Cão-guia

Cão-guia promove mais independência para profissional de TI

Conheça a história do labrador que atua como cão-guia de Carlos Eduardo
O profissional de TI Carlos e Chicó estão subindo uma escadaria com poucos degraus, ao lado de um corrimão azul e paredes em concreto. Ao fundo há uma área gramada, arbustos e um caminho para passagem. Carlos está vestindo calça jeans, camisa azul, jaqueta de couro preta e seu crachá no pescoço. Ele segura o equipamento de Chicó, um labrador de cor amarela, com sua mão esquerda.
Chicó atua como cão-guia de Carlos há cerca de um ano. Crédito da foto: Emídio Marques/Jornal Cruzeiro do Sul

 

Calmo, mas muito esperto, o labrador Chicó, de dois anos, tem promovido mais independência atuando como cão-guia. O animal é os olhos do seu tutor, Carlos Eduardo Simões, de 40 anos, que trabalha com tecnologia da informação no Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPQD), em Campinas, no interior de São Paulo.

O trabalho adaptado do programador é feito com o auxílio de fones de ouvido. O aparelho garante audiodescrição do conteúdo que é projetado na tela do computador

Juntos há cerca de um ano, Chicó entrou na vida de Carlos em junho de 2018, após passar por todas as etapas de treinamento no Instituto Magnus. Desde então, a dupla mantém diariamente uma rotina de amizade e muita cumplicidade.

Com Chicó, as atividades diárias muito mais práticas e prazerosas. Como uma ida ao mercado, por exemplo, que podia ser um desafio para uma pessoa cega.

Carlos perdeu totalmente a visão aos 20 anos. Na ocasião, ele sofreu um acidente de moto e precisou repensar seu modo de ver e encarar a vida.

“Depois do acidente tive que ir para uma instituição de cegos para aprender tudo de novo. Aprender a ler, escrever e andar”, declarou Carlos.

O sonho de ter um cão-guia

Na época, Carlos já sonhava com um cão-guia, mas o assunto ainda era pouco especulado no Brasil. Mesmo após 20 anos, existem cerca de 200 cães-guias no País.

Formado em Ciência da Computação, o curso de graduação foi feito por Carlos após a perda da visão. Naquela época, ele sentiu na pele as dificuldades para se adaptar à rotina de uma pessoa com deficiência visual.

O profissional de tecnologia trabalha a 20 quilômetros de sua casa, no Centro de Campinas, há cerca de sete anos. Antes, usava uma bengala para auxiliar em sua mobilidade. Mas, de acordo com Carlos Eduardo, demorava o dobro do que atualmente, com Chicó, para realizar as atividades do dia a dia.

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Carlos e o cão-guia Chicó estão saindo da empresa de TI, passando pela porta do escritório, descendo dois degraus. A fachada da empresa tem portas e janelas de vidro, cortinas de persiana e paredes de tijolos à vista. Carlos está vestindo calça jeans, camisa azul, jaqueta de couro preta, sapatos pretos e seu crachá no pescoço. Ele segura a guia do cão-guia Chicó com sua mão esquerda.
Programador ganhou mais mobilidade com o cão-guia. Crédito da foto: Emídio Marques/Jornal Cruzeiro do Sul

O local de trabalho do tutor, o CPQD, fica em uma grande área, um tipo de condomínio empresarial. Da saída do ônibus fretado até sua mesa no trabalho são muitos passos que antes precisavam ser feitos com o dobro de cautela. Hoje, Chicó já conhece “como a palma da pata” cada cantinho do centro de pesquisa. O cão-guia ganhou até um espaço especial para ele dentro do fretado.

A empresa também teve o cuidado de preparar um local para que o cão-guia fizesse suas necessidades. Uma plaquinha em um dos gramados do estacionamento do CPQD indica que ali é o “banheiro” do Chicó, que é sempre acompanhado por Carlos, que recolhe os dejetos do animal.

Nesta foto o profissional de TI Carlos e o cão-guia Chicó estão caminhando pela área externa da empresa próximo ao espaço reservado para cães-guia, um local gramado que serve como “banheiro” para eles. Ao fundo da foto há uma parede de tijolos à vista e grandes janelas de vidro com persianas. Mais próximo das lentes da câmera, há uma placa azul de sinalização com a ilustração de um cão-guia e os dizeres “Dog Potty Area, Espaço reservado para cães-guia”.
Placa no estacionamento do centro de pesquisa indica o “banheiro” de Chicó. Crédito das fotos: Emídio Marques/Jornal Cruzeiro do Sul

 

A empresa também reservou um espaço para Chicó permanecer sempre ao lado de Carlos, que inclui um vasilhame para o cão tomar água.

