Sorocaba e Região

Chimpanzé Black deixará o Quinzinho de Barros na segunda-feira (6)

Primata será levado para o GAP. Especialistas divergem sobre transferência
Chimpanzé Black deixará o Quinzinho de Barros na segunda-feira (6)
Enquanto ongs querem transferência, Prefeitura luta pela permanência de Black. Crédito da Foto: Divulgação/Secom Sorocaba

O chimpanzé Black será transferido do Parque Zoológico Municipal Quinzinho de Barros para o Santuário dos Primatas na próxima segunda-feira (6). A informação é do promotor Jorge Alberto Marum. Até então, a data prevista era amanhã, dia 5, mas em uma reunião realizada ontem entre o promotor e as ONGs que entraram com o pedido de liminar, ficou acertado que a melhor data é a segunda-feira, por ser um dia em que o zoo não recebe o público, o que conforme Marum evitaria estresse do animal. A Prefeitura de Sorocaba recorreu da decisão.

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Veterinários e biólogos divergem sobre o tema, pois alguns afirmam que Black já está habituado com a rotina e com as pessoas do zoológico, enquanto as duas entidades que pedem a transferência — Agência de Notícias de Direitos Animais (Anda) e da Associação Sempre Pelos Animais — alegam que no santuário Black poderia interagir com outros primatas e não precisaria mais conviver com o estresse causado pela visitação.

O Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), para decidir pela transferência de Black, se baseou também no parecer do técnico do biólogo Sérgio Greif. Segundo ele, o que mais pode causar incômodo em Black é o fato de viver sozinho, sem contato com outros primatas, mesmo sendo ele de espécie gregária. Por alguns anos, o chimpanzé, que com aproximadamente oito anos foi resgatado de um circo, viveu na companhia de Rita, que já faleceu. Em 2004, durante reformas no recinto dos primatas no zoo, Black passou alguns meses vivendo no santuário, onde se relacionou com a chimpanzé Margarete. Após a reforma, Black e Rita retornaram ao parque municipal.

A veterinária Cléia Lúcia Magalhães, que hoje reside em Brasília, trabalhou no santuário no período que Black estava no local e recorda que lá o animal tinha liberdade para se alimentar e interagir com outros primatas. “Com certeza ele se adaptaria muito bem e seria muito feliz para o Black passar o final de sua vida sem o estresse da exposição”, afirma.

Ela lembra o momento que Black e Rita retornaram ao zoo e conta que o dia foi marcado por
emoção e tristeza no santuário. “Eles são muito inteligentes e entraram com facilidade na caixa para o transporte. Recordo da expressão triste do Black e ele estendia as mãos para nós.” Cléia explica que não deve ter problema para transportar Black de volta ao santuário caso a decisão da justiça seja cumprida, pois, segundo ela, ele pode ser treinado para entrar na gaiola sem a necessidade de sedação.

O biólogo Sérgio Greif também argumenta que Black, assim como muitos outros de sua espécie, foram de circo e por conta disso já tinham a rotina de serem transportados com frequência. Ele destaca que a distância entre o zoo e o santuário é de 23 quilômetros, o que caracteriza um trajeto rápido, que não deve causar danos ao animal. “Os pequenos dissabores decorrentes desse estresse temporário do transporte serão brevemente recompensados pelas melhores condições de cativeiro, melhor manejo e interação social”, conclui o especialista.

Para a veterinária Maria Cornélia Mergulhão, que trabalhou no zoo de Sorocaba por 31 anos, a transferência de Black pode causar tristeza ao animal, que já está adaptado ao seu recinto e aos seus tratadores. “Eles são muito parecidos com humanos, então há essa ligação afetiva com o local e com as pessoas.” Segundo ela, o recinto de Black, quando foi reformado em 2004, recebeu muitas melhorias, inclusive itens que estimulam sua movimentação e está dentro das normas do Ibama.

Nos 40 anos que ele vive no zoo, conta Maria Cornélia, Black tem acesso a uma árvore em seu recinto, segue uma rotina de alimentação, incluindo pão e leite e também tem acompanhamento veterinário permanente. Como educadora ambiental, ela também destaca a importância de Black para Sorocaba, já que ele é o animal mais antigo do zoo. “Há todo o amor da população por ele, que é respeitado de forma integral. Quando não quer interagir com os visitantes, pode ficar recolhido em seu recinto fechado.”

Maria Cornélia defende que Black já está acostumado a viver sozinho e em sua idade teria dificuldade para se incluir em grupos. “Ele precisaria disputar território e por ser mais velho, talvez não consiga seu espaço”, argumenta a veterinária. O ativista Leandro Ferro, que representa as duas entidades que ingressaram na justiça pela transferência do chimpanzé, afirma que assim que Black chegar ao santuário, ficará em quarentena, em um recinto isolado. “Nesse período, para adaptação, ele fará contato visual e também conseguirá vocalizar com outros chimpanzés e a integração será gradual”, afirma.

A idade estimada de Black é entre 48 e 50 anos e segundo o zoo, ele deve estar em seus últimos anos de vida. Já as entidades que defendem sua transferência, assim como o biólogo Sérgio Greif, alegam que chimpanzés têm uma estimativa de vida de aproximadamente 76 anos. Para a veterinária especialista em primatas brasileiros, Moira Ansolch, que atua em um santuário no Rio Grande do Sul, a principal dificuldade da possível transferência de Black seria o transporte e a adaptação ao novo local.

Segundo Moira, por ser um animal já idoso, Black pode resistir e precisar ser sedado para que o transporte ocorra e há ainda o risco de ele não se adaptar ao santuário. “Podemos fazer uma comparação com o humano, que é muito parecido com o chimpanzé. Imagina fazer um idoso deixar a sua casa, onde ele já tem um vínculo, para ser levado para outro lugar com o argumento de que há mais pessoas para interagir”, sugere a veterinária. Ela também afirma que o zoo de Sorocaba é reconhecido internacionalmente pelo cuidado com os animais e a mudança de ambiente poderia estressar e até fazer Black adoecer.

Sobre o estresse causado pelas visitações, Moira afirma que Black sempre pode se recolher quando não quer ser visto. “Eu entendo que o santuário tem boa intenção com o Black, mas acredito que há animais verdadeiramente em situação de sofrimento e esses sim deveriam receber a atenção e os esforços para resgate”, argumenta a especialista. (Larissa Pessoa)

*matéria publicada na íntegra

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