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Cão-guia

Instituto capacita filhotes para o treinamento de cães-guias

Acompanhe a história de Zuma, Senna e Olívia para se tornarem os olhos de pessoas com deficiência visual
Zuma, labrador filhote de pelagem preta, bem próxima da câmera olhando para o visor com a língua de fora. Ela está vestindo o colete de identificação do Instituto Magnus e está caminhando no gramado.
Zuma, a filhote que em breve iniciará o treinamento de cão-guia. Foto: Erick Pinheiro

Como qualquer outro cão, eles pulam, correm, latem, abanam o rabo e brincam dando mordidas e lambidas diante de qualquer sinal de carinho. Zuma, Senna e Olívia estão em diferentes fases de preparação para se tornarem cães-guias e futuramente serem os olhos durante o deslocamento de cegos e pessoas com baixa visão.

O trabalho desenvolvido pelo Instituto Magnus, com a ajuda de muitos voluntários, é a maneira mais eficiente de diminuir um abismo ainda existente no Brasil. O país tem aproximadamente sete milhões de pessoas com deficiência visual que precisam de um cão-guia e possui menos de 200 cães treinados em atividade.

Durante os próximos dez meses você poderá conferir a rotina dos três labradores e o ciclo de aprendizados, evoluções e despedidas que marcam as etapas do treinamento. A Zuma é o bebê dessa turma e tem três meses de vida. Há pouco mais de um mês ela conheceu sua família socializadora e está descobrindo o mundo com a ajuda de Sidinéia Venancio dos Santos, de 37 anos. Na fase de socialização, o cão deve conhecer a maior quantidade possível de locais e ser exposto às situações do cotidiano, como andar de ônibus e ir ao supermercado.

Por enquanto Zuma só explorou o quintal de casa, já que sua última vacina foi aplicada no dia 23 de março. A partir da próxima semana, usando um colete de identificação do Instituto Magnus, essa labrador preta vai encantar pela cidade. “Já estou até me preparando para as perguntas e sempre vou fazer questão de explicar sobre a importância do cão-guia.

“Ela é linda e as pessoas ficam apaixonadas”, conta Sidinéia.

Sidinéia, uma moça de cabelos curtos e claros usando óculos e uma camiseta azul, sorri olhando para a Zuma. A socializadora carrega a filhote no colo que, com as orelhas caídas e braços para cima, olha para as lentes da câmera. Elas estão no quintal gramado e arborizado com uma casa ao fundo.
Zuma se divertindo com Sidnéia. Foto: Erick Pinheiro

Zuma tem energia de sobra e também sente muito calor, por isso adora brincar nas poças d’água. Com dentinhos afiados e ainda desbravando os ambientes, ela corre de um lado para o outro e é comum passar pela grama capotando, como uma criança aprendendo a andar. Sidinéia conta que a cadelinha adora tirar um cochilo matinal e prefere dormir de barriga para cima, roncando bastante.

Ainda bebê, Zuma está aprendendo alguns comandos básicos, como sentar e deitar, mas já sabe avisar quando precisa ir ao banheiro e uma garrafa pet vazia é o seu brinquedo favorito.

“Eu olho esse jeito estabanado e bagunceiro dela e fico pensando no longo caminho que será até ela ser cão-guia, mas sei que ela fará um trabalho incrível sendo os olhos de alguém”, conta Sidinéia, que nunca havia tido um cão em sua casa e relata ter mudado sua rotina para se dedicar à Zuma.

Famílias socializadoras

Vera Lúcia posiciona-se ajoelhada em uma área gramada, vestindo roupas confortáveis e chapéu para sua caminhada. Ela abraça Senna, o cão labrador amarelo, que está vestindo o colete do Instituto e também a coleira Gentle Leader.
Vera Lúcia considera Senna como filho. Em breve, o cachorro deixará a família para iniciar sua vida de cão-guia. FOTO: Erick Pinheiro

Já o Senna, um labrador amarelo que adora se sujar, parece até sorrir para as câmeras. Ele já está em socialização há seis meses e chegou na casa de Vera Lúcia de Arruda Oliveira, de 62 anos, para ajudá-la também a superar a recente partida de uma vira-lata que viveu com ela por 14 anos. “Ele é tão carinhoso e tão educado que já fico de coração apertado em pensar na despedida, mas eu sei que a missão dele é ajudar aos outros, assim como está me ajudando”, conta sua socializadora, que leva Senna para todos os lugares possíveis.

Além de Vera Lúcia, o marido dela, João, de 56 anos, também se derrete por Senna e o filho do casal, João Lucas, de 28 anos, adora levar Senna para passear. “Ele (João Lucas) conta que faz sucesso com a mulherada quando está com o Senna”, entrega, se divertindo”.
Periodicamente Senna é acompanhado pelo instrutor George Thomaz Harrison, do Instituto Magnus. Durante as visitas as famílias recebem orientações e relatam também as atividades realizadas com o cachorro. No início da socialização, quando os cães ainda são filhotes, as visitas ocorrem semanalmente, depois passam a ser a cada 15 dias e após os filhotes ficarem maiores o treinador vai às casas uma vez ao mês.