Carlos conta que antes passava despercebido pelos ambientes, mas essa realidade mudou com a chegada do cão-guia. A mobilidade aumentou, bem como os colegas, já que, por onde passa, o labrador de pelagem clara e olhar dócil é sempre notado.

“Com o Chicó a minha mobilidade melhorou muito, cerca de 90%. Se antes eu conhecia 50 pessoas, hoje eu conheço umas quinhentas!”

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Acompanhe Zuma, Senna e Olívia

Já com sete meses, Zuma teve um mês intenso. Primeiro, a família socializadora precisou viajar a trabalho e, por isso, ela precisou passar um tempo com uma família temporária. A família temporária cuida do cão em fase de socialização quando a família socializadora precisa se ausentar.

Mas logo depois, retornou para o lar de Sidinéia Venancio dos Santos, que estava com uma viagem marcada entre os dias 4 e 15 de julho, por diversas cidades dos Estados Rio de Janeiro e Espírito Santo. Na oportunidade, Zuma pôde viajar de carro e conhecer a praia, ter contato com a areia e água do mar – experiência adorada pela filhote.

“A Zuma adora bater perna, adora sair, então ela gostou muito da praia. Já sabe o barulho do carro e que, quando a porta do carro abre, é para ela descer”, explicou Sidinéia.

Já com o sentimento de despedida, Vera Lucia de Arruda Oliveira passa pela reta final na socialização do labrador Senna, que completou um ano no dia 20 de junho. A rotina deles continuou a mesma nas últimas semanas: mantiveram as caminhadas em ruas e parques de Sorocaba, com um comportamento sempre elogiado por Vera.

Os dois também passearam pela praça de alimentação de um movimentado shopping da cidade, onde o futuro cão-guia pode ter contato com diversas pessoas ao mesmo tempo. Para Vera, participar do processo de formação de um cão-guia foi uma experiência recompensadora.

“Foi uma experiência muito diferente, mas também um aprendizado. Fico muito orgulhosa de ter participado desse processo e ter conhecido o Senna, que é um cão muito inteligente”, comentou Vera Lucia.

Enquanto isso, Olívia passa pela reta final para se tornar um cão-guia. No último mês, a labradora continuou o treinamento com o instrutor George Thomaz Harrison e pelo aprendiz Ricardo Pinheiro Machado no Instituto Magnus e andou por vários locais, como escadas rolantes, metrô, além de ter enfrentado trânsito, situações que podem ser comuns no dia a dia de uma pessoa com deficiência visual tutora do cão-guia.

‘A gente basicamente terminou o treinamento dela. Temos certeza que Olívia vai ser um cão-guia, só precisamos fazer alguns pequenos ajustes‘, ressaltou o instrutor.

Após as adequações citadas pelo instrutor, Olívia passará pela chamada “adaptação”, no dia 18 de agosto, quando entrará em contato com uma pessoa com deficiência visual que pode ser sua possível tutora. A adaptação é feita no hotel do Instituto Magnus, onde a pessoa com deficiência visual e cão-guia mantêm uma rotina juntos, deste modo verificando se o cão realmente é compatível com aquela pessoa.

Além de Olívia, outros seis cães que passaram por todo o processo de treinamento no Instituto Magnus devem passar por esta fase de adaptação.

Como ter um cão-guia

Para candidatar-se a ter um cão-guia doado pelo Instituto Magnus é preciso se inscrever no site do programa. Após a inscrição, o Instituto entra em contato com a pessoa que solicitou o cão e dá início aos procedimentos de entrevista do candidato.

Família socializadora

A família socializadora é muito importante, pois sem ela é impossível um cão se tornar cão-guia. O Instituto Magnus necessita de várias famílias participantes deste processo de socialização, que recebem um filhote em casa e são responsáveis por apresentá-lo à sociedade.

Para se tornar uma família socializadora também é necessário se inscrever no site do Instituto. A família também deve incluir o filhote na rotina de uma casa, com espaços e pessoas diferentes. Após o período de um ano de convívio, o futuro cão-guia retornará ao Instituto Magnus para completar o treinamento e assim, ser entregue a uma pessoa com deficiência visual. Durante a socialização, as despesas do cão são arcadas pelo Instituto.

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