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Crítica teatro: A-Feto

Jose Simões – blogdosimoes@gmail.com

Crítica teatro: A-Feto

 O bar O COMPLEXO abriu  espaço para temporadas de espetáculos teatrais que tenham em sua concepção a proposta de ocupação de espaços-outros. Não utilizo o termo “espaço alternativo” uma vez que a ocupação desse espaço não é uma alternativa àquela montagem e, sim, uma escolha.

O teatro quase sempre nos oferece boas surpresas ao ocupar espaços-outros. Desde a origem o teatro já ocupou vários lugares cênicos diferentes do conhecido edifício teatral. O lugar teatral sempre foi plural. Ele pode ser circular, retangular, quadrado, disforme, aberto ou fechado. Afinal qualquer lugar pode ser teatralizável. Por exemplo: praças (desde antes do teatro medieval até os dias de hoje), ruas, galpões abandonados e bares com excelentes resultados artísticos.

 É certo que quando o espetáculo ocorre num espaço distinto ao  edifício teatral dito a italiana, com palco e plateia organizados frontalmente, requer dos artistas (direção, atores, etc.) outras habilidades e técnicas. Os espectadores, também, colocados noutra situação são convidados a dialogar com a diferença do espaço. Por exemplo: se a peça acontece num bar. Pergunto: você poderia atravessar a cena e ir ao balcão para pedir uma cerveja? Ou mesmo se levantar para ir ao banheiro? Ou atender ao celular? Por estar fora do edifício teatral pode realizar ações diferentes e não usais em relação ao edifico teatral convencional? Não sei as respostas. Só sei que se estas situações acontecerem  durante a apresentação que assisti e elas foram incorporadas pelos artistas na cena. Os artistas interagiram e resolveram  as situações. Afinal quem está na chuva é para se molhar.

 A-FETO de Tiske Reis aborda o tema de Deus. Se existe? Como existe? De modo existe? Em cena Deus mulher (Giovanna Tegani) conversa com um homem (Tiske Reis) que será, após o tempo, o próprio Deus. E por aí segue a discussão imersa num conjunto de provocações, dentre outras fabulações acerca de Deus e sua existência. Não se trata de um tema fácil e nem todos gostam de discuti-lo. Mas o teatro tem mesmo esta função e colocar o dedo nas situações dificeis.

A montagem  é divertida. Recheada de bom humor que poderia até ser mais escrachado. É certo que nas estreias sempre faltam os ajustes que somente o tempo pode oferecer. O tempo e a repetição das cenas acomodam as peças e azeitam o jogo entre atores e a platéia.  Os dois artistas desenvolvem bem as cenas, jogam e aproveitam as oportunidades e a liberdade que o espaço lhes oferece.

O texto dessa montagem me remeteu a um outro texto – “Deus” – de Woody Allen, publicado em 1975. Dramaturgia de humor corrosivo. Nele  a situação dramática tem como de partida a encenação de um texto que discute a existência de Deus, das doenças, das tragédias, enfim, a existência do próprio homem. Ao mesmo tempo discute questões relacionadas ao papel da arte. Principalmente uma questão recorrente: se os espetáculos deveriam ter ou não uma mensagem. 
 
Num dado momento  do texto a personagem Hepatitis (o autor satiriza o uso de nomes latinos para  as doenças) esbraveja: “esta é uma peça séria! Tem até mensagem! Se fracassar, a plateia nunca entenderá a mensagem!”. Uma mulher responde: “o teatro é diversão, sua besta. Se quiser enviar uma mensagem, passe um telegrama”. Na sequência entra pela plateia de bicicleta o carteiro “Telegrama para a plateia! Mensagem do Autor!”. O telegrama diz “Deus está morto. PT. Cada um por si. PT.”

 
O teatro não é o espaço para respostas prontas e nem para uma mensagem. A recepção da cena é diversa e difusa. Talvez por isso eu tenha me incomodado com o fato de após o final da peça o público ter sido convidado a conversar sobre a peça. Explicar quase sempre reduz o vivido. Por fim, a montagem de A-FETO cumpre a função de divertir e discutir aquilo que nos cerca e faz parte do nosso dia a dia.

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