Sorocaba e Região

Éden enfrenta rotina de violência e moradores pedem socorro

Moradores e comerciantes se sentem acuados diante da onda da criminalidade que atinge o bairro
Éden enfrenta rotina de violência
População do bairro reclama da onda de assaltos e da falta de policiamento. Crédito da foto: Erick Pinheiro

O Éden, na zona industrial de Sorocaba, é um bairro onde moradores e comerciantes pedem socorro contra a ação de bandidos que atacam vítimas em residências, pontos de ônibus, lojas, padarias, bares e lanchonetes. O tráfico de drogas é apontado como um problema que agrava o clima de insegurança. Grades, alarmes, câmeras, concertinas nos portões e muros não têm sido suficientes para inibir os ladrões.

Moradores mudam comportamentos em busca de proteção, o que inclui evitar o uso de celulares em público. Outros deixaram de circular a pé pelas ruas. E reclamam da falta de policiamento, da demora no atendimento às ocorrências e da falta de estrutura em número de viaturas para cobrir uma área territorial que tem população maior do que muitas cidades paulistas.

Com nome que é sinônimo de paraíso e perfil de um dos lugares mais prósperos de Sorocaba em virtude de sua intensa atividade industrial e comercial, o Éden faz parte de uma região de Sorocaba composta também de bairros como Cajuru, Iporanga I e II, Campininha, Aparecidinha, Brigadeiro Tobias e áreas rurais.

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Toda essa extensão geográfica tem população estimada em 160 mil habitantes. Numa comparação com outras localidades, esse número de habitantes é maior do que o de muitas cidades da Região Metropolitana de Sorocaba (RMS) e outros municípios paulistas.

Maior, por exemplo, do que Votorantim (121.331 habitantes), Tatuí (120.533), Salto (117.561), Avaré (90.063), São Roque (89.943) e Ibiúna (78.262).

O Éden também é um bairro extenso e densamente ocupado por moradias, indústrias, oficinas, estabelecimentos comerciais, escolas, entre outras unidades públicas e particulares que geram movimentação de pessoas e veículos, carga e descarga, serviços bancários e de alimentação, entre outros.

O bairro também é composto por várias vilas, entre elas a Vila Lena, Jardim Jatobá, Copaíba, Turmalina, Alegria, Harmonia, Boa Esperança, Carolina, Regente, Itália, Primavera.

Indignação e medo

Éden enfrenta rotina de violência
Bairro faz parte de uma das regiões mais populosas da cidade, com 160 mil habitantes. Crédito da foto: Erick Pinheiro

No mês passado, a reportagem esteve três vezes no bairro do Éden em contatos com moradores e comerciantes, atendendo ao apelo de ligações feitas ao jornal. A maioria prefere não se identificar por medo de represálias. “Nós só temos a imprensa que ainda nos atende”, disse um morador, o único que autorizou a identificação.

Mas a reportagem optou por preservar a sua identidade por questão de segurança, em sintonia com os pedidos feitos pelos outros entrevistados.

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Comerciantes também pediram para não identificar a localização de seus estabelecimentos. A opção da maioria dos moradores e comerciantes pelo anonimato é um termômetro do medo que se incorporou ao cotidiano das pessoas. Nos contatos, destaca-se a frequência com que pessoas, quando não são vítimas, conhecem quem — entre vizinhos e parentes — foi alvo de roubos e furtos.

“Aqui está perdido”

O caixa de uma padaria, ao começar a trabalhar todos os dias às 13h30, ajoelha-se e pede a proteção divina: “Faço a oração aqui, sozinho, peço proteção a Deus e ao seu Filho amado.” Ele conta que nos últimos dois anos o estabelecimento foi assaltado cinco vezes por bandidos à mão armada.

A família que é proprietária do local tem mais dois pontos comerciais no Éden, igualmente atacados por ladrões.

“O pior é que a gente tem uma impotência, não há como reagir”, lamenta o caixa. “O movimento de vendas caiu muito devido à crise e o desgraçado do ladrão ainda leva o nosso dinheiro.”

Ele incentiva as pessoas a reclamarem, embora insista em ficar anônimo: “Tem que falar (reclamar), pior do que está não pode ficar.”

Dois quarteirões acima da padaria, um comerciante fez investimentos na montagem de um salão para abrigar a venda de espetinhos de terça a sexta-feira, das 18h às 22h, e carne assada aos sábados e domingos, das 8h às 14h.

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A família trabalhava no atendimento aos clientes. Até que dois assaltos no período da noite, nos dias 10 de novembro e 4 de dezembro de 2018 , aterrorizaram a família.

Com medo de novos roubos, o comerciante fecho u a venda de espetinhos e manteve só os assados nos fins de semana. “O Éden está crítico”, disse o pai do comerciante, em entrevista pelos vãos do portão dos fundos do estabelecimento. Por medo, ele preferiu não abrir o portão, mesmo diante do carro da reportagem devidamente identificado.

Relatos de assaltos e abordagem de bandidos são frequentes

Éden enfrenta rotina de violência
Bairro concentra parque industrial e é cortado pela avenida Independência. Crédito da foto: Erick Pinheiro

Um bar do Éden foi atacado por ladrões dois dias seguidos, nos dias 21 e 22 de dezembro de 2018. No primeiro dia, uma sexta-feira, os ladrões apareceram às 6h, mandaram o balconista se deitar no chão, levaram moedas e cigarros.

