Sorocaba e Região

Ex-interno retorna à Fundação Casa para cortar cabelo de jovens

Vinicius Zampol ficou internado na Fundação Casa de Sorocaba quando foi apreendido por assalto a mão armada
Vinicius Zampol
Vinicius foi interno da Fundação Casa e hoje volta para cortar o cabelo dos jovens. Crédito da Foto: Fábio Rogério/Jornal Cruzeiro do Sul (4/1/2019)

Atrás de muitos portões e grades existe uma semente de esperança sendo semeada nos internos da Fundação Casa de Sorocaba. Todas as segundas-feiras os jovens infratores do Centro Socioeducativo 4 recebem corte de cabelo por um profissional que conhece bem as imediações da instituição.

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Vinicius Zampol, de 21 anos, é um egresso do local e, seis anos após ser apreendido pelo ato infracional de assalto a mão armada, voltou à fundação para mostrar aos atuais internos que suas histórias, assim como a dele, podem ser traçadas de maneira diferente. “Tudo começou com as drogas, até que eu recebi o convite para fazer o assalto”, contou.

Ele e outros dois adolescentes cometeram o ato infracional em 2012, quando Vinicius tinha 14 anos. Detido pela Polícia, ele foi encaminhado à Fundação Casa por uma ordem judicial, onde ficou internado por cerca de um mês.

Fundação Casa
Corte de cabelo é feito por um ex interno que leva sua história aos adolescentes. Crédito da foto: Fábio Rogério/Jornal Cruzeiro do Sul.

A internação provisória é a “porta de entrada” dos jovens infratores, onde é feito o atendimento inicial para os menores de idade apreendidos. Na unidade de Sorocaba, em todos os centros, estão em atendimento 235 adolescentes, a maioria com idades entre 16 a 18 anos, conforme a Secretaria da Justiça e Cidadania. “Nunca pensei que isso fosse acontecer na minha vida, e estava sendo obrigado a ficar igual a todos eles [internos]”, disse Vinicius.

Ao entrar na fundação, Vinicius precisou abrir mão dos cabelos compridos para receber o corte padrão entre os internos: cabeça raspada, momento marcante para o então adolescente. Durante o internato, ele recebeu apoio de uma igreja evangélica que atua dentro da casa, em busca de promover uma nova realidade a esses adolescentes.

Quando cumpriu a medida e saiu da fundação, o jovem percebeu que o mundo poderia ser mais colorido do que as paredes do ambiente de ressocialização. Começou a trabalhar na Guarda Mirim, voltou a estudar e prestava serviço comunitário. “A mudança veio quando eu fiquei desempregado, aí tive a ideia de cortar cabelo. Foi mais no desespero”, explicou o cabeleireiro.

Corte de cabelo é feito as segundas-feiras na Fundação Casa. Crédito da foto: Fábio Rogério/Jornal Cruzeiro do Sul.

Mesmo sem ter feito qualquer curso na área, ele resolveu arriscar. Foi convidado por um sócio para trabalhar cortando cabelos e ganhou experiência no ramo durante dois anos, até perceber que era o momento de se arriscar sozinho.

Há cerca de quatro meses, ele abriu o próprio salão no bairro Vila Helena, o “Barbelo”. Lá, recebeu como cliente um devoto da igreja que antes o havia ajudado dentro da fundação. O pastor fez o convite para começar o trabalho de corte de cabelo na Fundação Casa. “Sempre quis fazer esse trabalho aqui dentro, porém eu não tinha coragem. Tinha medo de voltar lá para dentro”, desabafou.

O trabalho como voluntário é feito há três meses. Vinicius faz visitas quinzenais à fundação para levar sua história aos internos e um corte de cabelo que transmita esperança. “Se tive a chance de mudar eles também têm. Se um deles me escutar, se eu ajudar uma pessoa, para mim já basta, é o suficiente”, comentou o jovem.

Processo de ressocialização

Jovens infratores passam por processo socioeducativo na Fundação Casa. Crédito da foto: Fábio Rogério/Jornal Cruzeiro do Sul.

De acordo com a Secretaria de Cidadania e Justiça, os jovens infratores podem ficar internados por até três anos, conforme a avaliação do judiciário, que determina o tempo de internação dos adolescentes. Eles são recebidos no centro socioeducativo, onde passam pela internação provisória de 45 dias. Após a decisão judicial, eles permanecem ou não reclusos, de acordo com a gravidade do ato infracional.

Caso a internação seja definitiva, ele receberá o Plano Individual de Atendimento, que encontra as necessidades do adolescente e da família dele nas áreas social, de saúde e pedagógica.
A rotina dos internas começa às 6h e termina às 22h. Ela inclui atividades de escolarização, esporte, cultura, educação profissional.

A secretaria afirma que eles podem participar do Exame Nacional do Ensino Médio para Pessoas Privadas de Liberdade (Enem PPL), o Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja Nacional) e a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep). (Aline Albuquerque)

 

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