Cão-guia

Quer adotar um futuro cão-guia mas tem medo de se apegar?

Os seis cães graduados estão enfileirados sentados no chão, usando coleiras, cada um ao lado de uma pessoa do Instituto Magnus. A primeira da fila, mais próxima da câmera nesta foto, é Olívia, de pelagem preta e os demais são todos de pelagem amarela. Todos os cães estão com suas bocas abertas e línguas de fora, observando o movimento no local. Na foto aparecem apenas a cintura para baixo das pessoas que acompanham os cães e ao fundo, há a parede amarela do Instituto.
Seis cães foram “graduados” no Instituto Magnus. Crédito da foto: Emídio Marques/Jornal Cruzeiro do Sul

Até se tornar definitivamente um cão-guia, o animal passa por diversas fases em sua vida. No Instituto Magnus, esses processos são muito bem definidos para que tudo ocorra da melhor forma possível durante a sua formação.

Porém, a questão do “apego” é sempre levantada por pessoas que têm interesse no assunto, seja o apego por parte dos cães, ou pelos participantes desse processo, como veterinários, instrutores, ajudantes de canil e as próprias famílias socializadoras.

O instrutor George Thomas Harrison esclarece que a questão do apego é muito bem trabalhada pelos profissionais do Instituto Magnus. Ele explica que os cães sempre vivem o momento presente, diferente dos humanos, por exemplo. Isso quer dizer que os animais já são geneticamente preparados para se adaptarem às mudanças.

Ricardo e George estão sentados, um ao lado do outro, apoiando seus braços em uma mesa de madeira. Ambos olham para frente, sérios, vestindo o uniforme do Instituto Magnus nas cores amarela e preta. Eles estão em uma sala e ao fundo há uma parede branca.
Ricardo e George são instrutores no Instituto Magnus. Crédito da foto: Emídio Marques/Jornal Cruzeiro do Sul

Os cães nascem em uma matilha e, conforme vão crescendo, o grupo mantém alguns membros enquanto outros irão sair. Processo este que é natural na vida dos canídeos, segundo George.

Por este motivo, o animal está instintivamente apto a se adaptar a diversos ambientes e pessoas. Ricardo Pinheiro Machado atua com George como instrutor no Instituto. Ele completa que para o animal as mudanças são processos naturais. “A capacidade do cachorro de adaptação é altíssima”, disse.

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Relacionamento com o cão-guia

Já no caso das pessoas que atuam nesse processo, como os profissionais do Instituto e a família socializadora, é preciso preparo e conhecimento sobre a causa a ser ajudada. George, por exemplo, declara que atua como um tipo de “professor de faculdade”. Mesmo que ele se identifique mais com um animal, se sente no papel de preparar o cão para o seu futuro profissional, no caso, na profissão de cão-guia.

“Fico na expectativa que o cão se torne um profissional que eu sei que ele tem potencial para ser. Não é que eu não tenha apego com os cachorros, mas o que eu sempre quis foi ver eles entrarem no mercado de trabalho e terem sucesso”, comentou George.

Outra medida feita para que o cão-guia perceba que a pessoa com deficiência visual será seu novo tutor, é que, durante a adaptação, os instrutores deixam de fazer contato visual. Diferente do que acontecia no treinamento. Nessa etapa, George pede que a própria pessoa com deficiência visual faça as possíveis correções necessárias no treinamento do cão-guia.

George e Olívia, a labrador de pelagem preta, estão lado a lado, posicionados no topo de uma escada de cinco degraus. Eles se olham entre si. George, que veste uniforme do Instituto nas cores amarelo e preto e calça jeans, segura a guia com sua mão direita. Ao fundo, há o prédio do Instituto e céu nublado.
Olívia foi treinada pelo instrutor George Harrison, do Instituto Magnus. Crédito da Foto: Erick Pinheiro/Jornal Cruzeiro do Sul

A partir daí, tudo relacionado ao cão quem passa a fazer é a pessoa com deficiência visual, como brincar, cuidar das necessidades diárias, escovar, levar ao veterinário, etc. Desta forma, o cão-guia automaticamente irá procurar a pessoa com deficiência visual quando precisar de alguma coisa.

