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“Uso de antidepressivos não segue caminhos racionais”, alerta pesquisadora

A pesquisadora Izabela Fulone analisou dados do sistema público de saúde da cidade de Porto Feliz
Izabela Fulone analisou dados do sistema público de saúde da cidade de Porto Feliz, interior paulista. Foto: Paulo Ribeiro/Uniso

Texto: GUILHERME PROFETA

Você provavelmente já ouviu alguém se referir à depressão como a doença do século. Infelizmente, não se trata de alarmismo. Dados da OMS (Organização Mundial da Saúde) revelam que os transtornos mentais e de comportamento, entre os quais a depressão está incluída, irão afetar mais de 25% da população em algum momento da vida. Além disso, pesquisas indicam que a depressão é uma das dez doenças predominantes em todo o mundo e, dentro dos próximos dois anos, ela deverá ser superada somente pelas doenças cardíacas.

É por isso que pesquisas relacionadas ao seu tratamento são tão importantes. “A diretriz da Associação Médica Brasileira para o tratamento da depressão, revisada em 2009, recomenda que, para depressão leve, antidepressivos não devem ser empregados, indicando-se apenas a psicoterapia. Para os casos de depressão moderada a grave, os antidepressivos representam a primeira linha de tratamento”, diz Izabela Fulone, que estudou o assunto em sua pesquisa de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas da Universidade de Sorocaba (Uniso).

Porém, o que acontece é que os antidepressivos demoram de duas a quatro semanas para começar a apresentar algum efeito apreciável — o que é chamado de período de latência. A principal hipótese para explicar essa latência é a necessidade de mudanças adaptativas no processo de neurotransmissão central do paciente em tratamento. “Os fármacos antidepressivos têm em comum a capacidade de aumentar a disponibilidade de neurotransmissores como a serotonina, a noradrenalina e a dopamina, que controlam a sensação de humor e bem-estar”, explica Fulone. Mas esse processo leva algum tempo.

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Nesse período, é comum que os médicos associem os antidepressivos a benzodiazepínicos, que têm efeito ansiolítico. “Os antidepressivos provocam ansiedade no início da terapia, ou mesmo outros efeitos adversos, que os ansiolíticos, tal como o diazepam ou outro benzodiazepínico, podem diminuir. Isso aumenta a adesão do paciente ao tratamento. No entanto, esse efeito é conseguido com três semanas de uso, no máximo quatro. Depois disso, o benzodiazepínico passa a ter efeitos indesejáveis, como a dependência, a tolerância, o aumento do risco de fraturas e até mesmo o aumento do risco de doenças como o Alzheimer”, explica a professora doutora Luciane Cruz Lopes, orientadora do estudo.

Fulone lembra que essa terapia combinada é uma prática comum em vários países, inclusive no Brasil, baseada na alegação de que o início do tratamento costuma ser um período crítico justamente devido à latência dos antidepressivos, o que acaba causando nos pacientes a exacerbação de sintomas como a ansiedade, a insônia e a irritabilidade, além de aumentar o risco de desistência ou mesmo de suicídio. Quatro semanas depois, contudo, os benzodiazepínicos podem deixar de ser administrados, uma vez que os antidepressivos já passam a apresentar seus efeitos, o que faz com que os benefícios da terapia combinada cessem depois de um mês, como demonstram as evidências científicas. Nem sempre, contudo, os pacientes interrompem o uso dos benzodiazepínicos e, com isso, o tratamento se prolonga.

A pesquisadora Izabela Fulone e a professora doutora Luciane Cruz Lopes (ao centro), em evento do Doutorado. Foto: Paulo Ribeiro/Uniso

Foi exatamente essa situação que levou Fulone a conduzir um estudo observacional, com o objetivo de analisar o tratamento e o acompanhamento da depressão no sistema público de saúde da cidade de Porto Feliz, interior de São Paulo, com foco no perfil de consumo de antidepressivos e benzodiazepínicos. “A pesquisa teve a finalidade de contribuir para a melhoria dos cuidados prestados aos pacientes deprimidos e para a redução dos riscos associados à toxicidade dos benzodiazepínicos. A consistente metodologia desse estudo e a validade de seus achados contribuem para a compreensão da forma como esses medicamentos são utilizados, além de servir como base para estudos nacionais e mundiais. Conhecer o cenário real, tanto o local quanto o regional, assim como suas fragilidades, barreiras e deficiências, é essencial para propor ações e estratégias que contribuam para melhorar o tratamento da depressão e o uso racional de medicamentos no Brasil”, defende Fulone.

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No estudo, foram considerados os pacientes em tratamento com antidepressivos diagnosticados com depressão e atendidos no período de janeiro de 2008 a dezembro de 2009 no SUS (Sistema Único de Saúde) de Porto Feliz, compreendendo duas unidades básicas de saúde, seis unidades do Programa da Saúde da Família e três centros de especialidades. O número de prescrições totalizou 4.813, sendo 33,2% dos casos voltados ao tratamento da depressão. Desses, 53,7% configuraram terapia combinada e os outros 42,3%, monoterapia — ou seja, o uso de antidepressivos sem a associação aos benzodiazepínicos. “O que se constatou nessa amostra”, analisa Fulone, “é que houve maior utilização de terapia combinada para o tratamento da depressão, em detrimento da monoterapia. Os antidepressivos e benzodiazepínicos mais prescritos foram a fluoxetina e o diazepam, respectivamente. Verificou-se, também, que a terapia combinada ultrapassou quatro semanas: na verdade, cerca de 50% dos pacientes utilizaram terapia combinada por mais de um ano.”

“O que esses dados obtidos sugerem?”, continua a pesquisadora. “Que a utilização de antidepressivos não está seguindo caminhos racionais. Essa forma de tratamento praticada para a depressão deve ser reavaliada, especialmente o longo tempo de terapia combinada, que não corresponde às evidências científicas de benefício e ainda expõe os pacientes a riscos desnecessários.” Algumas das sugestões que ela propôs incluíram, além da reavaliação do tempo de terapia combinada, a capacitação daqueles que prescrevem e também a educação dos próprios pacientes.

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Com base na dissertação “Uso de antidepressivos e benzodiazepínicos no Sistema Único de Saúde de Porto Feliz-SP”, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas da Universidade de Sorocaba (Uniso), com orientação da professora doutora Luciane Cruz Lopes e aprovada em 26 de agosto de 2011.

Acesse a pesquisa aqui.

Para saber mais: benzodiazepínicos

Benzodiazepínicos (também chamados de BDZs) começaram a ser utilizados como medicamentos ansiolíticos (para tratar a ansiedade), hipnóticos (para tratar a insônia) e miorrelaxantes (para promover o relaxamento muscular) na década de 1960. Hoje eles estão entre os fármacos mais utilizados em todo mundo; as estimativas apontam que, no Ocidente, algo entre 1% e 3% da população já o tenham consumido por períodos superiores a um ano e que o seu consumo dobre a cada cinco anos. O diazepam é o principal derivado dos benzodiazepínicos, sendo o princípio ativo de cerca de 50% dos psicoativos prescritos no Brasil. “A insuficiente capacidade da sociedade moderna de suportar o estresse, a velocidade de introdução de novos fármacos no mercado e a pressão propagandística crescente da indústria farmacêutica podem ter contribuído para o aumento da procura pelos benzodiazepínicos, além dos hábitos inadequados de prescrição por parte de médicos”, lista Fulone.

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