Sorocaba e Região

Cheiro forte incomoda os moradores do Iporanga

Área da antiga Saturnia, onde há garimpo de metais, é a causa
Cheiro forte incomoda os moradores do Iporanga
Fumaça na área da fábrica tem origem em combustão espontânea de materiais. Crédito da foto: Vinícius Fonseca

O odor causado pela fumaça, conta a aposentada Neuza Maria de Souza, 64 anos, que há 28 anos reside no Iporanga, é muito forte e tem incomodado a vizinhança. “Eu entendo que é um problema para a maioria, mas é o sustento de quem está ali. Não sei que providências poderiam tomar”, aponta a mulher, que já frequentou a área da antiga Saturnia em busca de materiais para vender aos ferros velhos.

Eleoneide Farias Ferreira, 42, mudou do bairro há pouco mais de dois meses por conta do odor que vem do terreno, mas frequenta ainda a casa de parentes, que seguem residindo no Iporanga. “Eu sei que é muito prejudicial para a minha saúde e mesmo pagando o dobro do aluguel, achei melhor mudar para o Éden”, afirmou. A filha dela, Bianca Ferreira Neves, 20, conta que o avô, que ainda mora no bairro, está acamado e usando máscara para evitar sentir o cheiro da fumaça. “Disseram que compraram a área, mas ninguém vai querer descontaminar esse lugar se tem gente aí fazendo isso diariamente. Vão esperar essas pessoas morrerem para tomarem alguma providência”, criticou a jovem.

Grávida, Larissa Ferreira Garcia, 18, conta que pretende, antes de o bebê nascer, mudar de bairro. “Eu tenho muito medo de causar algum problema de saúde no meu filho e aqui moram muitas crianças que respiram essa sujeira o tempo todo”, afirma. Ela conta que o cheiro fica mais intenso no final da tarde, dependendo do dia e que nenhuma autoridade é vista no local para tentar reverter a situação. O contato com a fumaça, conta, causa ânsia, dor de cabeça e diarreia em várias pessoas.

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Cheiro forte incomoda os moradores do Iporanga
Joceli: crianças tossem. Crédito da foto: Vinícius Fonseca

Justamente as crianças que causam mais preocupação para a comerciante Joceli Tavares da Silva Duarte, 41, que há 12 reside no Iporanga. “Tem dias que já cedo está fedendo e não tem o que fazer com as crianças, que começam a tossir e passam muito mal”, reclama. Ela contou que os moradores sabem que a área foi vendida, mas desconhecem o nome. “Falaram que iriam descontaminar o local, mas não sei como farão isso.”

Garimpo continua e terreno não foi cercado

“Eu sei que é arriscado e tenho medo, mas tenho mais medo ainda de passar fome”, contou um homem de 52 anos que há mais de um ano e meio está diariamente garimpando na área da antiga Saturnia, no bairro Iporanga. Embora proibido, o garimpo na área continua acontecendo sem nenhum tipo de fiscalização. O terreno foi vendido para um empresário sorocabano, que teria se comprometido, segundo a Secretaria de Meio Ambiente (Sema), a manter o local cercado e com vigilância 24 horas por dia, o que não ocorre.

Na manhã de ontem a reportagem do Cruzeiro do Sul esteve na área e conversou com pessoas que continuam tirando do material tóxico o seu sustento. Em um buraco com pouco mais de um metro de profundidade, dois homens cavavam em busca de itens que podem ser vendidos em ferros-velhos da cidade. Um deles, de 52 anos, conta que em “meses ruins”, consegue faturar o que lhe rende mais do que o serviço de pedreiro, que fazia antes.

Com a família para sustentar, o garimpeiro conta que não sente nenhum efeito do chumbo na saúde, mas se preocupa com problemas que possam surgir futuramente. “Antes tinha muito mais gente aqui, mas agora diminuiu bastante, somos nós dois e umas outras seis ou sete pessoas”, relata ele, que chega diariamente ao local por volta das 5h30 e vai embora às 14h.