No caso das famílias que recebem os cães ainda filhotes para a socialização, o Instituto Magnus estabelece um contrato e deixa claro o período em que o cão ficará com a família. Todo o processo de socialização é acompanhado pelo instituto, que estabelece os próximos passos do cão para se tornar um cão-guia.

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Apego e a questão afetiva

Vera Lúcia e seu filho estão posando para a foto, em pé, olhando para a câmera e sorrindo, segurando a coleira de Senna, o labrador amarelo, que está sentado no chão, olhando para a câmera e com a língua de fora. Ao fundo, há o prédio do Instituto Magnus, algumas palmeiras ao fundo e céu nublado. Vera e seu filho vestem roupas de frio, ela uma blusa vinho, casaco preto e calça jeans e ele blusa de moletom verde, calça jeans, tênis e óculos escuros.
Vera Lúcia foi a responsável pela socialização do cão Senna. Crédito da foto: Arquivo Pessoal

Um dos maiores desafios dos Instituto Magnus é encontrar famílias que se disponham a ter um futuro cão-guia em casa por ter que se despedir e deixar que ele siga seu caminho com uma nova pessoa. O apego é o argumento mais usado entre aqueles que se interessam mas “perdem a coragem” para embarcar nesse processo. Mas afinal, o apego existe ou não existe?

A psicóloga e docente da Pontifica Universidade Católica (PUC) de Sorocaba, Ana Laura Schliemann, explica que esse processo de “criar apego” não só é comum, mas também esperado. O apego é a criação de uma ligação afetiva, de estima e afeição e, segundo a especialista, é esperado na socialização do cão-guia até mesmo para que ela tenha um “melhor resultado”.

Quando a família entra para o programa de socialização com o cão ainda filhote precisa manter proximidade com o animal, o que, conforme Ana Laura, faz com que a pessoa socializadora acabe se apegando. Ou seja, quando a família devolve o animal é como se ocorresse uma perda e é preciso lidar com a perda.

“É como um processo de luto. É preciso entender que ele vai acontecer e respeitar o tempo necessário para enfrentar isso”, comentou a psicóloga.

O cão Senna faz parte da nova turma que está começando o treinamento específico de cão-guia, junto de Sombra e Tina. Ele foi entregue pela responsável na família socializadora, Vera Lúcia de Arruda Oliveira após 11 meses de socialização. Atualmente, está sendo treinado para ser um cão-guia pelos instrutores do Instituto.

Vera está passando pelo processo de “desapego” com Senna e, apesar de declarar que irá sentir falta do animal, tem ciência que entrou para a socialização para ajudar na causa.  “A gente sabe que o cão não é da gente, mas mesmo assim é difícil”, afirmou Vera. Ela conta que no dia da entrega para o Instituto Senna estava muito muito feliz e brincalhão, que “ficou muito bem”.

“Foi uma experiência muito diferente, que eu jamais achei que ia passar,”, disse a socializadora que já pensa em mostrar o mundo para outro cão do instituto.

 

Outras profissões desses cães trabalhadores

Nem todos os cães que passam pelo treinamento se tornam cães-guias, informou George Harrison. O índice de sucesso do Instituto Magnus registrado atualmente é de 58%, número considerado alto. Mas isso não significa que houve uma falha no processo de treinamento. Muitos cães apresentam algumas questões que podem impedir de se tornar guia.

Essa situação é bem abordada pelo Instituto, porque é necessário identificar se o cão tem perfil para a profissão e assim desempenhar seu trabalho da melhor maneira possível ao lado da pessoa com deficiência visual. Desse modo, o cão que não tem perfil ou está inapto pode seguir outro caminho e ter qualidade de vida.

