Sorocaba e Região

Educação para jovens e adultos cresce pouco na região de Sorocaba

Quatro cidades da Região Metropolitana não tinham, até ano passado, salas de EJA
Através da EJA as pessoas voltam a ter perspectiva profissional e podem ter acesso ao ensino superior. Crédito da foto: Luiz Setti (22/03/2016)

O crescimento da Educação de Jovens e Adultos na Região Metropolitana de Sorocaba cresceu 3% de 2017 para 2018. Índice baixo, que pode ser atribuído às dificuldades impostas pela crise econômica pela qual passa o país. Eram 12.661 pessoas matriculadas no ano passado em 23 das cidades da Região – quatro delas não tinham a modalidade e apenas uma destas, Araçoiaba da Serra, passou a oferecer neste ano.

Esta é a quarta e última reportagem desta série, que já olhou para os números da Educação Especial, da Integral e da Rural, trazendo uma mapa das características e dificuldades das escolas e alunos da área metropolitana de Sorocaba.

Jovens e adultos na escola, de novo

Motivos diversos fazem com que os estudos sejam interrompidos, e é para permitir a conquista de um diploma, para melhorar de vida ou, simplesmente, para saber ler e escrever, que existe na rede pública a Educação de Jovens e Adultos (EJA). Na Região Metropolitana de Sorocaba (RMS), em 2018, 12.661 pessoas estavam matriculadas nesta etapa, que é compartilhada entre município e Estado. Entre 2017 e 2018 houve um aumento pequeno no número de matriculados na EJA na RMS. Segundo dados do Censo Escolar, apenas 3%.

O mestre em educação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Cláudio Chagas Fontes, destaca que a ampliação da EJA é necessária, principalmente em municípios de grande área rural. Segundo o professor, através da EJA as pessoas voltam a ter perspectiva profissional e podem ter acesso ao ensino superior. “É um engano pensar que essa etapa só beneficia pessoas de mais idade. Há muitos adolescentes que acabam abandonando os estudos, principalmente as meninas, diante de uma gravidez precoce, por exemplo. Se não houver um estímulo para que ela volta para a sala de aula, será mais uma pessoa que dificilmente conseguirá trilhar uma carreira”, afirma.

Nos 23 municípios que ofereciam EJA no ano passado, 3.860 alunos estavam matriculados em unidades municipais e 8.801 em escolas do Estado. Quatro cidades da RMS não tinham, até ano passado, salas de EJA. Uma delas, Araçoiaba da Serra, deu início neste ano a formação para quem busca concluir o ensino fundamental e médio. Já Alambari, Cesário Lange e Tapiraí continuam sem oferecer essa modalidade. Os outros municípios foram questionados, mas não enviaram resposta até o fechamento desta edição. Já a Secretaria de Educação do Estado informou que as salas de EJA são abertas conforme a demanda e que, para atender os alunos, mesmo que sejam poucos, é possível formar salas multisseriadas, ou seja, ensinar o conteúdo de várias séries do ensino fundamental e médio na mesma sala.

Ainda segundo a pasta, não há um número mínimo e o máximo é de 45 alunos, com variação de até 10%, se necessário, ou seja, até 49 pessoas na mesma turma. Os interessados devem procurar qualquer escola pública para ser orientado. Segundo a Secretaria, caso o aluno procure uma unidade e seja informado de que não há turma, ele deve fazer uma solicitação para a direção da escola e esta deve comunicar a secretaria. Em todo o Estado, segundo a pasta, há 114.778 pessoas matriculadas na EJA frequentando unidades estaduais.

Oportunidade

Desde 1º de fevereiro foram abertas inscrições para EJA em Araçoiaba da Serra, e os interessados ainda podem fazer a matrícula. Segundo a Prefeitura, os interessados em matrícula para o ensino fundamental do 1º ao 5º ano devem comparecer ao prédio da Secretaria de Educação levando os documentos originais e cópias do RG e CPF. As aulas serão na própria cidade.

Já para os que desejam ingressar na EJA em ensino fundamental do 6º ao 9° ano, e ensino médio, os documentos necessários são: 3 fotos 3×4, cópia do RG e CPF, cópia da Certidão de Nascimento ou Casamento; original e cópia do histórico escolar da última série concluída. As aulas EJA do 6º ao 9º e médio serão ministradas em Votorantim e a Prefeitura de Araçoiaba da Serra disponibilizará um ônibus para transporte. Informações mais detalhadas podem ser obtidas pelo telefone 3281-1201.

“Estou indo por mim. Por um sonho”

Jovens e adultos na escola, de novo
Elza Caetano, emoção e orgulho na volta à escola. Crédito da foto: Arquivo Pessoal

Depois de mais de 50 anos fora da sala de aula, a costureira Elza Caetano, 62, decidiu, em 2018, que era o momento de resolver uma situação que lhe causava constrangimento. Ela queria deixar de ser classificada como analfabeta funcional em documentos que assinava. “Quando precisava fazer qualquer coisa que me perguntavam a escolaridade e eu falava que frequentei até a 4ª série percebia que mudava o tratamento imediatamente e ficava muito aborrecida”, conta. Moradora de Cerquilho, ela frequentou a escola até os 12 anos. Tentou retomar aos 18, mas logo se casou e teve filhos, colocando o sonho do diploma muito distante do topo da lista de prioridades.

O casamento de Elza acabou em pouco tempo e, sozinha, criou os dois filhos, hoje são seus maiores apoiadores. “Eu precisei adiar meu sonho e não culpo ninguém por isso. Comecei a trabalhar na roça com sete anos e era assim que meus pais achavam que era correto. Foi assim com eles também.” Por insistência da mãe, fez um curso de corte e costura e foi com essa profissão que manteve a família. “Peguei muito no pé dos meus filhos para que estudassem e aproveitassem todas as oportunidades”, relembra. A filha de Elza é jornalista e o filho operador de máquinas.

Em Cerquilho, a cada semestre ela faz atividades referentes a dois anos do ensino regular. Segundo o Censo Escolar 2018, o município tem 239 matriculados nesta etapa. “No ano passado fiz a quarta e a quinta série e quero continuar pelo menos até completar o fundamental.” Ela não descarta ir ainda mais longe, mas com a experiência de seus 62 anos, prefere não criar expectativa e afirma que vai “até onde Deus permitir”. A matemática sempre causou receio na costureira, mas foi justamente nessa disciplina que Elza foi destaque na sala e ganhou a Olimpíada de Matemática feita entre os alunos. “Foi algo que nunca imaginei que conseguiria. Fiquei emocionada e orgulhosa.”

A angustia do primeiro dia cedeu frente à recepção dos professores – o caminho, embora difícil, seria agradável. “A gente sente que não tem mais aquela facilidade de quando é criança. A cabeça já fica ocupada por muitas coisas, muitas preocupações, mas eu tenho foco para conquistar o que quero.” Sua turma começou com 28 alunos, mas 12 ou 13 vão mesmo. Na sala ela tem colegas de todas as idade. “Tem meninas de 15 anos e tem o pessoal que está lá para se qualificar e conseguir um emprego melhor. Pra mim é uma questão mais interna. Estou indo por mim. Por um sonho”.

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