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Cheiro forte incomoda os moradores do Iporanga
Homens dizem que estão ali para fugir do desemprego. Crédito da foto: Vinícius Fonseca

O companheiro de trabalho dele é o cunhado, um homem de 56 anos que veio de uma cidade do norte do Paraná há quatro meses, depois de sofrer com o desemprego. “Eu era operador de máquinas, mas a fábrica faliu e a gente começou a passar dificuldade. A solução foi vir para cá, já que o país não melhora a gente tem que se virar, mesmo correndo risco”, disse. A dupla trabalha sem nenhum tipo de proteção, cavando com as mãos e com uma enxada.

A jornada começa ainda pela madrugada para evitar que moradores do entorno reclamem da situação, mas a dupla garante que o cheiro desagradável que toma conta do bairro não é causado por eles. “Isso aqui é tão contaminado que parece que acontece umas explosões embaixo da terra e aí sobe essa fumaça fedida”, conta um deles.

Cetesb e Sema desconhecem destinação da área

A Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), assim como a Secretaria do Meio Ambiente (Sema) de Sorocaba informaram que desconhecem qual será a destinação da área. O órgão estadual disse, em nota, que foi informada que a área havia sido arrematada por uma sociedade em um leilão realizado no final do ano passado, mas que “não possui informação segura sobre esse fato”.

Conforme a Cetesb, “os ditos sócios que teriam arrematado a área informaram que em breve espaço de tempo os locais com resíduos aflorantes seriam aterrados e segurança seria contratada para operar 24 horas por dia”. Questionada se realiza algum tipo de fiscalização e acompanhamento, o órgão disse que a cada reclamação recebida, a Sema é acionada e que “quase que de imediato é providenciado o aterramento da porção de resíduo que através de combustão produzia fumaça, cessando assim o incômodo”.

Já a Sema afirma que tem acompanhado o caso, mas apontou que as etapas subsequentes para reabilitação da área são de responsabilidade do órgão ambiental estadual, a Cetesb. “Contudo a Sema continuará acompanhando todo o processo com objetivo de assegurar qualidade de vida à comunidade local”, informou. A pasta disse ainda que sempre que recebe alguma denúncia, aciona o atual proprietário, “que de imediato tem tomado medidas para contenção dos problemas apontados”.

De acordo com a secretaria, o novo proprietário tem a responsabilidade de impedir o acesso de pessoas na área e o garimpo ilegal e, na sequência, dar início ao processo de descontaminação do local. Na última reunião do Comitê de estudos referentes à área da antiga empresa Saturnia, que ocorreu no dia 23 de janeiro deste ano, o novo proprietário foi apresentando oficialmente ao grupo.

Nesse encontro, informou a Sema, foi dada ciência ao proprietário quanto ao histórico da área e informado que há uma autorização da Cetesb para recobrimento com solo local ou solo externo, desde que em boa qualidade, assim como requerido pelo representante da Cetesb um cronograma de ações para dar início ao processo de regularização do passivo ambiental da área.

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A pasta também informou que o proprietário se comprometeu a colocar de imediato segurança 24 horas no local para impedir o acesso de pessoas, o que não tem ocorrido. O proprietário também ficou responsável por recobrir o solo do terreno para não deixar o material exposto, dificultando o garimpo ilegal, e fazer uma análise investigatória na área para determinar quais ações e as técnicas necessárias para a descontaminação da área, sempre com autorização e acompanhamento da Cetesb.

Combustão espontânea

Desde os primeiros contatos com o proprietário a Sema informou que solicita intervenções na área para conter os focos de fumaça após dias de chuvas. “Em muitos casos a ciência destes focos ocorreram por meio da equipe de segurança da indústria Clarios, que colocou as suas câmeras voltadas para a área da antiga Saturnia e, ao sinal de qualquer movimentação ou foco de fumaça no local, aciona os responsáveis.” Esses focos de fumaça, de acordo com a pasta, são originados de combustão espontânea gerada após dias de chuva, provavelmente decorrente de resíduos de ácido que reagem com a água da chuva produzindo reação e uma química exotérmica. (Larissa Pessoa)

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