Mas, o que acontece com os cães que não se tornam cães-guias? Pensando no bem-estar do animal, o Instituto Magnus identifica qual é o motivo pelo qual o cão está sendo desligado e aí pode designá-lo para uma nova profissão. Algumas dessas novas profissões, por exemplo, são os cães que vão para a polícia ou os que se tornam cães terapeutas. Caso o cão não possa ter uma profissão, ele pode se tornar ainda um pet.

“É como se ele tivesse mostrado, durante a faculdade, que aquele curso que está fazendo não é algo que está fazendo ele feliz”, contou George.

Também existem casos em que a pessoa com deficiência visual não se identifica com o cão-guia. Para o instrutor, isso ocorre quando o possível tutor não está preparado para lidar com as responsabilidades de ter um cão-guia. O Instituto, então, busca outro tutor para o cão-guia.

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Recém formados

Os seis cães estão posicionados lado a lado, sentados no chão de cimento claro, juntos aos seis colaboradores do Instituto, cada um segurando uma guia com um cão. Na ponta da esquerda, há a labrador de pelagem preta com a boca um pouco aberta e os demais de cor amarela, de boca fechada. Todos estão olhando para o lado direito com muita atenção.
Cães-guias passarão a frequentar estabelecimentos com pessoas com deficiência visual. Crédito da foto: Emídio Marques/Jornal Cruzeiro do Sul
Família socializadora pode rever Olívia na formatura de cão-guia. Crédito da foto: Arquivo Pessoal

Em agosto, o Instituto Magnus formou uma nova turma de cães-guias, e a Olívia faz parte dele junto com seus companheiros Flor, Marvin, Paris, Popeye e Queen. Eles iniciaram a fase de adaptação com as pessoas com deficiência visual em 19 de agosto, onde se hospedam por 15 dias com os novos tutores, no próprio Instituto.

Amanda Albuquerque, moradora de Salto de Pirapora, foi responsável pela socialização de Olívia. Há cinco meses a técnica de segurança do trabalho entregou Olívia ao Instituto para passar pelo treinamento para se tornar cão-guia.

A foto mostra a parte interna de dois braços, sendo um de Amanda e outro de seu irmão, onde estão tatuados desenhos representando a pata de Olívia, um em cada braço.
Tatuagem feita em Amanda e seu irmão. Crédito: Acervo

 

Durante oito meses, Amanda mostrou o mundo para a filhote de labrador que seria o futuro cão-guia de uma pessoa com deficiência visual. A socializadora também relata a falta do animal, mas que como tudo foi muito esclarecido pelo Instituto sempre se lembrou do motivo pelo qual entrou para o time das famílias socializadoras.

A experiência foi tão marcante, que Amanda e o irmão registraram na pele uma lembrança inesquecível, uma tatuagem da pata da Olívia.

“Senti muito a falta dela, mas tenho consciência que estamos fazendo bem ao próximo”, completou Amanda.

Olívia já encontrou seu novo parceiro e juntos eles estão numa nova fase de adaptação para que ele aprenda o que ela já sabe para ajuda-lo e logo logo, juntos, poderão conhecer vários lugares. Quer saber sobre os próximos passos por onde essa pata irá andar? Acompanha nossa matéria do próximo mês.

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Seis colaboradores do Instituto Magnus uniformizados estão posicionados lado a lado, cada um segurando uma guia com os seis cães graduados. A primeira da fila é de pelagem preta e os demais são de pelagem amarela. Todos os cães estão sentados no chão e olham para o lado com atenção, alguns com a língua para fora da boca e um deles com a boca fechada. Os colaboradores estão sorrindo e olhando para a câmera. Ao fundo, há a portaria de entrada do Instituto Magnus, com paredes amarelas e portão preto.
Time do Instituto Magnus formou uma nova turma de cães-guias. Crédito da foto: Emídio Marques/Jornal Cruzeiro do Sul

 

 

 

 

 

 

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