades e exames. Crédito da foto: Erick Pinheiro

O total da demanda reprimida de pacientes no mês de abril passado em Sorocaba foi de 85.417, sendo 39.779 pessoas para consultas e 45.638 para exames. O número revela o total de pessoas que foram em busca de atendimento, mas acabaram não atendidos por falta de vagas nas unidades de saúde do município.

A Secretaria da Saúde (SES) da Prefeitura foi questionada sobre quanto tempo leva para marcar um exame na Policlínica e a resposta é que “as demandas variam de acordo com a especialidade, havendo mais procura por umas do que outras e também há outros prestadores para exames”.

Já sobre o tempo que demora para marcar uma consulta com médico especialista na Policlínica, a pasta disse que “as demandas variam de acordo com a especialidade havendo maior procura por umas do que outras”. “Também existem diferenças em quantidades de profissionais de cada especialidade, por exemplo, para endócrino infantil o agendamento é realizado dentro do mesmo mês. Já para a especialidade de ortopedia, a espera pode chegar até 11 meses”, alega a SES.

Segundo a SES, na Policlínica são realizadas consultas de primeira vez e retorno, e o quadro atual da unidade é composto por 37 tipos de especialidades diferentes. E em relação aos exames que são feitos no local, a SES informa que são ultrassom, endoscopia, eletrocardiograma, espirometria, estudo urodinâmico, biópsia de mama, biópsia de tireoide, INR (tempo de protrombina), mapeamento de retina, fundoscopia e raio-X odontológico.

Espera de até 3 anos

Pacientes relatam que a espera por um exame de ultrassonografia ou colonoscopia na rede municipal de saúde pode chegar a até três anos. A demora é tanta que quando a unidade de saúde entra em contato para avisar a data e horário do agendamento dos exames, em alguns casos, eles não são mais necessários porque os pacientes já morreram.

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Ou ainda, cansados de esperar, eles são obrigados a pagar do próprio bolso pelos exames na rede privada. O Cruzeiro do Sul ouviu o relato e o drama de familiares de dois pacientes de Sorocaba que foram contatados pela rede municipal de saúde tarde demais.

Em um dos casos, o episódio ocorreu no início do mês, quando a filha de uma paciente de 53 anos diagnosticada com doença de Crohn (doença inflamatória do trato gastrointestinal) recebeu uma ligação para confirmar para a segunda-feira (20), às 8h, o agendamento de uma ultrassonografia e uma colonoscopia para a mãe dela na Policlínica Municipal. O contato telefônico surpreendeu a família, que informou que a paciente tinha falecido havia quase três anos, ou seja, em setembro de 2016. Os familiares disseram ainda que o pedido dos exames foi feito na rede municipal de saúde em janeiro de 2016.

Os familiares dos pacientes ouvidos pela reportagem não quiseram divulgar seus nomes. Questionada, a Secretaria de Saúde disse que o motivo para a demora nos agendamentos ocorre “devido à alta demanda e à falta de especialistas em determinadas áreas”. A pasta afirmou ainda que os casos citados na reportagem não são frequentes, “mas pode acontecer se a família não comunicar à Unidade Básica de Saúde (UBS) sobre o falecimento para que se possa dar baixa no sistema”, diz.

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O segundo caso semelhante ocorreu quando um senhor de 75 anos diagnosticado com problemas cardíacos morreu em 2016 e dois anos depois a família recebeu a ligação da unidade de saúde para confirmar o agendamento da consulta com um cardiologista. O paciente morreu de infarto em janeiro de 2016, porém a consulta que ele necessitava naquela época foi marcada cerca de dois anos depois.

Os familiares contaram ao Cruzeiro do Sul que por conta da demora no agendamento o paciente pagou uma consulta particular. A família conta ainda que o paciente não tinha plano de saúde e que fazia o tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e já tinha feito uma cirurgia de válvula cardíaca em 2008.

A SES destaca que trabalha para otimizar as agendas e está empenhada na redução do absenteísmo para que os atendimentos sejam os mais ágeis possíveis.

Paciente foi se tratar em outra cidade

A família da senhora de 53 anos diagnosticada com doença de Crohn conta que a paciente antes de morrer buscou tratamento em outra cidade, já que em Sorocaba, onde ela morava, não conseguiu a internação hospitalar que necessitava.

Segundo a família, a paciente foi obrigada a morar em Limeira na casa de parentes, pois naquela cidade conseguiu realizar o tratamento pelo SUS, sendo internada em hospital daquele município. “Toda vez que a minha mãe piorava a gente a levava à UPH da zona norte, onde ela chegava a ficar de 10 a 18 horas sentada em uma cadeira aguardando ser transferida para a Santa Casa, mas nunca tinha vaga para internação”, diz.

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A família afirma ainda que algumas vezes a mãe dela estava na UPH aguardando transferência para um hospital, chegava uma kombi à unidade, onde vários pacientes eram colocados no veículos e levados para a Santa Casa, mas como também não tinha vaga de internação para todo mundo, os parentes levavam a senhora para casa.

“Era um caos no hospital, não tinha vaga e faltava de tudo, até álcool para assepsia da pele. Então, eu levava minha mãe embora para a casa, pois não tinha condições de deixar ela lá”, diz a filha. Na ocasião, a Santa Casa de Sorocaba era administrada pela Prefeitura de Sorocaba.

A filha disse ainda que sem conseguir fazer os exames e a internação da mãe na cidade, a família decidiu levá-la para Limeira, na casa de uma tia, onde o tratamento foi realizado pelo SUS. “No início de maio de 2016 minha mãe já estava sendo tratada lá em Limeira e ela faleceu quatro meses depois. Daí quase três anos após a morte dela eu recebi uma ligação para confirmar da data dos exames dela na Policlínica em Sorocaba. É revoltante, pois fez a gente lembrar de todo o sofrimento vivido”, aponta. (Ana Cláudia Martins)

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