Sorocaba e Região

Desativada há quase 9 anos, área de aterro em Sorocaba continua sem uso

Prefeitura diz que o local recebe manutenção e monitoramento para evitar degradação
Local ainda apresenta deformações e geração de chorume e gases que impossibilitam a sua ocupação. Crédito da foto: Emídio Marques (7/5/2019)

Desativado em setembro de 2010, após 25 anos de uso, o Aterro Sanitário do Retiro São João se mantém conservado, sem ainda ter sua área reutilizada devido ao fato dos resíduos apresentarem deformações e a geração de chorume e gases. Por conta dessa situação, a Prefeitura diz que não dispõe de projeto para a destinação do terreno, que chegou a ser cogitado se tornar um parque municipal.

Para os moradores do bairro, atualmente a situação é confortável, mas recordam que os imóveis chegaram a ficar desvalorizados, e até mesmo a vida social ficou prejudicada. Com sua desativação, todo lixo gerado na cidade é levado para Iperó, e Sorocaba não mantém mais interesse em ter aterro próprio.

O antigo aterro sanitário, localizado numa área de 400 mil metros quadrados da antiga chácara Bahia, foi inaugurado em 14 de outubro de 1985, após vários protestos dos moradores do bairro Retiro São João e Jardim Iguatemi, que temiam que o lugar se tornasse um lixão, devido à comparação com o do bairro Ipatinga, para onde será destinado o lixo da cidade. Entretanto, com o esgotamento da capacidade no terreno do Ipatinga, a Prefeitura não poderia mais declinar da necessidade de um novo espaço, que foi escolhido pela Urbes e Cetesb entre outros cinco pontos da cidade, entre os quais o Jardim Brasilândia e o Parque Campolim.

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Durante 25 anos de atividade, o aterro recebia todo o lixo gerado na cidade. Crédito da foto: Emídio Marques (11/8/2010)

Mas, segundo o vice-prefeito da época, o engenheiro Luiz Francisco das Silva, a opção pelo Retiro São João se deu por ser o local então menos habitado, e cuja localização também foi aprovada pela Cetesb. Para contemplar as necessidades do município, a área teve 327 mil metros quadrados destinados para resíduos sanitários, e 73 mil metros quadrados para os de fonte industrial.

Atualmente, a Secretaria de Saneamento (Sesan) informa que o local continua a receber manutenção e monitoramento por ainda gerar chorume e gás. Entretanto, devido a isso, a proposta para recuperação ambiental e o projeto de aproveitamento sequencial da área para utilização de parque ou outro fim deverá ser submetido a aprovação de órgãos ambientais competentes, e pode levar até duas décadas para que o local se torne uma área pública.

Isso porque, conforme explica a Sesan, mesmo depois de encerradas as atividades de disposição dos resíduos, os maciços do aterro continuam a apresentar deformações horizontais e verticais, e a gerar percolados e gases, devido às reações bioquímicas do material orgânico que os constituem, os quais continuam por pelo menos 20 anos. Estas alterações que se processam no maciço do aterro exigem a sua conservação e manutenção sistemáticas para evitar a formação e o desenvolvimento dos processos de degradação.

As irmãs Maria e Diva dizem que a casa era invadida por moscas. Crédito da foto: Erick Pinheiro (6/6/2019)

E é por esse cuidado que existe um programa de monitoramento Ambiental através de poços de monitoramento que acompanha a qualidade das águas subterrâneas e superficial, e o monitoramento geotécnico para acompanhar o comportamento mecânico e o desempenho ambiental do maciço do aterro, de forma a permitir a identificação, em tempo hábil, de alterações no padrão de desempenho previsto, e a proposição de medidas preventivas e corretivas.

Quem tiver curiosidade em conhecer o antigo aterro da cidade, pode agendar visita monitorada pela Secretaria de Saneamento através do e-mail sesan.residuos@sorocaba.sp.gov.br.

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Protestos

Apesar dos moradores hoje já não reclamarem mais do mau cheiro, todos são unânimes em dizer que sofreram com isso, a ponto de não poderem “fritar um ovo, que a casa já se enchia de moscas”, como lembram as irmãs Maria Aparecida Cristiano e Diva de Fátima Cristiano, residentes na rua Pedro Wursching, no Retiro São João, numa localização bem próxima do aterro. Ainda segundo elas, alguns moradores que residiam do outro lado da rua acabaram se mudando, e no local se instalou uma indústria.

À exemplo das duas irmãs, o marceneiro Paulo Henrique Paulino, morador da mesma rua, recorda que dava vergonha até mesmo de receber visitas, pois a impressão era de que a casa era suja. “Sua desativação foi uma alegria para nós”, diz. Apesar de residir no Jardim Iguatemi, pouco mais distante do antigo aterro, o professor de Mecânica, Arlindo Theodoro de Souza Júnior, que inclusive participou dos protestos na tentativa de evitar sua instalação, relembra que foi um sufoco, e que “toda região, incluindo o Ibiti do Paço, foi prejudicado pelo mau cheiro e com o fechamento do poço artesiano e a destruição das nascentes de água, além da proliferação de ratos e pombos”.

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Ele explica que “o gás resultado da queima do plástico é altamente venenoso, e nosso lençol freático está comprometido, nossas nascentes acabaram. Hoje não se fala mais nisso porque não é bom falar de coisa ruim, e desvaloriza os imóveis”, destaca.

Sem interesse

Com 1.500 toneladas mensais de resíduos gerados na cidade e encaminhados ao Aterro CGA Iperó, a Prefeitura não possui interesse em manter o serviço dentro da sua jurisdição. Isso porque, de acordo com as informações passadas pelo Executivo, “licenciar um aterro próprio demanda de grandes áreas no município, as quais cumpram os requisitos técnicos ambientais, portanto uma tarefa bastante difícil de atender pois estão muito escassas em nosso município”.

Já a Unidade de Recuperação Energética (URE), que vai priorizar a reciclagem e a produção de energia através dos resíduos, está em fase final de estudos de modelagem, os quais estão sendo feitos pela Empresa Companhia Paulista de Desenvolvimento (CPD), habilitada através de Manifestação de Interesse Publico (MIP). (Adriane Mendes)

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