Sorocaba e Região

Em Piedade, um recorde de resgate de cães

Cerca de 1.500 animais vítimas de maus-tratos são transferidos de canil irregular que foi interditado
Em Piedade, um recorde de resgate de cães
Animais vítimas de maus-tratos são transferidos de canil irregular que foi interditado. Crédito da foto: Emidio Marques

Cães sujos, com patas quebradas e cegos. Ração mal armazenada, água esverdeada e gaiolas. Centenas de cadelas prenhas e muitos filhotes. Quem passa pela rua de terra João Batista da Rosa, na zona rural de Piedade, não imagina como eram tratados aproximadamente 1.500 cães, de várias raças, no agora interditado canil Céu Azul. Após denúncias, a Polícia Ambiental fechou o local e o Instituto Luisa Mell conseguiu na Justiça uma autorização para resgatar os animais e levá-los a abrigos nas cidades de Mairiporã e Ribeirão Pires.

 

Esse resgate, segundo Marina Passereli, veterinária do Instituto Luisa Mell, é o maior da história mundial. “Até hoje o maior já registrado foi nos Estados Unidos, quando 947 animais foram salvos. Infelizmente, ou felizmente, nós estamos quebrando esse recorde e levando os cachorrinhos para um lugar seguro”, disse.

A retirada dos cães do canil começou na quinta-feira, priorizando os que estavam mais debilitados. O resgate deve ser concluído na manhã deste sábado. Ontem sete ônibus fretados pelo Instituto de Proteção Animal estacionaram em frente à propriedade e aproximadamente 20 voluntários ajudaram a retirar os cães. Os animais maiores, como da raça chow-chow, foram transportados de carro pelos voluntários.

Telma Casselo, assessora do Instituto Luisa Mell, contou que o resgate não seria finalizado ontem pelo grande número de animais e pela dificuldade no acesso ao canil. “Quando você olha superficialmente parece que a estrutura é ok, mas quando entra em contato com os animais percebe que eles eram negligenciados e estão muito assustados”, disse. Na quinta-feira a ativista Luiza Mell esteve no local.

Em Piedade, um recorde de resgate de cães
Ônibus são alugados na operação de retirada, que segue hoje. Crédito da foto: Emidio Marques

Moradores de Piedade que ficaram sabendo da situação também foram ao canil para ajudar e muitos doaram e emprestaram caixas para transportar os animais em segurança. Gabriela Branco, 23 anos, mora na cidade e estava desde quarta-feira participando de mobilização, principalmente pela internet, para fazer o resgate dos cães. “Estamos trazendo as caixas para ajudar. É muito triste saber o que acontecia aqui. Nunca poderíamos imaginar uma crueldade dessa.”

Segundo Marina, veterinária do Instituto Luisa Mell, responsável pela retirada dos animais do canil, o instituto é atualmente o fiel depositário dos cães resgatados, ou seja, tem a guarda provisória dos animais, até que se tenha uma decisão definitiva da Justiça. “Vamos fazer o laudo médico de todos os cães, mas isso levará um certo tempo por conta da grande quantidade. Os abrigos que vão recebê-los contam com equipes veterinárias completas, que estarão focadas neste atendimento. Depois disso vamos apresentar ao juiz e acreditamos que a decisão será favorável ao instituto.”

Após serem transferidos, Marina diz que todos os animais serão examinados, tratados e castrados. “Não queremos perpetuar essa cultura da procriação. Aqui tem muitas cadelinhas como máquinas de dinheiro.” A veterinária passou o dia retirando os cães das baias e todos os animais eram identificados pela Polícia Ambiental. Uma funcionária do canil também acompanhou a ação e fotografou todos os cães.

Nas baias e gaiolas havia cães de várias raças como buldogue francês, chow-chow, poodle, chiuaua, pinscher, basset, shih-tzu, spitz alemão, beagle e pug. A veterinária do instituto contou que somente após o levantamento do estado dos cães é que o caso será levado ao âmbito da Polícia Civil. Para cada animal vítima de maus-tratos, a multa pela Polícia Ambiental é de R$ 3 mil.

Negligência

O canil fica em uma grande propriedade na zona rural e funciona há 25 anos. Segundo a Polícia Ambiental, a demora em constatar a situação geral do canil ocorreu pela necessidade de se ter laudos individuais dos animais. Outros aspectos também estão sendo apurados, como o impacto ambiental por conta do escoamento de esgoto.

Em Piedade, um recorde de resgate de cães
Cães eram maltratados no canil em Piedade. Crédito da foto: Emidio Marques

A Vigilância Sanitária de Piedade também acompanha o trabalho no local. O canil foi interditado por conta de irregularidades constatadas como instalações inadequadas com falta de higiene e organização, tamanho das baias improvisadas, medicamentos vencidos, não ter um veterinário responsável no local, dejetos escoados diretamente no solo e incineração em forno irregular. A Diretoria de Tributos e Arrecadação do município também informou que o canil não tem alvará de funcionamento, não recolhe impostos e nem tem inscrição municipal.