Dona de casa, Vera Lúcia relata que às vezes sofre para ditar as regras a Senna, que é chamado por ela de bebê. “Com essa carinha que ele faz, fica difícil falar não, mas eu sei que preciso fazer isso para que ele seja um bom cão-guia.”

Durante a socialização, o cão não deve ser tratado com um pet, explica George, e a rotina rigorosa é essencial, como fazer três refeições ao dia, dormir em uma área restrita e não subir no sofá. O Senna, inclusive, está usando uma coleira chamada Gentle Leader, que serve para que o filhote fique mais tranquilo para caminhar e isso também faz parte do treinamento, pois colabora para o comportamento do cão.

O trainee de instrutor de cão-guia Ricardo e a labrador preta Olívia estão lado a lado. Ele segura a guia com a mão esquerda e um petisco com a mão direita. Ela está sentada com a boca aberta. Ambos olham para o petisco. Eles estão no Instituto Magnus, em uma calçada do espaço em seu momento de treinamento diário.
Olívia obedece atentamente às ordens do trainee de instrutor de cão-guia Ricardo. Foto: Erick Pinheiro.

Centro de treinamento para cães-guias

Após um ano com a família socializadora, o cão retorna ao Instituto Magnus para fazer treinamentos de obediência e deslocamento. Zuma ainda ficará em socialização por mais dez meses e para Senna resta um semestre ao lado de Vera e sua família. Já Olívia, uma labrador dócil e brincalhona, está na última etapa de preparação, dentro do Instituto, após oito meses com sua família socializadora. George conta que ela ainda está aprimorando os comandos básicos no primeiro mês de estadia e diariamente é treinada para conseguir guiar.

Na socialização, Olívia foi ao shopping, andou de ônibus, subiu e desceu escadas rolantes, brincou na piscina e até conheceu o Papai Noel. Amanda Fabiana de Albuquerque Goes, 24, integrante da família socializadora de Olívia, relembra que ela chegou em sua casa com quatro meses e sempre com uma rotina agitada. “Ela é muito sapeca e inteligente, mas tinha medo até de subir escadas”, relembra. No dia de levar Olívia de volta ao Instituto, Amanda relata que foi um misto de tristeza e alegria.

Ficou um vazio. É difícil se acostumar com a ausência, mas eu sei que é por uma causa incrível e que fizemos a nossa parte direitinho”, conta.

O retorno de Olívia ao Instituto Magnus ainda é recente e nos próximos cinco meses ela será avaliada diariamente e a equipe agirá para encontrar encontrar o perfil da pessoa com deficiência que se encaixe com o dessa  cadelinha, que demonstra constante satisfação em ajudar.

Os dois instrutores estão posicionados espontaneamente um ao lado do outro, de braços cruzados, embaixo de uma árvore em um parque da cidade. Eles vestem uniformes do Instituto Magnus nas cores amarelo e preto e estão sorrindo.
Os instrutores George e Ricardo são alguns dos responsáveis pela educação dos cães no Instituto Magnus. Foto: Erick Pinheiro

“Na socialização o cão desbrava o mundo e vai mostrando sua personalidade. Para nós é importante conhecê-lo dessa forma mais profunda, porque não estamos lidando com robôs. É preciso saber de todas as características deles para conseguir depois encontrar a pessoa ideal para recebê-los”, afirma George, enquanto Ricardo Pinheiro Machado, que é trainee do Instituto, caminha com ela pela área de treinamento indoor.

No Instituto há atualmente oito cães em treinamento e outros 13 estão em período de socialização. Olívia, conta George, tem um jeito cativante, olhando sempre para quem a treina e demonstrando interesse em aprender. “Nós já percebemos que ela fica feliz em atender. Sempre espera algum comando. Gosta quando a gente conversa com ela”, explica o treinador, que desde 2006 prepara cães-guias.

A formação de um cão-guia é longa, levando aproximadamente dois anos. Para que ao final desse período um cego ou pessoa com baixa visão seja beneficiado, muita gente se engaja na missão e parte essencial desse ciclo são os voluntários. Para ser uma família socializadora basta vontade e disposição e é possível se cadastrar no site. O Instituto Magnus oferece todo o suporte necessário e para receber o cão em casa a família pode ter qualquer composição — com ou sem crianças, idosos, ter ou não outros cães. É necessário apenas se comprometer com os cuidados do cachorro, dar muito carinho e levá-lo para a maior quantidade de lugares possíveis.

Acompanhe a trajetória dos filhotes

Nos próximos dez meses o Cruzeiro do Sul acompanhará o treinamento de  Zuma, Senna e Olívia para se tornarem cães-guias.  Acesse a nossa editoria especial para mais notícias sobre acessibilidade aos deficientes visuais e fique ligado(a) nesta história.

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