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Crítica Teatral – Alice: um conto sem fadas

Jose Simões – blogdosimoes@gmail.com

Crítica Teatral – Alice: um conto sem fadas

A montagem “Alice: um conto sem fadas” de Tiske Reis, uma  livre adaptação do clássico “Alice no país das maravilhas” de Lewis Carroll, resultado de uma oficina de interpretação teatral, coloca em cena jovens atores e atrizes mergulhados em temas difíceis – abuso, doenças mentais e abandono. Mas o que estes temas tem a ver com a história da Alice?

Lewis Carroll é na verdade o pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson. O livro foi escrito em 1865 e conta as aventuras de uma menina – Alice – que persegue um coelho e nesse percurso cai num buraco. A partir daí ela é transportada para um lugar permeado de seres fantásticos e o resultado são muitas peripécias e aventuras.

Desde o  lançamento  de “Alice no país das maravilhas” muitas polêmicas envolvem o livro e o autor. Em relação ao autor a mais frequente é a da pedofilia. Desmentido por alguns pesquisadores e aceita por outros. Em relação a história, com base em documentos ou inventadas, dentre as versões que circulam desde então, a mais perversa é aquela que temos Alice, com 11 anos de idade, apresentada como uma menina esquizofrênica internada em um sanatório. Lá, além de receber uma medicação forte, ela é violentada pelos funcionários. Assim, nessa leitura o Coelho seria uma referência ao tempo que a menina desejava que passasse logo para poder sair do lugar que estava internada. O Chapeleiro Maluco seria seu melhor amigo. O Gato seria o aproveitador. Já a Rainha de Copas representa a diretora do sanatório e a Rainha Branca a mãe de Alice. E para dar veracidade a esta versão se afirma que o relato da história só chegou ao público por causa de uma das enfermeiras do sanatório, que registrou tudo em um diário. Não há nenhuma comprovação desta versão e nem do tal diário. É esta  a versão que o espetáculo “Alice: um conto sem fadas” coloca em cena.

Os figurinos são bem cuidados e dialogam com a proposta da encenação. A sonoplastia é adequada. Todavia com alguns problemas na operação. Seja na entrada ou saída do som de modo abrupto nas cenas. O espaço é pequeno e requer atenção a estes detalhes. As intepretações, quase todas, foram construídas como tipos e algumas chegam a caricaturas. Não há a densidade esperada na composição das personagens. Mas esta opção não chega a comprometer a leitura da peça. Afinal são jovens atores e atrizes que precisam avançar nos estudos (e na técnica) para que possam descobrir as possíveis camadas que a construção de uma personagem exige. O teatro requer isso. Exige dedicação de quem deseja seguir neste ofício.

A encenação de Tiske Reis soube aproveitar a energia e as características de cada um dos jovens no numeroso elenco. Apesar da interpretação e o textos permeados de altos e baixos a direção consegue superar estas dificuldades com o bom ritmo e boas soluções cênicas. Os jovens atores realizam dedicados as marcas cênicas que lhes são propostas. Mostram-se firmes na defesa do texto e no enfrentamento da discussão de temas tão espinhosos, como: abuso sexual, violência, abandono.

Ao final o espetáculo “Alice: um conto sem fadas” tem como mérito ser um teatro que se propõe a falar desses temas aos jovens, sendo realizado por jovens. Jovens diante de jovens. Nisto reside a beleza e o encantamento do espetáculo. Avante!

Elenco:

Alexia Soler
Amanda Faicar
Amilton Sanchez
Anna Laura Foltran
Matheus Caruso
Camila Faraveli
Debora Barros
Deverson Geovane
Felipe Rodrigues
Giovanna Tegani
Isabel Cristina Moreno
Lara Constantine
Maiara Donna
Michele Sonsim
Najú Lima
Natália Oliveira
Rafael Milbio
Tiske Reis

Texto e Direção: Tiske Reis
Técnica: Dudu Martins
Arte/Divulgação: Caio Cordeiro

Serviço:

Data: 30 e 01 de julho
Horário: 20h00
Local: Teatro Escola Mario Persico

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