‘A gente sente cheiro de pelo queimado’

Dentro do canil há uma grande incineradora e segundo um ex-funcionário do local, que estava presente no momento do resgate dos animais, muitos cães idosos, quando ficavam doentes, não eram tratados e morriam. “Eles queimavam todos os cachorros e eu vi, muitas vezes, filhotinho sendo jogado também no lixo comum”, conta o rapaz. Ele pediu para ter o nome preservado por medo de retaliação.

O rapaz também relata que os cães que aguardavam para serem vendidos ficavam armazenados em gaiolas, sem nenhuma proteção como tapete ou cobertor. “Alguns ficavam mais de cinco meses nessas condições. Esteticamente estavam bonitos, pois como estavam à venda sempre tinha tosa e banho, mas as patinhas ficavam machucadas por conta das grades”, relata. Segundo ele, não havia veterinários no local, somente uma estudante de veterinária que é parente dos proprietários.

Uma vizinha do canil relata que o local funciona há muitos anos e que é comum, aos finais de semana, muitas visitas na propriedade. “Vem gente de várias cidades comprar cachorro aqui. A gente só vê esses carros de alto padrão, com placas de São Paulo, Belo Horizonte.” Ela pediu sigilo no nome por conhecer a proprietária. No mercado, cães de raça custam entre R$ 1.500 e R$ 8 mil. A mulher conta que é frequente o cheiro ruim, de fogo, fortalecendo a denúncia de que os corpos dos cães eram queimados. “A gente sempre sente o cheiro de pelo queimado”, relata.

Em Piedade, um recorde de resgate de cães
Muitas cadelas estavam prenhas e essa era a função delas. Crédito da foto: Emidio Marques

A vizinha do canil se mostrou indignada com a situação dos animais resgatados e contou que nunca suspeitou de maus-tratos. “Os donos foram muito errados em fazer isso, mas quem compra um cão nessa situação também é culpado, pois está compactuando com esse mercado”, critica. Na propriedade há centenas de baias. Algumas mais novas, com azulejos. Em outros locais da propriedade a situação é mais precária, como a chamada maternidade. Em alguns cômodos não há revestimento.

Doação

Desde que a denúncia sobre o canil irregular veio à tona, na terça-feira, muitas pessoas foram até o local para tentar adotar os cães. A Prefeitura de Piedade divulgou uma nota, na manhã de ontem, ressaltando que os animais estão sendo destinados pela Polícia Militar Ambiental ao Instituto Luisa Mell, portanto, não estão disponíveis para adoção. A intenção da nota era desmentir boatos que circulavam na internet e em grupos do WhatsApp de que os cães estariam sendo doados na frente do próprio canil.

Amigo de donos diz não haver maus-tratos

Durante a ação de resgate, Luciano Rodrigues se apresentou como amigo dos proprietários do Canil Céu Azul e afirmou que todos “estão muito abalados com as denúncias”. Segundo ele, que autorizou a entrada da equipe de reportagem no canil, os proprietários tinham conhecimento de algumas irregularidades, como falta de licença do incinerador, da fossa e também de inscrição municipal, porém a família nega os maus-tratos.

Segundo Rodrigues, o incinerador existia no local e era, de fato, utilizado para queimar os corpos dos cães que morriam na propriedade. “Essa é a forma adequada. Não pode enterrar os cães”, alega. Segundo ele, a família reconhece que deveria ter um veterinário na propriedade, mas sempre que um animal precisava de atendimento, era levado para uma clínica em Piedade. “Eles trabalham há 25 anos com esses animais. Há 25 anos as regras eram diferentes e eles estavam se adequando”, afirma.

O amigo da família nega os maus-tratos e afirma que os animais vistos em gaiolas ficavam no espaço por já estarem preparados para a comercialização e por isso não eram misturados aos demais. Ele conta que do total de aproximadamente 1.500 animais, cerca de 700 poderiam ser vendidos. “A maior parte é de cães e cadelas que já não estão em atividade reprodutora, mas os donos se apegam e não doam. Eles ficam com todos. Há animais de mais de 20 anos.” Ele conta que as cadelas são colocadas para cruzar por quatro vezes e depois disso não ficam mais prenhas e “se aposentam”.

A família já conta com um advogado, que deve acionar a Justiça para reaver os cães. “É uma estrutura antiga, mas é limpa. Os animais são bem cuidados, mas alguns, pela idade, já estão debilitados”, disse Rodrigues. Diz ainda que todos são chipados. (Larissa Pessoa)

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