No dia seguinte, sábado, às 12h20, uma mulher que vende bilhetes de promoções no bar teve a sua bolsa roubada por um ladrão. “Levou o celular, algumas coisas que tinham importância pra mim e R$ 680,00 em dinheiro”, conta a mulher. “Graças a Deus os meus documentos não estavam na bolsa.”

Ao recordar o momento da abordagem, a mulher diz que o bandido falou: “Eu quero a sua bolsa.”. Ela tentou resistir: “Você não vai levar minha bolsa.” E continua: “Aí ele arrancou a arma, puxou a bolsa com tudo e eu fiquei só com a alça no ombro.”

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“É um desamparo total, é um descaso total”, critica o balconista que se deitou no chão na hora do roubo. Há dois anos, a casa onde mora no bairro do Éden também foi alvo de ladrões e registrou boletim de ocorrência na polícia, mas a demora foi complicada: “Fui fazer ocorrência, fiquei quatro horas esperando no plantão. Fazer ocorrência pra quê? Não tem ninguém pra atender aqui (no balcão) enquanto eu estiver fora.” Por isso, quanto aos roubos de 21 e 22 de dezembro, ele não registrou as ocorrências na polícia.

Na rua ao lado do bar, um homem dá um depoimento: “No ano passado (dezembro de 2018) furtaram a casa do meu filho no Jardim Turmalina. Levaram tevê, notebook, algumas joias, dois carros. Era de noite. Pularam o muro, estouraram a porta e fizeram a limpeza.” O filho e a nora não estavam em casa. No retorno, depararam com os prejuízos. “Colocaram cerca elétrica, câmera, alarme”, disse o homem.

Em outra rua, um morador diz: “Tem algum lugar do país que não tenha violência? Eu moro aqui nessa rua há 38 anos e aqui nunca aconteceu nada. Somos todos amigos e as casas são muito vigiadas. Quando meus vizinhos estão viajando, eu faço questão de olhar as casas deles.” Mas, para além da sua rua, reconhece que “a coisa está difícil, a coisa está feia”. E arrisca uma justificativa: “Infelizmente nós temos aí uma juventude que está perdida.”

Furto e prejuízos

Outro morador também conta sua história como vítima. Por ocasião de um furto em sua residência, em novembro de 2018, perdeu uma televisão de 42 polegadas, perfumes, aspirador de pó. Foi à noite registrar a ocorrência no plantão policial em dois dias e não conseguiu por causa da demora: “Não vou atrás mais de fazer ocorrência.”

Esse morador diz que eram dois ladrões, que arrombaram o portão e a porta da casa. Ele mudou-se da residência, que era alugada, e teve que consertar os estragos no portão e na porta de entrada: “Fiquei com o prejuízo de R$ 3 mil dos consertos, fora os objetos levados pelos ladrões.”

Um vendedor de espetinhos comemora o fato de ainda não ter sido vítima de ladrões. E ele explica porquê: “Estou num cruzamento movimentado, aqui é aberto, ladrões gostam de locais fechados para atacar as vítimas.”

“Aqui está feio o negócio”, reclama o dono de uma oficina de autoelétricos. A oficina recebeu a “visita” de ladrões no dia em que o guarda noturno foi receber a mensalidade. E ele reclamou com o guarda: “Roubaram aqui, você nem me avisou.”

A situação alimenta debates constantes sobre segurança em conversas informais. “O problema todo é que não há uma lei rigorosa: prende, solta, principalmente quando são moleques novos, menores de idade”, critica o dono da oficina. E lamenta: “Nós estamos num mundo que está ruim: se ficar o bicho pega, se correr o bicho come.”

Policiamento tem reduzido criminalidade, diz SSP

Éden enfrenta rotina de violência
Base da PM, responsável pelo policiamento do bairro. Crédito da foto: Erick Pinheiro

A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que o bairro do Éden faz parte do Programa Vizinhança Solidária, da Polícia Militar, que atua com foco na prevenção primária, com auxílio dos moradores.

Além disso, acrescenta a nota, a PM acompanha a variação das ocorrências para definir os itinerários das radiopatrulhas e os programas de policiamento complementares para a área, que serão reorientados. Desde 2011 foram adquiridas 708 viaturas para a Polícia Militar da região, um investimento de aproximadamente R$ 35 milhões, acrescenta a nota da Secretaria.

Segundo a Secretaria da Segurança Pública, as ações desenvolvidas pelas polícias Civil e Militar culminaram na queda de 6% dos crimes contra o patrimônio na área do 6º Distrito Policial de Sorocaba responsável pelo bairro, nos 11 meses de 2018, em comparação com o mesmo período de 2017. Dois homens que praticavam roubos na região foram presos.

A Secretaria da Segurança também instrui: “É de extrema importância que as vítimas de crimes registrem o boletim de ocorrência, que pode ser feito também pela Delegacia Eletrônica, pois é por meio dele que os casos são investigados e os autores presos.” (Carlos Araújo)

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